Mães Paralelas

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Animação, Drama 120 min 2021 M/12 01/12/2021 ESP

Título Original

Madres paralelas

<div>Janis e Ana conhecem-se num quarto de uma maternidade, quando estão prestes a dar à luz. Janis, que já passou dos 40, apesar de não ser uma gravidez planeada, encara o momento com alegria. A jovem Ana, pelo contrário, está aterrorizada com o que está prestes a acontecer. Naquele momento tão marcante das suas vidas, elas vão criar um laço profundo que se prolongará pelo tempo. </div> <div>Estreado no Festival de Cinema de Veneza – onde Penélope Cruz recebeu o Prémio Volpi Cup de melhor actriz –, este melodrama sobre os diversos lados da maternidade foi escrito e realizado pelo multipremiado realizador espanhol Pedro Almodóvar. No elenco, para além de Cruz, estão também as actrizes Milena Smit, Aitana Sánchez-Gijón, Daniela Santiago, Julieta Serrano e Rossy de Palma. PÚBLICO</div>

Críticas Ípsilon

Tudo sobre as minhas mães

Jorge Mourinha

Um portento de melodrama classicista depurado, simultaneamente apaixonado e descarnado.

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Críticas dos leitores

Outra obra-prima de Almodovar

Nazaré

Este filme é ainda mais centrado no mundo feminino do que qualquer um dos anteriores de Pedro Almodovar, imagine-se. Só há uma personagem do outro sexo com algum relevo, e as funções dele são as habituais: fecundar e resolver um problema. Tudo o resto é habitado por mulheres, como se o mundo fosse (quase) isso.
E que mundo esse, tão rico de matizes, de contactos, de cruzamentos, de AMOR!! O que este filme tem de mais notável é a ilustração extremamente bela de tantas formas de manifestar-se o amor entre pessoas, não necessariamente o amor carnal (mas também), as cumplicidades, o amor na família sobretudo, aquele que guarda memórias como tesouros, que aceita as feridas, que nutre quem precisa, que não se distrai. E como as personagens incapazes de participar do amor são gente perdida.
Grande a Penelope Cruz como protagonista, e o perfeito complemento com a dulcíssima Milena Smit, verdadeiramente uma coprotagonista. O trabalho de Almodovar é espectacular, e a oportunidade que ele tem de atirar-se aos fascistas do PP (etc.) espanhol que querem fazer esquecer os crimes da Guerra Civil de 1936-9 é muito bem aproveitada, trazendo a esta bela fita uma dimensão muito mais ampla (alguns dizem-na política, mas isso é ver a coisa na perspectiva masculina, não liguem).

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Mães Paralelas

Maria trindade

Almodóvar sabe envolver-nos com a complexidade das histórias de vida humanas sempre de forma tão empática. E a qualidade estética das imagens sempre presente. Gostei desta nova criação.
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NC

Maria Natália S. C. A. Carvalho

Almodóvar no seu melhor, misturando com sensibilidade, criatividade e mestria ficção e realidade.
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Mães paralelas, Espanhas sequenciais

Pedro Brás Marques

A Espanha ainda não saiu do divã do psicólogo no que à sua memória histórica diz respeito. Olhando para os nossos vizinhos, por vezes fica-se com a ideia de que a ditadura ainda não está definitivamente ultrapassada, como ainda recentemente se viu com o alvoroço causado pela trasladação dos restos mortais de Franco para fora do Valle de los Caídos.

Pedro Almodóvar resolveu deixar uma marca neste processo, escrevendo e realizando “Mães Paralelas”, o seu filme mais político. Começamos por ser apresentados a Janis, uma fotógrafa, que procura alguém que se debruce sobre uma vala comum existente na sua aldeia natal, onde estarão familiares e amigos dos habitantes actuais. Encontra-se com Arturo, um antropólogo, que a ajuda a levar o projecto avante. Pelo meio, apaixonam-se e ela acaba por engravidar. Quando vai para o hospital, para dar à luz, conhece Ana, uma quase adolescente, com uma relação praticamente inexistente com a mãe. Ambas solteiras, mães pela primeira vez e em simultâneo, acabam por criar um laço entre elas. Janis vive fascinada pela filha, embora Arturo e Elena, sua amiga, revelam alguma estranheza quanto ao aspecto “étnico” da bébé… Meses depois, Janis e Ana reencontram-se e esta revela-lhe que a sua filha morrera. Toldada por dúvidas, a fotógrafa faz testes de maternidade a si e a Ana e acaba por descobrir que houvera uma troca de bebés no hospital e acaba por revelar a verdade à amiga, que fica com a criança. Entretanto, chega a notícia de que a escavação das vítimas recebera luz verde…

