Críticas dos leitores

Últimas

Fomos Soldados...

Muito Mau

Thomas

Pode-se dizer que este filme repete montes de estereótipos sobre filmes de guerra e acaba por não ir a lado nenhum. Para esquecer. Classificação: 0/5

Continuar a ler

Natal Amargo

Natal amargo

Fernando Oliveira

Pedro Almodóvar a reflectir sobre a relação entre o Cinema e a vida, sobre o acto de criar, como o autor vampiriza a vivência dos que lhes estão próximos, como lhes rouba as histórias. Aceita a ausência de “culpa”, mas questiona os limites. Nas histórias do filme, para um regresso, o Cinema como um vício?

Há Elsa (Bárbara Lennie) que é realizadora de publicidade, mas foi autora de dois filmes que ninguém viu mas que se tornaram de culto (é engraçada a explicação que ela dá sobre o significado de filme culto), vive com Bonifácio, um bombeiro que também é stripper e, no início do filme, Elsa sofre de ataques de pânico, uma enxaqueca tremenda.

Numas férias em Lanzarote com a sua amiga Patricia (Victoria Luengo), dá-lhe vontade de começar a escrever um argumento, “apropria-se” da vida das suas duas amigas, Patricia a atravessar uma crise conjugal e que corta com Elsa depois de ler o rascunho do argumento, e Natalia (Milena Smit) que depois vai ter com ela, uma depressão profunda desde que perdeu um filho num acidente, uma tentativa de suicídio, Bonifacio “desaparece” da história.

Entretanto o filme já nos apresentou Raúl (Leonardo Sbaraglia), um realizador importante que não trabalha há cinco anos mas que agora está a escrever um novo argumento e tem ganas de voltar a filmar. A colaboradora de muitos anos, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), “abandona-o”, vai viver com a namorada que tem o filho a morrer, com ele fica Santi, entre os dois uma paixão suspendida.

Quando Mónica percebe que Raúl está a “roubar” a sua história para o seu argumento, zangam-se, uma discussão: “já ninguém espera de ti mais clássicos, está na altura de desfrutares do teu trabalho…", a seguir propõe-lhe que a “corte” do argumento e faça dele um filme para a Netflix, diz Mónica a Raúl. Nesta altura já sabemos que a história de Elsa é o argumento que Raúl está a escrever.

"Natal amargo” também é o título desse argumento…. Elsa “é” Raúl. Elsa e Raúl “são” Almodóvar. O filme é um enleio entre a ficção e a realidade; melhor entre a ficção e a ficção e as reflexões de Almodóvar. Pedro Almodóvar conta-nos estas histórias com uma realização de um classicismo irrepreensível, sensível ao trabalho das actrizes, sabe olhar para a “verdade” dos personagens; os cenários e as cores, as canções de Chavela Vargas, a sublinhar o peso das emoções.

Chega uma altura em que todos os criadores pensam no “fim”, da vida e da sua arte, por isso ampliam o passado nas suas criações e na sua vida. Este filme de Almodóvar também é sobre isso. Por tudo isto é um filme muito bonito e comovente. (em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")

Continuar a ler

Santo António, O Casamenteiro de Lisboa

Lisboa

Dora César

Filme para quem conhece Lisboa e que repara no excesso de espaços só para turistas, filme sobre a solidão no meio da multidão, filme sobre as tradições que se vão perdendo. Pena é a intensidade do som (boa escolha das músicas). Cena da personagem Carmo (Rita Blanco) a entrar no eléctrico é de antologia.

Continuar a ler

A Revolta

A Revolta

Diamantino Henriques

Gostei. Filme sem tretas e com fundamento histórico.

Continuar a ler

Natal Amargo

3 estrelas

José Miguel Costa

O filme "Natal Amargo" é um comédia dramática semi-autobiográfica que, recorrendo a uma fragmentada narrativa em espelho e à metalinguagem ("histórias dentro de histórias"), cria uma espécie de "estrutura estilística em matrioska" (misturando, continuamente, a realidade e ficção) como meio para discorrer sobre as temáticas da morte, culpa, ansiedade(s) e bloqueio criativo (e consequente apropriação/"vampirismo" emocional, sem qualquer pudor e/ou consentimento, daqueles que rodeiam o "desinspirado").

Todavia, neste seu novo filme (uma quase versão requentada, de "segunda categoria", do excepcional "Dor e Glória") a reflexão do cineasta Pedro Almodóvar incide sobretudo na eventual legitimidade de construir guiões tendo por base pessoas reais e as respectivas vivências intimas, mesmo que tal as magoe e/ou degrade as suas relações interpessoais.

A história aparentemente centra-se em Elsa, uma bem sucedida publicitária (companheira de um bombeiro striper) que, em fuga ao luto pela morte da mãe, atafulha-se em trabalho, até ao dia em que começa a manifestar os primeiros sintomas inerentes a crises de pânico, que a obrigam a abrandar o seu ritmo diário.

