Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Luz e Sombra

Mais do que um filme de Almodóvar, este é um filme sobre Almodóvar, um relato auto-biográfico não de toda a sua vida, mas sim da que está temporalmente mais distante, a infância, com a sua pureza e inocência. O início e o fim, alfa e ómega, como pólos geradores da trama. Se a vida é um rio e o realizador, prestes a fazer 70 anos, se aproxima da foz, então “Dor e Glória” é uma tentativa de regresso à nascente para poder enfrentar as águas livres do mar…
Salvador Mallo é um realizador de cinema detentor duma invejável carreira. Mas está doente e procura combater a dor de todas as formas, incluindo as ilícitas. A depressão invade-o, a vida deixou de fazer sentido e ele refugia-se nas memórias longínquas da sua infância, da sua mãe e duma vida difícil, mas simples e bucólica. Recorda, ainda, aqueles que amou e já partiram e outros por quem se apaixonou e deixou de amar. Recorda a vida à procura de sentido, em busca duma nova luz que o faça sair da situação de quase eremita em que vive.
Como qualquer criador de excelência, também Almodovar havia deixado notas biográficas ao longo da sua carreira, mais visíveis em filmes como “Má Educação” (educação religiosa) ou “Volver” (regresso ao passado para melhor o perceber). Aqui, onde realidade e ficção se confundem e fundem, abre-se completamente, mostrando o lado negro e doloroso que o conduziu à glória. Leva isso ao extremo, explicando graficamente as maleitas físicas que o atormentam, deixando para um extraordinário António Banderas o encargo de mostrar as da alma, o que faz de forma superior e irrepreensível. Mas há mais dualidades, como a de ter amado homens e dormido com eles, mas ter nas mulheres as suas referências de beleza e de força, em divas como Marilyn Monroe, em “Niagara”, ou Natalie Wood, em “Esplendor na Relva” e, acima de todas, Jacinta, a figura maternal, uma mulher duma força extraordinária, por quem nutre uma adoração sem igual, e que o levaria, fosse esse o caso, a dar “tudo sobre a sua mãe”.
João Bénard da Costa tinha especial carinho por realizadores que, filme atrás de filme, trabalhavam com um núcleo restrito de actores e técnicos, os que mais se adpatariam à sua natureza e visão. Foi o que aconteceu com John Ford, grupo a quem chamava “a gente de Ford”. Almodovar também tem a sua “gente” e ela volta a marcar presença, como Cecilia Roth, Julieta Serrano, Susi Sanchez, Penélope Cruz e, acima de todos, António Banderas. O actor malaguenho sempre esteve próximo de Almodovar, mas provavelmente só ele o conseguiria interpretar (e não apenas “representar”) de forma tão profunda e, ao mesmo tempo, tão silenciosa. O plano inicial, na piscina, primeiro com Banderas quase sentado debaixo de água, depois a emergir, é soberbo, simbolizando e anunciando, sem palavras, o mergulho no subsconsciente, no invisível, no que está por baixo da superfície, na essência da personagem. E efectivamente, é isso a que o espectador assiste ao longo das duas horas de filme…
Almodovar vai contando a (sua) história em sucessivos flashbacks da infância, que acabam por explicar muito do que ele se tornou. Essa “luz”, que recebeu na caverna onde vivia com a mãe, está presente também ao nível da fotografia, em especial nas cenas de interior, como se quisesse reafirmar que nada tem a esconder. Ao nível da realização, o espanhol confirma a sua adoração pelo cinema clássico, dispensando virtuosismos supérfluos e mostrando o mais importante: as faces e as suas emoções. Talvez não seja ainda a sua despedida mas, se o fosse, seria em grande!

Publicada a 16-09-2019 por Pedro Brás Marques