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Pedro Brás Marques

Redenção

Ainda terá salvação um homem que chega aos noventa anos duma vida pautada por egoísmo e de costas virada para a família? A metáfora de Dismas, o Bom Ladrão, ecoa neste regresso de Clint Eastwood a uma excelência que já não se via desde “Gran Torino” e após os algo banais “Milagre no Rio Hudson” e “15:17 Destino Paris”.
“Correio de Droga” conta a história de Earl Stone, um homem que, regressado da guerra da Coreia, dedicara toda a vida ao cultivo de flores. A sua prioridade fora sempre a horticultura, mesmo em detrimento de obrigações familiares fundamentais, como a de estar presente no casamento da filha. Mas “a internet” arruína-lhe o negócio e, sem outro meio de sobrevivência, acaba por aceitar transportar droga entre duas cidades. A princípio, os traficantes desconfiavam dele, por causa da idade, mas rapidamente todos perceberam que, aliado a uma condução imaculada, essa era precisamente a mais-valia de Earl. Com o dinheiro recebido, começa por pagar as suas dívidas e o casamento da neta, compra um carro novo e torna-se um mecenas solidário. E tudo corre bem, até àquele momento em que a desgraça bate à porta, infortúnio que acaba por se transformar em redenção…
Clint Eastwood assina aqui um filme onde vamos reencontrar muito do imaginário que sábia e laboriosamente construiu ao longo duma carreira extraordinária. Earl é um horticultor reconhecido e premiado, mas afastado dos amigos e principalmente da família acaba por encarnar o “herói solitário” só que, em vez de cavalgar pelas pradarias, desliza pelas auto-estradas ao volante dum todo-o-terreno com cavalos debaixo do capô. Por outro lado, a própria ideia de remorso e de expiação da culpa é omnipresente na sua filmografia, como em “Unforgiven”, “Mystic River” ou “American Sniper”. Toda esta síntese está envolvida na trama que é servida duma forma absolutamente clássica, a relembrar a forma escorreita e “seca” como John Ford e Howard Hawks, por exemplo, faziam. Não há tempo para ajuizar sobre as reflexões das personagens ou para apresentar lições sobre o sentido da história. Eastwood, como os mestres citados, limita-se a narrar enquanto os actores interpretam. As conclusões caberão exclusivamente ao público. Em última análise, será até uma atitude de respeito para com a inteligência do espectador. E tudo ganha ainda maior dimensão porque o que está em causa é um dilema moral: o que Earl faz é errado mas será justificável?
Nota final para o luxuoso naipe de secundários: Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Andy Garcia e Michael Peña e para a banda sonora, entregue ao virtuoso do trompete, Arturo Sandoval. E, claro, para o argumentista Nick Schenk que tinha trabalhado com Eastwood precisamente em “Gran Torino”.

Publicada a 26-03-2019 por Pedro Brás Marques