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Natal Amargo

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Comédia Dramática 111 min 2026 M/14 24/09/2026 ESP

Título Original

Depois de perder a mãe durante o período natalício, em 2004, Elsa refugia-se no trabalho como publicitária, para evitar o luto e anestesiar a dor. Esse excesso de trabalho dá origem a um colapso nervoso que a obriga a parar. É assim que, enquanto o namorado permanece em Madrid, ela vai de viagem com uma amiga até Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde encontra no sofrimento alheio material de inspiração para os seus próprios projectos criativos.

Em paralelo, em 2025, Raúl, um realizador e argumentista em crise criativa, está em busca de inspiração para um filme. A história que começa a surgir-lhe na cabeça cruza-se, de forma inesperada, com a de Elsa, fazendo-o questionar os ténues limites entre a realidade e a ficção.

Em competição nos festivais de Cinema de Cannes e San Sebastián, o filme é um melodrama sobre perda, identidade e criação artística, com assinatura de Pedro Almodóvar, produzido por Agustín, seu irmão e parceiro na produtora El Deseo S.A..

O argumento tem por base o conto homónimo de teor autobiográfico incluído na colectânea "O Último Sonho", de Almodóvar. No elenco estão Bárbara Lennie, Patrick Criado, Victoria Luengo, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Milena Smit e Quim Gutiérrez. PÚBLICO

 

Críticas Ípsilon

Natal Amargo, de Pedro Almodóvar: mulher à beira de um ataque de pânico

Jorge Mourinha

A 24.ª longa de Pedro Almodóvar pode ser um filme “menor”, mas é um belo filme menor, numa sequência de obras onde o cineasta se expõe de modo cada vez mais vulnerável.

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Sessões

Críticas dos leitores

Natal amargo

Fernando Oliveira

Pedro Almodóvar a reflectir sobre a relação entre o Cinema e a vida, sobre o acto de criar, como o autor vampiriza a vivência dos que lhes estão próximos, como lhes rouba as histórias. Aceita a ausência de “culpa”, mas questiona os limites. Nas histórias do filme, para um regresso, o Cinema como um vício?

Há Elsa (Bárbara Lennie) que é realizadora de publicidade, mas foi autora de dois filmes que ninguém viu mas que se tornaram de culto (é engraçada a explicação que ela dá sobre o significado de filme culto), vive com Bonifácio, um bombeiro que também é stripper e, no início do filme, Elsa sofre de ataques de pânico, uma enxaqueca tremenda.

Numas férias em Lanzarote com a sua amiga Patricia (Victoria Luengo), dá-lhe vontade de começar a escrever um argumento, “apropria-se” da vida das suas duas amigas, Patricia a atravessar uma crise conjugal e que corta com Elsa depois de ler o rascunho do argumento, e Natalia (Milena Smit) que depois vai ter com ela, uma depressão profunda desde que perdeu um filho num acidente, uma tentativa de suicídio, Bonifacio “desaparece” da história.

Entretanto o filme já nos apresentou Raúl (Leonardo Sbaraglia), um realizador importante que não trabalha há cinco anos mas que agora está a escrever um novo argumento e tem ganas de voltar a filmar. A colaboradora de muitos anos, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), “abandona-o”, vai viver com a namorada que tem o filho a morrer, com ele fica Santi, entre os dois uma paixão suspendida.

Quando Mónica percebe que Raúl está a “roubar” a sua história para o seu argumento, zangam-se, uma discussão: “já ninguém espera de ti mais clássicos, está na altura de desfrutares do teu trabalho…", a seguir propõe-lhe que a “corte” do argumento e faça dele um filme para a Netflix, diz Mónica a Raúl. Nesta altura já sabemos que a história de Elsa é o argumento que Raúl está a escrever.

"Natal amargo” também é o título desse argumento…. Elsa “é” Raúl. Elsa e Raúl “são” Almodóvar. O filme é um enleio entre a ficção e a realidade; melhor entre a ficção e a ficção e as reflexões de Almodóvar. Pedro Almodóvar conta-nos estas histórias com uma realização de um classicismo irrepreensível, sensível ao trabalho das actrizes, sabe olhar para a “verdade” dos personagens; os cenários e as cores, as canções de Chavela Vargas, a sublinhar o peso das emoções.

Chega uma altura em que todos os criadores pensam no “fim”, da vida e da sua arte, por isso ampliam o passado nas suas criações e na sua vida. Este filme de Almodóvar também é sobre isso. Por tudo isto é um filme muito bonito e comovente. (em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")

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3 estrelas

José Miguel Costa

O filme "Natal Amargo" é um comédia dramática semi-autobiográfica que, recorrendo a uma fragmentada narrativa em espelho e à metalinguagem ("histórias dentro de histórias"), cria uma espécie de "estrutura estilística em matrioska" (misturando, continuamente, a realidade e ficção) como meio para discorrer sobre as temáticas da morte, culpa, ansiedade(s) e bloqueio criativo (e consequente apropriação/"vampirismo" emocional, sem qualquer pudor e/ou consentimento, daqueles que rodeiam o "desinspirado").

Todavia, neste seu novo filme (uma quase versão requentada, de "segunda categoria", do excepcional "Dor e Glória") a reflexão do cineasta Pedro Almodóvar incide sobretudo na eventual legitimidade de construir guiões tendo por base pessoas reais e as respectivas vivências intimas, mesmo que tal as magoe e/ou degrade as suas relações interpessoais.

A história aparentemente centra-se em Elsa, uma bem sucedida publicitária (companheira de um bombeiro striper) que, em fuga ao luto pela morte da mãe, atafulha-se em trabalho, até ao dia em que começa a manifestar os primeiros sintomas inerentes a crises de pânico, que a obrigam a abrandar o seu ritmo diário.

No entanto, cedo nos apercebemos que esta não passa de uma personagem do argumento que está a ser escrito por um conceituado realizador cinematográfico algo arrogante e frustrado (com uma imagem clean e "politicamente correcta") que vive à sombra do passado, ávido por um novo sucesso comercial com material original original.

Como fã do Almodóvar, há muito que tive de conformar-me com o "amadurecimento" que o afastou dos saudosos personagens histriónicos à beira de um ataque de nervos em "ambientes garridos e carregados de purpurinas" e, por consequência, habituar-me à nova linguagem dos intimistas dramas auto-reflexivos e visualmente sofistificados.

Independentemente desta mudança de chip que me freia as expectativas, não consigo deixar de considerar "Natal Amargo" como um produto mediano (com mensagens pouco subtis/demasiado "explicativas" e personagens subdesenvolvidas) que não faz jus ao Mestre. Possivelmente, até poderia achá-lo muito interessante, caso não tivesse saido das entranhas do Almodóvar ... @jmikecosta

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