Críticas dos leitores

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Hamnet

Uma ode à vida Pura e dura

Luzia Peixoto

A primeira imagem traz em si, em silêncio, a intensidade e profundidade que define o filme. Bela, poética, silenciosa, altiva e profunda ao mesmo tempo, geral e detalhada, mergulhando para lá do visível e culminando num despertar. "Hamnet" não é um clássico, não é sobre escritores famosos, não é sobre teatro. "Hamnet" é uma ode à vida pura e dura. É sobre a intensidade dos corações e sobre a verdade que reside por detrás de cada humano, quando lhes removemos as capas. É sobre dor e perda e sobre transmutação. O filme é mágico, porque nos leva a mergulhar nas raízes de uma árvore tão profunda como a própria existência e nos faz saber que antes de nós, os nossos ancestrais já construíam memórias que agora revivemos somatizadas, enraizadas, para lá do perceptível e imediato, mas que nos definem de forma visceral e contundente. Ressoa connosco porque a matéria de que somos feitos é exactamente aquela. Agnes é a mulher que o mundo precisa. Sem medo de ser mulher por inteiro. William é o homem curado. Equilibrado no seu feminino e masculino e com poder de transformar a raiva e a dor e a catapultar para o mundo como quem lança o seu coração aos Deuses, despojado de tudo... A história comove porque transcende o drama pessoal pela sua omnipresença atemporal e transversal à humanidade. O drama pessoal vira tragédia em palco, e os homens e mulheres que a assistem sabem que na dor, o silêncio se define para lá das fronteiras de um só corpo. Sobre a força da representação de Jessie Buckley, pouco há a dizer a não ser que quem representa assim, já viveu muitas vidas nesta terra. Jessie não representa. Age e fala, como se as vidas todas dela se tivessem conjugado para culminar em Agnes. Como se as memórias de uma linhagem que se perde, de força e coragem e mulheres empoderadas, incorporassem nela. O Óscar de melhor actriz é pouco para alguém que consegue desta forma superar os cânones da representação.

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Primeira Pessoa do Plural

Inqualificável

Artur Costa

Já vi filmes estranhos. Já vi filmes maus. Deste não posso falar, porque saí da sala ao fim de uma hora. Os críticos profissionais deviam envergonhar-se.

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O Caso dos Estrangeiros

Um murro no estômago

Miguel Jeronimo

Um murro no estômago, do melhor que tenho visto ultimamente.

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Sem Alternativa

Sublime

Nuno Miguel

Um belíssimo filme.

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A Voz de Hind Rajab

4 estrelas

José Miguel Costa

Em "A Voz de Hind Rajab", da realizadora tunisina Kaouther Ben Hanis, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência, dado que este docudrama ficcionado (vencedor do Grande Prémio do Júri do Festival de Veneza e nomeado para os Óscares e BAFTA, respectivamente, nas categorias de Melhor Filme Internacional, e Melhor Filme em Lingua Não-Inglesa) tem por base um evento real ocorrido na esventrada Gaza, em 29/01/24 (o assassinato de uma menina de 6 anos - que dá titulo à obra - perpetrado pelo exército israelita).

A directora (coadjuvada por produtores de peso, como Alfonso Cuarón, Joaquin Phoenix, Brad Pitt, Spike Lee ou Rooney Mara), coloca-nos no centro de um insuportável tsunami emocional ao fazer uso da gravação áudio da própria Hind Rajab a solicitar, aterrorizada, socorro à linha de apoio telefónico dos voluntários do Crescente Vermelho, em virtude do carro em que circulava, em fuga de Gaza, com 4 familiares (todos mortos), apesar de imobilizado e destruído, continuar a ser alvo de sucessivos disparos.

A partir deste "documento histórico" é recriado um espaço cénico fechado quase teatral (o claustrofóbico gabinete de call center da organização humanitária), no qual decorrerá toda a acção (que gravita ininterruptamente entre o vivido e o encenado), narrada sob o ponto de vista dos 4 operadores do Crescente Vermelho que estiveram em contacto directo com a omnipresente protagonista "invisível" e consequentemente tentaram coordenar o seu salvamento (que implicou contornar uma burocrática teia de protocolos com vista à cedência de uma eventual "passagem segura" para os socorristas).

