Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Divertimento puro

Quando soube que Ridley Scott iria filmar a história dum astronauta deixado sozinho em Marte, a minha curiosidade não parou de crescer. Afinal, um dos mais extraordinários filmes de ficção científica, com brilhantes ecos existencialistas, foi assinado pelo realizador britânico há três décadas, “Blade Runner”. Recentemente, tivemos “Gravity”, onde Alfonso Cuarón conseguiu traduzir para a tela o conceito de solidão espacial e os seus efeitos no ser humano. Finalmente, no ano passado, Christopher Nolan ofereceu-nos outro grande filme, “Interstellar”, onde noções como espaço e tempo eram aplicadas, sem contemplações, às limitações humanas e onde, curiosamente, marcavam presença Matt Damon e Jessica Chastian, que repetem a aventura espacial, agora no Planeta Vermelho. Por tudo isto, supus que “Perdido em Marte” tivesse essa dimensão “bigger than life” que tanto aprecio.
Enganei-me.
Não que o filme seja mau, muito longe disso. As minhas expectativas é que estavam todas erradas. Scott optou por ser prático, oferecendo um filme divertido, preenchido na sua maior parte pelo biólogo-astronauta mais pragmático de sempre. Qual McGyver da era espacial, Mark Watney é capaz de tudo, desde complicadas ligações electrónicas até fazer crescer batatas em Marte. Mais curioso, ainda, é que parece estar sempre divertido, seja a explorar o planeta, a falar para o seu diário electrónico ou a criticar os gostos musicais da comandante da missão que gosta de ‘disco’ e dos ABBA (nem tudo é mau: também se ouve o “Starman” do Bowie, mas noutro contexto). A solidão não o afecta, não tem problemas existenciais, nem sequer perde tempo com o sagrado – aliás, o único símbolo religioso, um crucifixo, é partido por Mark para ser usado combustível para uma fogueira…
Depois, tudo lhe corre bem. Mesmo o que parece ser um acontecimento trágico, acaba por se transformar em sucesso. O conceito de improbabilidade é constantemente negado seja em Marte, seja na Terra ou até na nave espacial tripulada por quem o deixou para trás. De certeza que se Mark jogasse num “Marte-milhões” acertava todas as semanas! E é este destino demasiado doce que acaba por deixar um saborzinho amargo perfeitamente dispensável.
Cinema também é divertimento e a implausibilidade nunca foi um problema para o sucesso, basta ver a saga “James Bond”. E é nesta estrita perspectiva que “Perdido em Marte” acerta. Porque está bem feito e porque entretém. Ninguém sairá da sala a pensar no sentido da Vida ou na perspectiva filosófica do Tempo, mas é garantido que sairá com um sorriso por ter passado duas horas bem divertidas.
Ao nível mais técnico, continua a ser um prazer ver como Ridley Scott se mexe em espaços exíguos, quer na nave quer no módulo marciano. Aquilo é tudo pequeno mas parece enorme, pelo que as belas e áridas paisagens marcianas são elevadas a uma escala gigantesca! Um verdadeiro deleite visual. Quanto às interpretações, não há aqui margem para grandes rasgos, mas vale a pena estar atento a dois belíssimos actores, em papéis secundários: Jeff Daniels e Sean Bean. Aliás, este é responsável por um momento de humor genial quando, durante uma reunião na NASA, se faz referência ao “Conselho de Elrond”, de “O Senhor dos Anéis”, sendo que Bean interpretou personagens presentes em ambos os encontros.
Em resumo, um “popcorn movie” inteligente e muito, muito acima da média.

Publicada a 06-10-2015 por Pedro Brás Marques