Críticas dos leitores
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Living the Land - O Vento É Imparável
5 estrelas
José Miguel Costa
O filme "Living the Land – O Vento é Imparável" (vencedor do Urso de Prata para melhor realização no Festival de Berlim), escrito e dirigido pelo chinês Huo Meng, é um (quase épico) drama de época campestre, com um registo naturalista e uma linguagem marcadamente documental, que se constitui como uma espécie de réquiem a um país rural pejado de vibrantes tradições ancestrais que pereceu perante uma voraz revolução tecnológica imposta pelo poder estatal.
A acção (eminentemente contemplativa) decorre numa remota (e pobre) região do nordeste da China, ao longo do ano 1991, e tem por centro gravitacional narrativo um angelical (e omnipresente) menino de 10 anos (alter ego ficcional do próprio Huo Meng, criado com base nas suas memórias de infância), sendo sob o ponto de vista do mesmo que assisteremos ao banal (e, simultaneamente, algo mágico) ciclo da vida de uma pequena aldeia ainda dotada de identidade/intocada pelo "progresso" (apesar de evidenciar alguns resquícios das profundas mutações socioeconómicas que se avizinham, nomeadamente, o início do êxodo populacional para as grandes cidades em busca de "uma vida melhor").
Deste modo, somos granjeados com exuberantes imagens de cerimoniais ritualizados de natureza diversa (um casamento, um funeral, os festejos do novo ano chinês); emocionamo-nos com a pureza e a rudeza das simples dinâmicas relacionais da família alargada do petiz (quatro gerações sob um mesmo tecto), que ficou à guarda dos avós maternos, após a migração dos progenitores; deleitamo-nos com as "coreografias" dos trabalhos agrícolas.
E tudo isto "embrulhado" em cenários coloridos por paisagens esplendorosas, expostos através de longos planos (captados por fluidos movimentos de uma câmara que alterna continuamente entre grandes planos e close-ups). Destaque, igualmente, a sensibilidade com o realizador capta a essência dos castos aldeões, maioritariamente actores amadores. @jmikecosta
O Homem Sem Braços
O homem sem braços
Fernando Oliveira
Foi um dos autores que melhor soube questionar o conceito de normalidade nas histórias que contou nos seus filmes. Se nos espantamos com “Drácula”, “Freaks” ou “The devil doll”, neste “The unknown” realizado em 1927, anterior aos três, contará a mais perversa e como consequência mais trágica das narrativas dos seus filmes.
Num circo (como em “Freaks”), Alonzo, um fugitivo da justiça, finge não ter braços para esconder uma marca que o identificaria, encena um número com Nanon, a filha do dono do circo, que é amada por ele e por Malabar, o Homem-Forte; Nanon tem fobia dos braços masculinos e sente-se confortável junto a Alonzo. Quando o pai dela descobre o segredo de Alonzo este mata-o, e obriga um cirurgião a amputar os seus braços; quando regressa ao circo descobre que ela ultrapassou os seus medos e aceitou casar com Malabar…
Uma visão horrível de uma obsessão, inscrita numa comovente história de amor, onde aquilo que define o que é humano é reflectido como num espelho de uma “casa dos horrores”. Com duas representações sublimes de Lon Chaney e Joan Crawford. (em "oceupinfernoeodesejo.blogspot.com")
Marty Supreme
Marty Supreme
Fernando Pimentel
Do ponto de vista formal, "Marty Supreme" parece uma espécie de "Os Salteadores da Arca Perdida" transposto para o tempo e sofisticação atuais ao alcançe do bom cinema e dos realizadores talentosos. Mas a experiência cinematográfica da realização do Safdie não atinge, quanto a mim, os níveis de glamour do Spielberg. Isso pode estar relacionado com o facto de "Os Salteadores" ser despretensioso, visar apenas entreter, e sendo assim, pode pôr as fichas todas no lado aventuroso e cómico do filme.
Com Marty Supreme estamos ainda no cinema de entretenimento, mas a ambição é maior, pelo maior ênfase na qualidade a todos os níveis, desde os atores à realização autoral, passando por algumas ideias notáveis inscritas no argumento. Esta qualidade é detetável. Ela passa para a assistência durante a degustação. Mas depois lembramo-nos de pouco no dia seguinte.
Ou seja, é um filme de entretenimento e de qualidade mas que do ponto de vista de nenhum dos dois recolhe a vantagem que uma exclusividade atrairia. Fica assim a ideia de que o trabalho podia ter ganho em afastar-se um pouco dos canônes deste tipo bicéfalo de cinema, agulhando tudo para o lado da qualidade, sem precisar de fazer cedências e tornar-se "enjoyable". Essa única dimensão daria lugar também a um único epíteto para o classificar: Memorável. Assim, são precisas duas palavras: Muito Bom.
Mata-te, Amor
Mata-te amor
Fernando Pimentel
A primeira coisa que se deseja depois de ver este filme é que Jennifer Lawrence não se mate, para continuar a dar corpo a personagens que fiquem connosco, como esta. Já percebi, por vários comentários, que não é um filme consensual, e concordo nesse ponto. Porque "Mata-te, Amor" é uma película que convida a estranheza a entrar. Estranha-se mas, como sabemos, esse é, por vezes, um dos veículos da beleza, um daqueles que a arte escolhe para chegar.
Escolhendo mecanismos quase infantis para nos inquietar, o filme consegue ser eficiente. Não preciso de ver números para considerá-lo um trabalho de baixo orçamento. E no entanto é eficaz na forma de produzir alguns dos seus efeitos. Por vezes assusta, surpreende, choca.