Uma obra torna-se tanto mais interessante quanto mais camadas de interpretação possibilitar e o argumento concebido por Almodóvar tem essa virtude, embora ele não tenha tido a arte de o tecer da forma mais hábil que a história merecia. Na verdade, deixou escorregar a trama para o campo do ‘filme de causa’, o que não tem mal, a não ser desequilibrar uma proposta que tinha potencial para ser um grande filme. Atente-se que o título tanto se refere a Janis e Ana, como à antiga e a nova Espanha. A tal verdade histórica, que é assumida pela fotógrafa quando revela a dolorosa verdade filial, tem evidentes ecos na necessidade de exumação dos tombados na Guerra Civil. Só que a dimensão melodramática da história de Janis e Ana tinha potencialidade para viver só por si, sem necessidade da tal “mensagem política” que Almodovar quis passar, bem vincada num final excessivo. Talvez para os espanhóis o paralelismo seja mais digerível, mas quem olha para este objecto cinematográfico enquanto tal, é impossível não sentir o agri-doce do bom que poderia ter sido melhor…

Onde o realizador espanhol realmente é mestre é na direcção de actores, fazendo brilhar Penélope Cruz, Milena Smit e a regressada Aitana Sanchez-Gijon. Recorrendo imenso a grandes planos, destaca a beleza de qualquer das excelentes actrizes, amplificando a dor que as personagens estão a sentir, num registo clássico mais próxima de Wilder do que propriamente de Sirk. Outra nota altamente positiva é a confirmação, se ainda fosse necessária, da coerência da obra de Almodovar, o que também se alcança em dimensões paralelas, olhando para a floresta que constitui a sua obra, e para a árvore que é este filme. Da primeira ressalta a presença de temáticas como a identidade, a maternidade, a infância e juventude traumáticas, além da propensão para o melodrama, tudo presente em “Carne Trémula”, “Tudo sobre minha mãe”, “Má Educação”, “Julieta” e “Dor e Glória”. Tudo isso ecoa em “Mães paralelas”, a que se acrescentam aqueles detalhes que não são essenciais mas que enriquecem e robustecem a história. Como o facto de Janis ser fotógrafa, alguém que trabalha a importalizar o tempo; o próprio nome da personagem, que é explicado ter sido uma homenagem a Janis Joplin, mas que evoca Janus, o deus romano da mudança, com duas caras, uma virada para o passado outra para o futuro (daí dar nome ao primeiro mês do ano); ou a sessão de fotografia com a transsexual, outra símbolo da questão de identidade, sem esquecer o quadro de Joaquin Sollana, com os miúdos nús a brincarem na praia… Completamente escusado foi a forma como Almodóvar cedeu ao comercialismo, fazendo “product placement” de forma obscena, desde produtos de luxo a automóveis.

Um filme estimulante, rico de simbolismo, mas que ficou a perder com a opção do realizador e argumentista de querer incluir mais do que o que seria necessário e equilibrado.

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Mães paralelas, Espanhas sequenciais

Pedro Brás Marques

A Espanha ainda não saiu do divã do psicólogo no que à sua memória histórica diz respeito. Olhando para os nossos vizinhos, por vezes fica-se com a ideia de que a ditadura ainda não está definitivamente ultrapassada, como ainda recentemente se viu com o alvoroço causado pela trasladação dos restos mortais de Franco para fora do Valle de los Caídos.

Pedro Almodóvar resolveu deixar uma marca neste processo, escrevendo e realizando “Mães Paralelas”, o seu filme mais político. Começamos por ser apresentados a Janis, uma fotógrafa, que procura alguém que se debruce sobre uma vala comum existente na sua aldeia natal, onde estarão familiares e amigos dos habitantes actuais. Encontra-se com Arturo, um antropólogo, que a ajuda a levar o projecto avante. Pelo meio, apaixonam-se e ela acaba por engravidar. Quando vai para o hospital, para dar à luz, conhece Ana, uma quase adolescente, com uma relação praticamente inexistente com a mãe. Ambas solteiras, mães pela primeira vez e em simultâneo, acabam por criar um laço entre elas. Janis vive fascinada pela filha, embora Arturo e Elena, sua amiga, revelam alguma estranheza quanto ao aspecto “étnico” da bébé… Meses depois, Janis e Ana reencontram-se e esta revela-lhe que a sua filha morrera. Toldada por dúvidas, a fotógrafa faz testes de maternidade a si e a Ana e acaba por descobrir que houvera uma troca de bebés no hospital e acaba por revelar a verdade à amiga, que fica com a criança. Entretanto, chega a notícia de que a escavação das vítimas recebera luz verde…

