Cinecartaz

Fernando Oliveira

Meia-noite em Paris

Serão muito sobre isto, os filmes mais recentes de Woody Allen: a perda das ilusões e a impossibilidade dos sonhos enquanto a vida acontece, e as formas possíveis que os personagens arranjam para viver com essa realidade. De forma cruel em “Vicky Cristina Barcelona” (e um dos planos mais cruéis de sempre de Allen é quando a câmara mostra as expressões das duas personagens principais na cena final no aeroporto) ou “Wonder wheel”, de forma cínica em “Whatever Works” ou “Blue Jasmine”, de forma friamente documental em “You will meet a tall dark stranger”, e de forma deliciosamente fantasiosa neste “Midnight in Paris”.
Gil é um argumentista de sucesso em Hollywood, que sonha escrever um romance. Adora Paris, e toda a áurea romântica e boémia que a acompanha, e no filme está de férias na cidade com a noiva e os sogros, os conflitos vão acontecendo e agravam-se com o encontro com um casal conhecido verdadeiramente insuportável. E Gil vai afastando-se. Uma noite, perdido na cidade, e depois das badaladas da meia-noite é convidado a entrar num carro antigo.
A partir daqui o filme delira (e delira da mesma forma que os musicais clássicos deliravam), e Gil encontra-se surpreendido na Paris dos anos 20, 30. Nas várias “viagens” que vai fazer a este passado encontra inúmeras das personalidades artísticas que fizeram a história da cultura do século XX: F. Scott e Zelda Fitzgerald, Porter e Hemingway, Stein, Ray, Buñuel e Dali, Eliot, Picasso e Matisse (desculpa-se algum exagero na quantidade e nalgum exagero na caracterização destes personagens, ou naquela pequeno pormenor do detective na corte de Luis XIV); encontra outras razões para escrever; encontra o amor em Adriana, ao mesmo tempo que aceita a insignificância da sua vida. Mas quando o seu novo amor lhe dá a entender que também ela tem um outro passado como referência de felicidade (a Belle Époque), e quando durante um passeio romântico eles vão parar a essa época e ela escolhe lá ficar, Gil percebe que o presente (a vida a acontecer) é monótona para quase toda a gente e que depende de cada um encontrar razões para ultrapassar essa monotonia. No caso de Gil, e depois de decidir ficar em Paris e romper o noivado, os passeios pela cidade à chuva tendo como companhia uma jovem com quem se tinha relacionado por causa de discos antigos de Cole Porter. Ou seja as pequenas coisas que nos alegram os dias…
Com um notabilíssimo grupo de actores, traz-nos à memória o sublime “A rosa púrpura do Cairo” e claro “Everyone says i love you”, e é uma pequena e magnifica obra-prima de Allen.
E, esquecendo o paradoxo, é engraçado a razão do porquê de “O anjo exterminador”, um dos mais enigmáticos filmes de Buñuel.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 30-03-2021 por Fernando Oliveira