No entanto, cedo nos apercebemos que esta não passa de uma personagem do argumento que está a ser escrito por um conceituado realizador cinematográfico algo arrogante e frustrado (com uma imagem clean e "politicamente correcta") que vive à sombra do passado, ávido por um novo sucesso comercial com material original original.

Como fã do Almodóvar, há muito que tive de conformar-me com o "amadurecimento" que o afastou dos saudosos personagens histriónicos à beira de um ataque de nervos em "ambientes garridos e carregados de purpurinas" e, por consequência, habituar-me à nova linguagem dos intimistas dramas auto-reflexivos e visualmente sofistificados.

Independentemente desta mudança de chip que me freia as expectativas, não consigo deixar de considerar "Natal Amargo" como um produto mediano (com mensagens pouco subtis/demasiado "explicativas" e personagens subdesenvolvidas) que não faz jus ao Mestre. Possivelmente, até poderia achá-lo muito interessante, caso não tivesse saido das entranhas do Almodóvar ... @jmikecosta

Continuar a ler

Santo António, O Casamenteiro de Lisboa

Santo António

Benilde

Eu gostei do filme, excelentes actores e a mensagem que o filme pretendeu passar também também me nela. As cidades crescem desenfreadamente sem regra nem respeito pelos moradores mais velhos que sempre viveram lá e as tradições populares.

Apenas o fim devia ter sido mais bairrista e todos juntos misturados com a população a celebrar o Santo António e a defender as tradições com respeito pelos emigrantes trabalhadores, não o povo todo de um lado a bater palmas e a atriz do outro a manter-se solitária até ao fim.

Continuar a ler

A Taberna do Irlandês

A Taberna do Irlandês

Fernando Oliveira

Um filme obviamente menor de John Ford. E isto porque o realizador escolheu forçar dois olhares que o fazem resvalar frequentemente para a caricatura. Mas, provavelmente, é só isso que o filme quer ser: um divertimento, um filme “outonal” de um dos nomes essenciais do Cinema, uma obra quase final.

E quais são esses dois olhares? O primeiro é uma misoginia inconveniente, até grosseira, ou como uma mulher de negócios moderna é “amansada” não apenas pelo amor ao homem rude, mas até com umas palmadas no rabo; o machismo será, talvez, esvaziado porque neste movimento porque a mulher perde a compostura rígida e torna-se muito mais livre, e feliz, passando primeiro por uma sequência de desventuras a sublinhar-lhe o ridículo e o “estatuto” evoluído. Depois há o desenho do bom selvagem, subserviente à superioridade cultural do homem branco: o “postal turístico” como nos são mostradas as actividades nativas, o Governador que “conhece” bem as dançarinas; a princesa que respeita as crenças ancestrais, mas como “toda” a gente acredita num Deus único.

Posto isto, não há como recusar a ideia de que este filme é divertidíssimo, e como nessa ludicidade nos faz esquecer esses dois olhares. Três homens (John Wayne, Lee Marvin, e Jack Warden) que encontraram refúgio, depois de um naufrágio, numa ilha da Polinésia Francesa, durante a II grande Guerra, resolvem continuara a sua vida aí. Dois deles fazem anos no mesmo dia e é tradição ser um dia de bebedeira e pancadaria; o terceiro é um médico respeitado.

A filha deste último (Elizabeth Allen) chega a ilha para provar que o pai terá comportamentos que o impedem de herdar a Companhia de Navegação propriedade da família, só que o pai casou com a falecida princesa da ilha e tem três filhos dela; ele está ausente e Donovan, o personagem interpretado por Wayne, mente e diz que as três crianças são filhos dele. Claro que após as mais descabeladas peripécias tudo acaba bem… e há a guerra dos sexos, que rapidamente toma conta do filme (e se em Hawks a mulher “ganha” sempre o confronto, mesmo quando não parece, Ford utiliza a jocosidade dos personagens masculinos para fazer pender a balança para o lado deles), a relação entre Donovan e Amelia, e a “descoberta” dela da sua nova família.

Tudo isto torna estes personagens tão humanos (há ainda o governador interpretado por Cesar Romero, e uma cantora interpretada por Dorothy Lamour, que já tinha andado com Ford nestes mares em “O furacão”), que torna o filme num bastante feliz. E mais do que esta estória, ou através dela, o filme é acima de tudo um enaltecimento às pequenas coisas felizes do dia-a-dia, o sol, as cores alegres do vestuário, uma queda no mar, um sorriso, as pernas de uma mulher, e a mais bela encenação do Natal da história do Cinema.

Não é de maneira nenhuma um dos grandes filmes de Ford, mas é um filme que nos deixa com um sorriso, e isso é muito bom. (em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")

Continuar a ler

A Estrada do Tabaco

A Estrada do Tabaco

Fernando Oliveira

“As Vinhas da Ira”, “A Estrada do Tabaco” e “O Vale Era Verde”, realizados entre 1940 e 1941, são três filmes em que John Ford consegue integrar nos valores essenciais do seu conservadorismo - a família e a pátria, Deus - a justeza de um olhar profundamente realista e brutal na encenação das consequências que a pobreza ou a perda de valores têm nas famílias, o negrume da exclusão social.