Uma obra torna-se tanto mais interessante quanto mais camadas de interpretação possibilitar e o argumento concebido por Almodóvar tem essa virtude, embora ele não tenha tido a arte de o tecer da forma mais hábil que a história merecia. Na verdade, deixou escorregar a trama para o campo do ‘filme de causa’, o que não tem mal, a não ser desequilibrar uma proposta que tinha potencial para ser um grande filme. Atente-se que o título tanto se refere a Janis e Ana, como à antiga e a nova Espanha. A tal verdade histórica, que é assumida pela fotógrafa quando revela a dolorosa verdade filial, tem evidentes ecos na necessidade de exumação dos tombados na Guerra Civil. Só que a dimensão melodramática da história de Janis e Ana tinha potencialidade para viver só por si, sem necessidade da tal “mensagem política” que Almodovar quis passar, bem vincada num final excessivo. Talvez para os espanhóis o paralelismo seja mais digerível, mas quem olha para este objecto cinematográfico enquanto tal, é impossível não sentir o agri-doce do bom que poderia ter sido melhor…

Onde o realizador espanhol realmente é mestre é na direcção de actores, fazendo brilhar Penélope Cruz, Milena Smit e a regressada Aitana Sanchez-Gijon. Recorrendo imenso a grandes planos, destaca a beleza de qualquer das excelentes actrizes, amplificando a dor que as personagens estão a sentir, num registo clássico mais próxima de Wilder do que propriamente de Sirk. Outra nota altamente positiva é a confirmação, se ainda fosse necessária, da coerência da obra de Almodovar, o que também se alcança em dimensões paralelas, olhando para a floresta que constitui a sua obra, e para a árvore que é este filme. Da primeira ressalta a presença de temáticas como a identidade, a maternidade, a infância e juventude traumáticas, além da propensão para o melodrama, tudo presente em “Carne Trémula”, “Tudo sobre minha mãe”, “Má Educação”, “Julieta” e “Dor e Glória”. Tudo isso ecoa em “Mães paralelas”, a que se acrescentam aqueles detalhes que não são essenciais mas que enriquecem e robustecem a história. Como o facto de Janis ser fotógrafa, alguém que trabalha a importalizar o tempo; o próprio nome da personagem, que é explicado ter sido uma homenagem a Janis Joplin, mas que evoca Janus, o deus romano da mudança, com duas caras, uma virada para o passado outra para o futuro (daí dar nome ao primeiro mês do ano); ou a sessão de fotografia com a transsexual, outra símbolo da questão de identidade, sem esquecer o quadro de Joaquin Sollana, com os miúdos nús a brincarem na praia… Completamente escusado foi a forma como Almodóvar cedeu ao comercialismo, fazendo “product placement” de forma obscena, desde produtos de luxo a automóveis.

Um filme estimulante, rico de simbolismo, mas que ficou a perder com a opção do realizador e argumentista de querer incluir mais do que o que seria necessário e equilibrado.

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Onde está o Almodovar?

Paula R.

De há uns filmes para cá, é difícil reconhecer as produções de Almodovar. "Mães paralelas" é um drama que promete o tempo todo, mas que nunca chega a nos oferecer. A troca de bébés é, em si, uma promissora temática cujo desenvolvimento dramático e climax nunca é atingido e está desgarrada do drama paralelo da ditatura de Franco, que Almodovar ali introduz, sem um fio condutor. No fim, fica a sensação de uma manta de retalhos

