Críticas dos leitores
Últimas
O Estrangeiro
O Estrangeiro
Mónica Ferreira da Silva
O Estrangeiro de François Ozon é a adaptação do célebre livro de Albert Camus com o mesmo nome. A acção decorre na Argélia de 1930, na altura colónia francesa. A obra fala-nos sobre a vida de um jovem adulto francês que reage com muita indiferença a tudo o que lhe acontece e a todos aqueles com que interage. Essa sua característica vai determinar o seu futuro: o cárcere por homicídio de um árabe de quem nunca ficaremos a saber o nome.
O filme (e o livro) aproveitam para fazer uma crítica velada à presença colonial francesa na Argélia nomeadamente ao não atribuir um nome ao cidadão árabe assassinado. O filme (e o livro) está estruturado em duas partes. Na primeira são abordadas as circunstâncias que conduzem o protagonista, Mersault, ao seu último destino: a prisão. A segunda parte é dedicada ao julgamento do homicida que termina com a sua sentença à morte.
De salientar que o veredicto da sentença é determinado sobretudo pela personalidade indiferente com que Mersault reage às situações com que é confrontado, nomeadamente a morte da sua mãe no lar onde se encontrava a residir (ausência de lágrimas no enterro da progenitora). Essa indiferença é a característica mais marcante do protagonista e está presente em todos os momentos da sua vida, seja na forma como encara a morte da mãe, na forma como encara o relacionamento com Marie ou na maneira como enfrenta a decisão do juiz em sentenciá-lo à prisão. Penso que a escolha de François Ozon em filmar a preto e branco é muito acertada e indicia talvez uma tentativa de demarcar o Bem e o Mal.
Caso 137
4 estrelas
José Miguel Costa
O filme "Caso 137", escrito e dirigido por Dominik Moll, é um metódico e controlado (mas, simultaneamente, pulsante) thriller de investigação policial com uma marcada vertente politico-social que, baseando-se em factos reais ocorridos em Paris no ano de 2018, aquando das coléricas manifestações organizadas pelos Coletes Amarelos (inclusive, são utilizadas inúmeras imagens e fotografias captadas à época), traça um retrato pouco amistoso de um Sistema policial que abusa impunemente do seu poder (facto tão mais incómodo quando tal é exposto por alguém pertença do próprio sistema corporativo - que, por norma, protege os "seus", sem qualquer imparcialidade e respeito pela justiça).
Partindo de um incidente brutal (um inofensivo jovem manifestante gravemente ferido, alegadamente por uma arma policial, com a falsa justificação de que este, devido ao seu comportamento agressivo, constituía um perigo para a segurança das autoridades), acompanhamos a incansável e ingrata jornada de uma empática e humanista inspectora da polícia que tenta provar que o mesmo foi levado a cabo por um grupo de policias (com a agravante de que estes nem sequer lhe prestaram o devido socorro).
Mais do que debruçar-se sobre as questões jurídicas inerentes ao caso, o realizador opta por explorar os dilemas morais que se colocam à protagonista (interpretada brilhantemente por Léa Drucker), a braços com a pressão do topo da hierarquia, bem como dos seus pares, com o objectivo desta abafar a acção dos agressores. @jmikecosta
Fragmentado
Fragmentado
Fernando Oliveira
ESCRITO NA ALTURA DA ESTREIA
Se algo define o Cinema de M. Night Shyamalan é levar o que é narrado até ao limite da incredulidade, pedir a quem os vê que acredite na verdade do filme. Ele, que é um dos mais autênticos crentes da ideia de que um filme não tem que copiar a vida e os seus convencionalismos, mas antes expor pela forma como conta as histórias a perturbante complexidade e os fantasmas, muitas vezes inconfessáveis, que habitam todos nós; exige dos espectadores dos seus filmes uma visão quase religiosa, de fé, para acreditar que as suas histórias fantásticas e fora dos domínios da razão são ao mesmo tempo um espelho dessa desordem.