Adaptado por Nunnaly Johnson de um romance de Erskine Caldwell, “A estrada do tabaco”, teve uma produção difícil e polémica, com Johnson a acusar Ford de ter exagerado quase até à caricatura.

Mas se é certo que o filme não nos rasga o coração, ou assola de angústia, não nos exalta, talvez, com aquela coragem desprendida, com apego aos valores ancestrais, com que Ford exemplarmente nos encharca nos outros dois; há algo de demasiado pitoresco naquela família rural da Geórgia, personagens que parecem teatralizadas na representação; aquilo que muitas vezes define o Cinema de Ford, o apego dos personagens à terra em que nasceram e a defesa do seu modo de vida, o direito a serem o que querem ser, está representado com uma força tremenda neste filme.

Com Charles Grapewin, Marjorie Rambeau, Gene Tierney, Dana Andrews e Ward Bond: um elenco prodigioso num grande filme de Ford. (em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")

Continuar a ler

Raparigas de Uniforme

Raparigas de Uniforme

Fernando Oliveira

“Raparigas de Uniforme” é o único filme realizado por Leontine Sagan (co-realizou mais dois no Reino Unido para onde fugiu perseguida pelo regime nazi, mas são filmes que não deixaram memória). Foi em 1931, e é uma adaptação de uma peça de teatro de enorme sucesso um ano antes, que Sagan encenou e cujo autor, Carl Froelich, supervisionará o filme.

Após a morte dos seus pais, Manuela é mandada para um colégio interno. A mistura de emoções que a angustiam, o luto, a solidão, o sentimento de não pertença, é atenuada pela simpatia de uma das professoras, Elisabeth. Pouco a pouco Manuela vai percebendo que está apaixonada por ela. Hertha Thiele, que também protagonizara a peça, é Manuela, que descobre uma insuspeita desinibição por entre a dor e os medos que a perturbam; Dorothea Wieck é Elizabeth que consegue transmitir uma controlada atitude perante as incertezas que o amor de Manuela lhe causa.

Leontine Sagan encena de forma magnífica o equilíbrio necessário entre a atmosfera opressiva do colégio, a disciplina castradora e a liberdade que é descobrir-se apaixonada, as aproximações e as afinidades que vemos tecer entre as duas. Filme maldito e durante muito tempo proibido, é o canto de cisne do Cinema alemão que nos anos vinte deslumbrou, e continua a deslumbrar, quem ama esta Arte. Um filme raro e muito belo. (em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")

Continuar a ler

Romaria

Romaria

Fernando Oliveira

Quase tudo o que Marina sabe dos seus pais está escrito num diário da sua mãe. Os dois morreram, ela recém-nascida, vítimas do SIDA que ceifou muitas vidas na Espanha dos anos oitenta. Órfã de pai galego e mãe catalã, adoptada e a viver longe da família biológica, Marina a precisar de uma certidão de nascimento para ser bolseira para estudar Cinema descobre que os pais nunca a declararam como filha.

No filme estamos no Verão de 2004 e Marina vai à Galiza procurar os avós e os tios para conseguir esse documento. Depois de “Verão 1993” e “Alcarràs”, filmes muito bonitos, “Romaria” é o terceiro filme de Carla Simón e terá uma história com muitas memórias autobiográficas (também perdeu os pais muito nova, julgo que li que terá usado partes de um diário da sua mãe, Marina quer estudar Cinema), e é outra vez um filme que olha para a família como um desequilíbrio entre a estabilidade, um porto seguro, e a incompreensão, a desconfiança.

O contacto com os tios e os avós, embora amigável, levanta questões, Marina começa a querer saber coisas, há uma diferença entre o que a mãe escreveu nos diários e o que lhe (não) contam. O olhar de Marina não julga, tal como o da realizadora é comedido, mas percebe que como ela agora, os pais também estiveram “de fora” naquela família.

Há a pergunta que nunca é feita no filme (mas que o filme responde): porque não foi ela adoptada pela família do pai? Para Marina a viagem vai servir para compreender que a vida dos pais foi um desejo de liberdade, para isso o filme encena o escrito no diário da mãe conforme Marina o imagina, o filme faz uma viagem ao passado. No filme, Marina e o seu primo Suso tomam os lugares dos pais dela num regresso aos anos oitenta, numa Espanha meia presa à memória do franquismo, a outra metade a descobrir a liberdade e os prazeres da vida. Esta “viagem” traz ao filme uma ambiência quase onírica, um onirismo “artesanal”.

A fotografia de Hélène Louvart é lindíssima, sente-se o Verão, lembra memórias filmadas (Marina leva uma câmara para filmar a viagem, também as cenas com os pais parecem ter sido captadas dessa maneira - será porque, como futura cineasta, ela "vê" o passado como quer filmar?); Llúcia Garcia que interpreta Marina é um estremecimento; gosto muito da realização e da história contada por Carla Simón. Uma história sobre a saudade daquilo que nunca se teve; um filme de fantasmas, portanto. Tudo isto é muito bonito.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")

Continuar a ler