O visceral realismo cru da narrativa que sustenta esta película (que nos expõe à essência da Dor sem quaisquer metáforas), aliado a um dinâmico/electrizante de trabalho de montagem, cria-nos a sensação de "abalroamento por um camião desgovernado", levando-nos a relegar para secundíssimo plano o facto desta não ser formalmente perfeita, nem visualmente estimulante, bastando-lhe a força da verdade e da denúncia (não confundir tal conceito com acto de propaganda melodramática, a que alguns tentam reduzi-la). @jmikecosta

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O Caso dos Estrangeiros

4 estrelas

José Miguel Costa

O filme "O Caso dos Estrangeiros - I Was a Stranger", primeira longa-metragem realizada (e escrita) pelo activista norte-americano Brandt Andersen, é um drama intenso sobre as desumanas agruras às quais os refugiados sírios, fustigados por uma interminável guerra civil fratricida, estão sujeitos para abandonarem o inferno e rumarem, clandestinamente, em direcção à Grécia (buscando o "renascimento", apesar das suas cicatrizes psicológicas/emocionais irreversíveis).

A história inicia-se no ano de 2023, em Chicago, com a curta aparição de uma mulher de ascêndencia árabe a laborar em contexto hospitalar, e quase no imediato regride até 2015, em Alepo, para confrontar-nos com o fatídico dia em que esta perdeu toda a sua família (à excepção da filha), num dos constantes bombardeamentos infligidos pelas forças leais ao regime de Bashar al-Assad.

Este curto episódio de vida é apenas um dos cinco blocos, independentes e sem interligação entre si (até ao momento em que confluem para a acção climax - travessia do mar mediterrâneo num sobrelotado bote decrépito), que constituem a narrativa estruturada em mosaico (exposta em modo flasback).

Esta pungente obra de denúncia, faz algumas cedências ao "entretenimento" (em detrimento do realismo puramente factual) ao optar por um ritmo próprio dos thrillers de suspense, bem como por recorrer a alguns personagens simplistas e estereotipados, para criar uma vertiginosa "sensação de urgência" (coadjuvada por frenéticas filmagens com câmara de mão e a montagem que recorre a cortes drásticos nas cenas). Todavia, tal não é suficiente para deixar de amá-la com veemência. @jmikecosta

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Olhar o Sol

4 estrelas

José Miguel Costa

O filme "Olhar o Sol - Sound of Falling" (Prémio do Júri no Festival de Cannes), escrito e realizado pela alemã Mascha Schilinski, é um austero e contemplativo drama de cariz histórico, cuja acção decorre exclusivamente numa quinta do Norte da Alemanha, na qual residiram, ao longo de um século, quatro gerações de uma família (aparentemente quedada a uma tristeza hereditária), que iremos "conhecer" sob a perspectiva de 4 raparigas pertencentes a cada uma delas (representando períodos necessariamente distintos - 1910, 1940, 1980 e 2010 -, que irão alternando ininterruptamente entre si sem qualquer alinhamento cronológico concreto, gerando, desse modo, eventual confusão nos espectadores).

A História (transmitida através de uma desconexa narrativa não-linear, destituída de contextualização) é vazia de conteúdo relevante (e as poucas ideias que lança - "sem, princípio, meio e fim" - afiguram-se subdesenvolvidas e até inócuas). Pese a incongruência, face à apreciação sobre a qualidade do argumento acima exposta, não consigo menorizar esta obra, dado ser impossível ficar alheio perante o seu sublime lirismo visual (fruto de uma magnífica direcção de fotografia, que opta por um formato 4:3 e privilegia os contrastes e os diferentes tons de negro). @jmikecosta

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Hamnet

A morte saiu à rua

Paulo Guerra

"Hamnet"- a morte saiu à rua. E fui vê-lo uma segunda vez, agora com a Mulher que eu amo (não consigo interiorizar os "meus" filmes favoritos sem a presença, na minha companhia, da Constança). Vi-o sozinho há dias e não consegui falar dele. Apenas de o sentir. É a hora agora. De verbalizar sobre ele.