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Mães paralelas

Fernando Oliveira

<p>Quando terminou “Mães paralelas” pareceu-me que tinha acabado de ver dois filmes. Grande parte do filme é um maravilhoso melodrama, uma estória que desliza para a tragédia, e que vai das lágrimas à felicidade como todo o melodrama deve ir; com actrizes espantosas que nos comovem e seduzem com o drama e a alegria nas suas interpretações (eu sei que houve Cukor, Mizoguchi, Naruse ou Bergman, mas julgo que Almodóvar é o realizador que melhor “entende” as personagens femininas na longa história do Cinema – realizador homem, entenda-se). <br />Mas Almodóvar enxerta no filme um conteúdo politico, um subtexto que dá ao filme um peso desnecessário, a que o realizador não consegue dar um significado, envolver uma estória na outra. É qualquer coisa que está ali a mais, que quase nos distrai da magnifica encenação sirkiana da estória que une Janis a Ana.</p><p>Janis é fotógrafa para uma revista feminina e no inicio do filme fotografa Arturo que é um conhecido antropólogo forense; depois da sessão pede-lhe que interfira para iniciarem a escavação duma vala-comum perto da sua aldeia natal, para recuperar os corpos do seu avô e de outros homens assassinados durante o fascismo franquista (será um assunto importante mas é a parte desinteressante do filme – à volta da Lei da Memória que define a necessidade de reconhecer os crimes do regime de Franco e identificar as mais de cento e dez mil pessoas que jazem em valas por toda a Espanha). Janis e Arturo iniciam uma relação e Janis engravida. Já passou dos quarenta, para ela é uma felicidade, e decide ter o filho. Sozinha.</p><p>No hospital, aquando do parto, conhece Ana, uma adolescente, tão insegura quanto apavorada, que também vai ser mãe solteira, que só conta com o apoio da mãe que não o sabe ser. Janis anima Ana e as duas mulheres prometem manter-se em contacto, mas a vida dá voltas e voltas. Aqui começa um extraordinário filme, melodrama com lágrimas, revelações surpreendentes, e escolhas terríveis, com desenvolvimentos amorosos surpreendentes; e com a música de Alberto Iglésias a deixar-nos em suspense hitchcockiano. Depois o filme volta ao mesmo, a família feliz enquanto as pessoas da aldeia fazem romaria para verem os restos mortais dos seus ascendentes – o final é quase penoso. <br />É assim um filme sobre heranças, sobre a pertença, sobre o que é ser mãe, sobre o amor. Almodóvar é notável a encenar o drama daquelas mulheres. Não há elogios suficientes para Penélope Cruz, e Milena Smit está também muito bem. <br />Gostei muito mais de “Julieta” e de “Dor e glória”, os dois filmes anteriores do realizador (ainda não vi "A voz humana"), mas “Mães paralelas” é um filme que ficará na memória deste ano. <br />(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")</p>
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Mães paralelas

Fernando Oliveira

<p>Quando terminou “Mães paralelas” pareceu-me que tinha acabado de ver dois filmes. Grande parte do filme é um maravilhoso melodrama, uma estória que desliza para a tragédia, e que vai das lágrimas à felicidade como todo o melodrama deve ir; com actrizes espantosas que nos comovem e seduzem com o drama e a alegria nas suas interpretações (eu sei que houve Cukor, Mizoguchi, Naruse ou Bergman, mas julgo que Almodóvar é o realizador que melhor “entende” as personagens femininas na longa história do Cinema – realizador homem, entenda-se). <br />Mas Almodóvar enxerta no filme um conteúdo politico, um subtexto que dá ao filme um peso desnecessário, a que o realizador não consegue dar um significado, envolver uma estória na outra. É qualquer coisa que está ali a mais, que quase nos distrai da magnifica encenação sirkiana da estória que une Janis a Ana.</p><p>Janis é fotógrafa para uma revista feminina e no inicio do filme fotografa Arturo que é um conhecido antropólogo forense; depois da sessão pede-lhe que interfira para iniciarem a escavação duma vala-comum perto da sua aldeia natal, para recuperar os corpos do seu avô e de outros homens assassinados durante o fascismo franquista (será um assunto importante mas é a parte desinteressante do filme – à volta da Lei da Memória que define a necessidade de reconhecer os crimes do regime de Franco e identificar as mais de cento e dez mil pessoas que jazem em valas por toda a Espanha). Janis e Arturo iniciam uma relação e Janis engravida. Já passou dos quarenta, para ela é uma felicidade, e decide ter o filho. Sozinha.</p><p>No hospital, aquando do parto, conhece Ana, uma adolescente, tão insegura quanto apavorada, que também vai ser mãe solteira, que só conta com o apoio da mãe que não o sabe ser. Janis anima Ana e as duas mulheres prometem manter-se em contacto, mas a vida dá voltas e voltas. Aqui começa um extraordinário filme, melodrama com lágrimas, revelações surpreendentes, e escolhas terríveis, com desenvolvimentos amorosos surpreendentes; e com a música de Alberto Iglésias a deixar-nos em suspense hitchcockiano. Depois o filme volta ao mesmo, a família feliz enquanto as pessoas da aldeia fazem romaria para verem os restos mortais dos seus ascendentes – o final é quase penoso. <br />É assim um filme sobre heranças, sobre a pertença, sobre o que é ser mãe, sobre o amor. Almodóvar é notável a encenar o drama daquelas mulheres. Não há elogios suficientes para Penélope Cruz, e Milena Smit está também muito bem. <br />Gostei muito mais de “Julieta” e de “Dor e glória”, os dois filmes anteriores do realizador (ainda não vi "A voz humana"), mas “Mães paralelas” é um filme que ficará na memória deste ano. <br />(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")</p>
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Um País por Resgatar