Quem vai à procura de uma história, apesar de ela existir, pode sair desiludido, porque embora nos façam ver coisas diferentes do habitual, os elementos insólitos retiram à narrativa algum do seu poder, fica-se um pouco aquém daquela esperada coerência. Mas se nos agarramos à(s) personagen(s), se olhamos para o filme também pelos momentos de performance, se damos a nós próprios a oportunidade de nos surpreendermos como diante de um novo quadro, um novo estilo de pintura, então podemos lembrar-nos mais deste filme do que de um filme popular de qualidade dos EUA. Esses filmes são por vezes muito bons, muito bem feitos, com momentos fantásticos, são agradáveis vinhos.
"Mata-te, Amor" é diferente. Áspero na boca, sente-se o álcool, mas tem final de prova prolongado. Ainda o sinto semanas depois. O teor alcoólico é maior. Devia ser só para adultos.
Nouvelle Vague
Nouvelle Vague
Fernando Pimentel
Sobre esta espécie de meta-filme, porque é um filme sobre um filme, fiquei com impressão de se tratar de um objeto esférico. Perfeito na sua forma de contar a história, equilibrado entre o que dizia e a forma como o dizia, desempenhos superlativos dos atores, retrato inestimável de um período grato da história do cinema.
Mas talvez seja um filme que fica demasiado por dentro, que não vai para lá da superfície conforme da esfera, que não nos agarra de forma decisiva. Talvez por se tratar em parte de um trabalho jornalístico, que não pode abandonar o olhar rigoroso, e o objeto da reportagem.
Mesmo assim, destaca-se com prazer a abertura de portas aos bastidores da realização, e o humor, que foi entre todas as cores da palette aquela que me deixou a mais prevalecente impressão. Apesar das considerações seria injusto não considerar esta nova vaga como um filme bastante bom.
Onde Aterrar
Onde Aterrar
Fernando Pimentel
Neste filme aterra-se num lugar sossegado. Numa espécie de corredor das almas em que a entrada em alguns quartos nos oferece momentos genuínos de contemplação e em que os outros, mais encaixados na narrativa, preparam esses momentos de soltura. Reduzem o que é material à sua pequena condição, para que o questionamento e o espiritual tomem conta do écran.
Há uma cena particular de que me lembro, porque diariamente se passa algo equivalente à minha porta. Nunca lhe atribuiria um significado para além do evidente. Vou à janela e é como se estivesse a ler um poema do realizador Hal Hartley. É também feliz que um filme menos movimentado não passe da hora e um quarto, sem por à prova a nossa capacidade de atenção. Passaram vários meses e ainda me lembro dele. Deve querer dizer alguma coisa.
Valor Sentimental
4 estrelas
José Miguel Costa
O realizador norueguês Joachim Trier, a julgar pelos galardões granjeados com o filme "Valor Sentimental" (Grande Prémio do Festival de Cannes, vencedor nas 4 principais categorias dos European Film Awards, 1 Globo de Ouro, 8 nomeações para os BAFTA e Óscares), transformou-se no mais aclamado representante do cinema de autor escandinavo da actualidade (adeus, Lars Von Trier!). Todavia, apesar da inquestionável qualidade da película em questão, não considero que esta seja a sua obra-prima, até porque as antecendentes "Oslo, 31 de Agosto" e "Thelma" revelaram-se manifestamente mais impactantes.
Trier brinda-nos com um intimista e melancólico drama familiar algo bergmaniano. Fazendo-se valer de um fino humor e uma "tristeza elegante" (acumulando uma contínua tensão sem jamais "explodir"), mergulha-nos no inesperado reencontro de uma família fragmentada (juntando um pai frio e egocêntrico, desaparecido após o divórcio, e as suas duas filhas adultas fortemente conectadas entre si) marcada por memórias pouco redentoras, pelo peso da imperdoável ausência, os silêncios comunicacionais e ressentimentos por sarar que entravam a hipótese de uma eventual reconciliação entre as partes.
Apenas uma ponte continua a uni-los tenuemente, o amor pela representação (ele um realizador, outrora conceituado; a filha mais velha, uma actriz competente, mas pouco confiante). Poderá a arte constituir-se como um elemento de reaproximação? O centro nevrálgico da obra é a casa que albergou 3 gerações da família, funcionando como uma quase personagem que impulsiona o desenrolar da narrativa (sustentada por diálogos tão incisivos quanto espirituosos) que vai descascando gradualmente as múltiplas camadas dos seus emocionalmente complexos protagonistas (desconstruindo um autêntico "quebra-cabeças" de sentimentos por entre silêncios e desconfortos, apenas revelados por pequenos gestos ou olhares captados subtilmente pelo cineasta).
Foca-se sobretudo no "interior" dos personagens, interpretados com toda a alma pela (repetente) Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning. @jmikecosta
Valor Sentimental
Cinema para quem ama cinema. 4*
Martim Carneiro
Sem poupar nas palavras: Um filme deslumbrante: história superlativamente criada, recriação precisa dos espaços no tempo e nos lugares. Realização e montagem plena de intensidade, com aproximações aos rostos que captam a interioridade sentida das personagens. As manas norueguesas (não loiras) são de uma beleza que até faz doer a vista!
Ângelo na Floresta Mágica
Não é para crianças de 6 anos
JC
O filme é demasiado assustador e com temas demasiado complexos para uma classificação M6. Tivemos de sair a meio.






