Cinecartaz

José Miguel Costa

5 estrelas

O Pedro Almodóvar do meu contentamento invade-nos com doses industriais de realismo fantástico e humor/amor transgressivo; carrega no kitsch e na histeria em modo non stop; encharca a tela de encarnados garridos e "néons" para dar (ainda mais) cor aos dramalhões novelescos. Por esse motivo as suas últimas obras mortiças e agridoces ("A Pele Que Habito", "Os Amantes Passageiros" e sobretudo "Julieta") revelaram-se um enorme desapontamento.

Eis que retorna com "Dor e Glória", um filme contido (a roçar o circunspecto), melancolicamente introspectivo e com odor a classicismo.
Portanto ... nova decepção cinéfila? Errado, já que é impossível ficar indiferente à elegância (tanto a nivel estético - fotografia divinal - como narrativo - com bem encadeados flashbacks temporalmente não lineares, que nos transportam numa constante viagem entre o passado, o sonho e a realidade) com que o Almodóvar se nos expõe de forma abertamente autorreflexiva. Uma espécie de semi-autobiografia, assumida pelo próprio (e que coloca a nu as crónicas maleitas físicas e da alma que o condenaram à condição de solitário semi-recluso numa gaiola dourada), com o seu "alter ego" a ser interpretado por um transcendente António Banderas (confirmando-se que apenas o realizador espanhol consegue captar a verdadeira essência artística do actor).
Todavia, não se pense que este foco narrativo (detentor de uma trama reduzida, mas povoado por "enormes diálogos" existencialistas) resvala para a autocomiseração excessivamente depressiva (nada disso, já que existe muita auto-critica e humor sarcástico que lhe dão "alma almodovariana" ... afinal, nunca se consegue passar do "8 para o 80", ficam sempre uns "resquícios"!).

Publicada a 10-09-2019 por José Miguel Costa