Mário Ferreira

"Mães Paralelas" marca o grande regresso de Pedro Almodóvar. Neste filme Almodóvar reconcilia-se com o grande Cinema. Esta é, de novo, uma obra de arte. <br />Neste filme reaparece uma das maiores musas de Pedro, Penélope Cruz, que se despe por completo e se entrega nas mãos do director. Penélope reaparece, também, num dos seus melhores papéis de sempre. <br />Aparentemente Almodóvar conduz-nos através de um turbilhão de emoções de duas mães que no fundo, tanto uma como outra perdem as suas filhas. Contudo, essa é apenas a espuma que fica por cima das agitadas ondas. Nesta obra Almodóvar mergulha no trauma da Guerra Civil Espanhola, com a qual uma nação ainda não se reconciliou. <br />Janis, personagem encarnada pela monstruosa Penélope Cruz, procura encontrar-se a si mesma, fugindo de uma solidão que é não ter passado, nem ter futuro. <br />A sua busca é em ambas as direções do tempo. O passado que lhe foi arrancado pela Guerra Civil e que se encontra enterrado numa vala comum, e o futuro, a sua filha, que também lhe é arrancado. Aliás há no passado e no futuro uma dupla perda. A Guerra Civil ceifou-lhe mais do que um antepassado, tal como o futuro também lhe foi, de forma igualmente trágica, duplamente amputado. A Janis são-lhe arrancadas visceralmente as suas duas filhas, a de sangue e a do coração. <br />Janis é assim uma metáfora da Espanha contemporânea, uma Espanha perdida entre um passado com o qual ainda não se reconciliou e um futuro que não existe enquanto o passado não for resgatado, e com o qual se possa reconciliar. <br />Esta é uma personagem simbólica da verdadeira solidão, uma quase não existência, que vive sem passado nem futuro. <br />De alguma forma Almodóvar constrói um argumento portentoso, com uma direção magistral, construindo uma quase parábola sobre a Espanha contemporânea. <br />De uma forma subtil e delicada, Almodóvar mostra que o futuro de uma nação não existe enquanto não se fizerem as pazes com o passado. <br />O Mestre está de volta.
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3 estrelas

José Miguel Costa

Após visionar o novo filme do Pedro Almodóvar, "Mães Paralelas", fiquei algo nostálgico em relação ao seu passado cinéfilo neo-kitsch, povoado por personagens histéricas e extravagantes (quase sempre mulheres, gays e travestis) enrodilhadas em hilariantes melodramas de faca e alguidar. <br />Não que a sua "fase adulta" nos tenha privado de obras à altura dos seus pergaminhos (pelo contrário, e para prová-lo basta relembrarmos "Má Educação", "Em Carne Viva ",Tudo Sobre Minha Mãe", "Fala Com Ela" e "Dor e Glória"), mas, infelizmente, não é o caso deste drama nitidamente frouxo (embora, tratado com elegância e sobriedade). <br /> <br />"Mães Paralelas" possui dois arcos narrativos (a troca de duas crianças numa maternidade - temática com barbas na sétima arte, que não vem acrescentar nada de novo - e a polémica questão da memória histórica relacionada com as pessoas desaparecidas, e enterradas em valas comuns, durante o regime franquista), que se intercruzam através de um enredo banal, superficial, estranhamente previsivel e com um desfecho "todo arrumadinho". <br />Obviamente, como é seu apanágio, a nível cénico/fotografia não deixa nada a desejar. O mesmo se aplica à performance arrebatadora de uma das suas divas de sempre, Penélope Cruz (que lhe valeu, inclusive, o galardão de melhor actriz no Festival de Veneza).
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