Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

O meu apreço pelo Clint Eastwood, enquanto realizador, tem sido inconstante. Até brindar-nos com as "Pontes de Madison County" tinha o dom de irritar-me solenemente. Entre 2003 e 2008 comecei a idolatrá-lo, quase ao ponto de esquecer a sua veia de republicano ultra conservador (como seria possível não amar quem durante esse período nos presenteou com obras primas como "Mystic River", "Million Dollar Babby", "Flags of our Fathers", "Letters From Iwo Jimai" e o "Gran Torino"?). A partir de 2009 e até 2014 (a "fase das biografias" - "Invictus", "J. Edgar" e "Jersey Boys") a minha paixão foi esmorecendo, transitando para o estado de (quase) raiva a partir do momento em que optou por impingir-nos obras menores de culto nacionalista e belicista - "O Sniper Americano", "Sully" e"15:17 To Paris". No entanto, aos 88 anos, com "The Mule - O Correio da Droga", parece estar a querer reconquistar-me (e não é que fiquei um bocado tentado?). A ver o que se segue ... que Ele ainda "está aí para as curvas"!

Em definitivo, um dos segredos para a "coisa resultar" parece estar na sua participação como actor (e já não nos dava o ar da sua graça desde o "Gran Torino"), não existindo qualquer dúvida de que o (sedutor) personagem ambíguo que encarna é o abono de familia desta nova pelicula.

Baseando-se numa historia verídica relata-nos, em modo road-movie emotivo q.b. (embora no climax descambe para a "lamechice fácil") e cómico (carregado de uma deliciosa auto-ironia em relação às temáticas do racismo e "familia"), o processo de incursão de um solitário nonagenário (viciado no cultivo de flores) no submundo tráfico de droga (como "mula"), por forma a suprir as suas dificuldades financeiras e, em simultâneo, reaproximar-se da família (que negligenciou ao longo da sua vida).
Fazendo-se valer da sua habitual sobriedade clássica e de uma narrativa simples/incisiva (de diálogos curtos mas com muito "conteúdo para desflorar"), conta-nos uma história apelativa (apesar de a partir de determinado momento tornar-se algo repetitiva e previsivel) que nos transporta para o humanismo tão caracteristico dos seus personagens do passado (também eles, quase sempre, velhos solitários, auto-excluidos e aparentemente amargos). Todavia, não consegue atingir a "profundidade" das suas obras maiores, e tal não é culpa do seu personagem central (pelo contrário, pois é o homem imperfeito pelo qual torcemos) mas de quase tudo o resto que o envolve (actores incluidos, nenhum deles parece estar à sua altura, à excepção de Dianne Wiest) que soa a "cenário postiço".

Publicada a 04-02-2019 por José Miguel Costa