Fala de ervas doces e selvagens, de pés nus e de mãos calejadas e negras da terra em que se envolvem. De presságios centenários, de mães bruxas no lado certo da história, de florestas e falcões, de um tutor de Latim e de uma Mulher visionária. Ela toca nas mãos dos outros e sente o futuro visto, calmamente visto. Agnes encontra Will e conclui que ele tem mais mundo interior que todos os homens que conheceu. E, por isso, entrega-lhe o seu Amor, essa indecente obsessão que suporta o mundo e que, não raras vezes, corrói os dias.

Will vai ser um supremo bardo em Terras de Sua Majestade mas, por ora, é apenas um aprendiz de poeta e das liturgias das tábuas. Nasce uma primeira filha, Susanna de sua graça. Depois, vêm ao mundo dois gémeos, Hamnet e Judith. E aqui tudo parece mortificadamente confuso para Agnes - afinal, eram duas as pessoas que ela via no seu leito de morte... E os filhos são três! A pestilência chega sem se fazer convidada. E Hamnet decide desafiar a Morte, fazendo em quase morte aquilo que lhe era costume em vida - enganando, trocando as vidas, como se de uma peça teatral se tratasse. E aí a tragédia shakespeariana dos enganos ganha foros de relevo.

A ficção confunde-se com a Vida, o fantasma do pai volta para se redimir da sua ausência aquando da partida do filho, a história de Eurídice e Orfeu repete-se - e aquele olhar final entre os dois progenitores de Hamnet fazem-no voltar à vida, mesmo que por um fugaz instante e sob a capa diáfana dos interstícios da peça que Will escreveu com a dor nos dedos. O pai olha para a mãe em pleno palco. E, afinal, em vez de a condenar à mortificação eterna, tal como na lenda de Eurídice, dá-lhe um sopro de vida que a tudo aquilo dará sentido.

Este filme sente-se. A obra literária de Maggie O’Farrell é também sublime. Mas a realização de Chloé Zhao é soberba em contenção, sensibilidade e arrojo visual. Teve azar este ano - competir com uma obra-prima chamada este "Batalha Atrás de Batalha" do PTA não é fácil. Mas este filme que vi deliberadamente duas vezes entrou-me na alma. Para lá ficar para sempre. Actores em estado de graça. Mescal é o melhor jovem actor da actualidade.

Buckley é a mais do que certa actriz do ano (e esperem pela sua «A Noiva» já esta semana) - esta interpretação crua e acre perdurará nos anais das melhores de sempre... Max Richter volta a encantar-me com as suas notas musicais. Por aqui é fácil amar as mulheres que aceitam sacrifícios e apoiam o sucesso dos seus maridos, o amor que sentem pelos filhos (elas e eles), os pés descalços a tocar no chão, os toques e rituais nas florestas de duendes e gnomos (e buracos negros), nas folhas, nas ervas que curam, nos abraços que se dão.

Por ali há unhas sujas e mantras que seguem as crianças mesmo quando a mãe não está por perto. Há amor puro entre irmãos. Há nomes que dilaceram mas que se podem transformar em redenção – de Hamnet a Hamlet vai um sopro de inspiração. E há por ali espadas, florestas, elefantes, mitos, sonhos, tão próximos do Amor que nos salva... O resto… é o silêncio!

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Primeira Pessoa do Plural

Primeira Pessoa do Plural

Francisco Vasconcelos

Uma autêntica pepineira!

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Valor Sentimental

Filme do Ano (para mim, para já)

João Delicado

Este filme encheu-me as medidas. Farto de ficções que enchem os olhos e deixam a alma vazia, fui ver este filme sem saber quase nada sobre ele. Só sabia que o ator/humorista Bruno Nogueira o recomendara. A surpresa foi-se desvelando aos poucos, no decorrer da narrativa. No final, deixou-me a agradável sensação de saciedade. Enfim, é extraordinário na sua suavidade, subtileza, elegância, candura - nem sei bem qual a palavra mais adequada. Obrigado Joachim Trier por este pedaço de beleza!

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