E é uma história sobre uma desordem psicológica que “Fragmentado” conta: no personagem (s) que James McAvoy interpreta coabitam 23 identidades, cada uma muito diferente entre si. Um deles, Barry, que pensamos ser o dominante - o que interage com a Dr.ª Fletcher (que tem uma ideia muito própria sobre esta doença, acredita que estas pessoas são mais evoluídos que os outros humanos porque conseguiram aumentar as capacidades do cérebro) – mas que se deixou dominar por um outro, Dennis, que é o responsável pelo rapto de três adolescentes à saída da festa de anos de uma delas (espantoso momento a sequência do rapto, que nos é sugestionada e mostrada apenas por aquilo que é cinema: os movimentos da câmara, a montagem, o som…). Há ainda Patricia, cúmplice de Dennis, e Hedwig, que é uma criança no corpo de Kevin (o nome real do personagem).
As jovens tentam reagir; e uma delas, Casey, consegue relacionar-se com o raptor (sabemos no início que tem um comportamento rebelde e associal na escola, e o realizador faz-nos recuar à criancice dela para ficarmos a saber que o pai morreu, e que ela vive com um tio que a violenta – recuos que são tão perturbantes como o presente da história), mais com Hedwig. É através dele que ficamos a saber que uma 24ª identidade está a chegar, as outras chamam-lhe a Besta, e a jovens serão o seu alimento…
O “nascimento” desta 24ª é que vai exigir de nós a tal suspensão da descrença: se a nossa mente acreditar que temos capacidades sobre-humanas, será que o corpo as desenvolverá? Percebemos aí os recuos à infância de Casey, quando a Besta assume o controlo é a única que lhe sobrevive, ele vê nela as cicatrizes (infligidas pelo tio, ou por ela própria?), ela é tão pura quanto ele…
Shyamalan é hábil a evitar que a história deslize para o ridículo, o filme é muito bom nas suas formas; e os actores são magníficos: James McAvoy evita sempre no limite o excesso interpretativo que uma personagem como esta quase exige; Anya Taylor-Joy (que nos tinha surpreendido em “A Bruxa”, um razoável filme de terror) é notável a mostrar aquele medo controlado à beira do descontrolo, a força que nasce do sofrimento que já experimentou; e Betty Buckley. No final de “Fragmentado” a palavra “broken” faz a ligação a “Unbreakable”, o filme que M. Night Shyamalan fez em 2000 sobre uma personagem que não adoecia ou feria. Tal e qual como a Besta. Vamos esperar pelo próximo filme de Shyamalan: “David contra a Besta”. (em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")
Vermiglio
Vermiglio
Maria Martins
A delicadeza de um cristal guardando os sentidos e os sentimentos...
Os Domingos
Humilde e luminoso
João Delicado
Foi por acaso que, há umas semanas, apanhei este filme em Madrid: entrei a medo mas saí profundamente tocado e com lágrimas nos olhos. A música de Leonard Cohen, essa, veio comigo no ouvido - até hoje.
Trata-se de um filme aparentemente religioso mas que é muito mais do que isso. Começa por ser humilde e autêntico na abordagem que faz ao tema da escolha de uma vocação religiosa. É com muita gentileza que a realizadora o apresenta - e quem já o viveu de perto pode ali reconhecer o processo descrito com tremenda verosimilhança. Mas o que mais impressiona é a forma como o filme nos faz dançar entre olhares, silêncios, espaços de respiração e diálogos bem escritos, retratando as tensões internas e externas das personagens.
O tema de verdade talvez seja a liberdade (ou falta dela) com que convivemos com as grandes decisões de quem mais amamos. Mais do que um filme sobre religião, é um filme sobre liberdade e sobre o que significa amar alguém quando não concordamos com as suas escolhas. Pode parecer lento para alguns, mas para quem entra no ritmo, pode ser uma experiência muito tocante e honesta.
