Dirigindo no Escuro
Ricardo Pereira
Nos últimos anos se tornou recorrente a cada novo filme de Woody Allen a ladainha de que o cineasta não é mais engraçado e que seus filmes mais recentes estão longe de fazerem justiça a sua brilhante filmografia. No entanto quando o assunto é comédia, pura e simples, e é isso que Woody Allen faz de melhor, tente-se não rir durante as projecções de “Small Time Cookies”, “O Escorpião de Jade” e agora do seu novo lançamento, “Hollywood Ending”. A tentativa será frustrada porque o humor de Allen continua refinado como sempre foi. Mas talvez somente espectadores refinados sejam capazes de identificar isto. O assunto predilecto de Woody Allen sempre foi o próprio Woody Allen. Em grande parte de seus filmes, os personagens interpretados por ele obedecem a uma espécie de padrão, que se confunde com a imagem do próprio realizador: judeu nova-iorquino neurótico e intelectualizado. Em “Hollywood Ending”, Allen escancara essa referência: o filme fala abertamente sobre ele, ou melhor, sobre a crise de um realizador de cinema dentro da indústria norte-americana de entretenimento. Sua personagem, Val Waxman, é o judeu nova-iorquino de sempre: neurótico, hipocondríaco e intelectualizado. Mas Waxman é também um realizador, e precisa terminar uma grande produção — espécie de última cartada na sua já decadente carreira. Para piorar as coisas no primeiro dia de filmagens, Waxman fica cego. A cegueira torna-se metáfora para uma indústria do entretenimento viciada na idolatria. O nome de um estrela ou de um realizador basta para que um filme tenha produção garantida. Em “Hollywood Ending”, Waxman resolve esconder sua cegueira e fingir que dirige o filme. Allen faz paródia de “La Nuit Americaine”, de François Truffaut, ao recriar as cenas em que assistentes pedem para o realizador decidir entre uma arma ou outra, entre um relógio ou outro. Mas, se ninguém entende Waxman, todos permanecem passivos. O único no set que reclama das atitudes incoerentes do realizador é seu director de fotografia (um chinês), que não entende patavina do que está acontecendo. Enquanto isso, toda a equipa americana insiste em paparicar o realizador, tido como "génio". Fazendo parte da mesma cepa de outros filmes como “The Bad and the Beautiful”, “The Player”, ou o recente “Inadaptado”, Allen mostra a indústria cinematográfica por dentro e resolve destruir a idolatria que, diga-se, manteve o realizador no auge durante mais de 30 anos. Allen parece saber que ser um "auteur" no cinema actual (o termo que a crítica francesa usava para designar aqueles que conseguiam imprimir uma espécie de assinatura pessoal em seus filmes) é obedecer à repetição de certos maneirismos. A questão é complicada, mas Allen não se coloca fora do alvo das críticas do filme. Pode ser que alguém estranhe que Allen, hoje um protegido de Spielberg e da poderosa DreamWorks, ironize tanto o cinemão comercial. Mas isto é desconhecer a base psicológica de todo grande artista. Allen, como cineasta, não deve ter o menor compromisso com a gratidão, nem mesmo com quem torna seus filmes possíveis. Deve ter o diabo no corpo e gosto de sangue na boca para botar na roda até mesmo quem o sustenta, aplaude e o acha um génio. É o que se espera dele.
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