Entroncamento
3 estrelas
José Miguel Costa
Dirigido e co-escrito por Pedro Cabeleira, o filme “Entroncamento” (exibido na secção Acid do Festival de Cannes e distinguido com uma menção honrosa no Festival de Locarno), que transpira realismo social por “todos os poros”, apresenta-se-nos como um espelho das desumanizadas e estagnadas cidades dormitório das grandes metrópoles, marcadas pelas desigualdades sociais, povoadas por uma juventude “nem-nem” (descendente das classes baixas e/ou multicultural) sem quaisquer perspectivas de futuro (por falta de oportunidades de integração, formação insuficiente e/ou “apatia”).
Uma desencantada e vigorosa obra com “pêlo na venta” que se agiganta fruto dos seus diálogos naturalistas e das interpretações realistas dos protagonistas “anti-heróis” (caracterizadas por uma grande intensidade/agressividade emocional). Esta autenticidade relacional, provavelmente, decorre da utilização maioritária de actores amadores, membros das minorias étnicas locais. Bem como do facto de “limitar-se a observar”, sem moralismos ou panfletarismos (explícitos), e abstendo-se análises pseudo-sociológicas (não procura as causas nem as eventuais soluções para o “estado da nação”).
O filme constrói-se através de uma sucessão de narrativas cruzadas (que não se fecham - e esta acaba por ser uma das suas vulnerabilidades) em torno de Laura (interpretada por Ana Vilaça), uma bad girl, em aparente fuga do Bairro do Cerco (Porto), que se instala provisoriamente em casa do primo (um desempregado que se dedica à prática de assaltos), com o objectivo de reconstruir a sua vida no Entroncamento (arranjando para o efeito, um part-time mal pago, num armazém). Todavia, rapidamente se enreda numa série de esquemas de pequeno crime, que irão criar tensão entre os “poderes instalados” no gueto.
Romaria
4 estrelas
José Miguel Costa
Depois dos magníficos “Verão de 1993” (2017) e “Alcaràs” (2022 - Urso de Ouro no Festival Berlim), a realizadora e argumentista espanhola Carla Simón regressa às salas de cinema com o filme “Romaria”, encerrando com chave de ouro uma trilogia assumidamente semiautobiográfica que, fazendo uso de uma delicada narrativa intimista (com o seu quê de abordagem antropológica e sociológica) reflete sobre identidade, memória familiar, herança emocional e reconciliação com o passado. Mais uma vez, coloca-nos (sem recurso a manipulações emocionais excessivas) perante um drama familiar realista e naturalista (dotado de uma linguagem de génese documental, nomeadamente pelo recurso a voz off descritiva), captado com câmara de mão, que uma parte da crítica especilizada cataloga como "a sua obra-prima".
Opinião da qual discordo (preferindo atribuir esse "troféu" à sua segunda longa-metragem), dado que a coqueluche da nova vaga da sétima arte espanhola "borrou a escrita" ao inserir "à papo-seco", perto do final, uma questionável opção estlistica (algo "esotérica") descontextualizada e sem nexo numa História desta natureza.
A ação de Romaria, que decorre em Vigo, cruza os acontecimentos ocorridos em duas linhas temporais distintas, o presente (2004) e o ano de 1984 (ao qual acedemos por via de pequenos flashbacks soltos do diário herdado pela protagonista pertença da sua progenitora - que são revelados através de filmagens feitas com equipamento digital da época, captadas na actualidade pela própria filha, nos locais mencionados no documento em causa, por forma a criar memórias visuais dos pais biológicos que não conheceu).
Acompanhamos, ao longo de 5 dias, a jornada de descoberta familiar de Marina, uma jovem catalã de 18 anos, adoptada à nascença (dado os progenitores não terem sobrevivido à heroína e sida). Sem qualquer contacto anterior com a família paterna é empelida a viajar até ao seu encontro das "origens" com um duplo objectivo: tentar que os avós a reconheçam, no notário, como descendente do seu filho, para poder candidatar-se a uma bolsa de estudo; e obter dados concretos sobre o pai (o que trouxe à tona um passado que Eles preferem esquecer/esconder).






