Ewan McGregor consegue o emprego da sua vida, ele é o novo escritor fantasma que vai escrever as memórias de Adam Lang, antigo primeiro-ministro britânico, substituindo o seu antecessor que se suicidou sob condições misteriosas. Ao chegar à pequena ilha nos Estados Unidos onde se encontra exilado Lang e a sua mulher mais um conjunto de secretárias e seguranças, e à medida que explodem na comunicação social os escândalos que envolvem o político em crimes de guerra, o nosso protagonista cedo percebe, a partir do que já estava escrito, que o desaparecimento do primeiro fantasma poderá não ser tão linear como um simples suicídio e que a causa poderá estar presa com revelações no âmbito de promiscuidades internacionais e abusos de poder. Este filme poderia ser analisado por dois prismas. Se tivermos em conta que o realizador se chama Roman Polanski, recentemente preso e já libertado após anos com mandado internacional de captura por parte do governo dos Estados Unidos, são evidentes as inúmeras alfinetadas infligidas à coligação dos países em causa, dada por diversos códigos de linguagem e simbolismos deliciosos, embora não seja uma enorme metáfora pois é evidentemente objectivo e directo, o filme aponta a hipocrisia reinante em alguns poderes desta sociedade ocidental, que insistem em maquilhar os podres de decisões e acções que aparentemente abominariam, se tomarmos a obra com sentido político. Por outro lado poder-se-ia dizer que é um thriller de tons cinzentos, nevoeiro abundante e chuva fria e cortante, em que há um jogo de transparências de espelhos invisíveis que se revelam barreiras opacas, de timbre nervoso e ansioso. O filme não atingirá a perfeição porque nos dá sinais desde o início, e diga-se que propositadamente, que nos levam a perceber o destino dos fantasmas, colocando-nos numa posição sempre mais esclarecida e conhecedora do que o protagonista que se apresenta algo "naive" (até se perceberia se a acção não estivesse sempre centrada em McGregor), colocando-o numa posição forçosamente difícil e delicada. Não deixa no entanto de se assemelhar a clássicos de Hitchcock (nesta obra sim, encontro semelhanças com "Intriga Internacional") e a outros policiais e "film noir" do antigamente. Com uma realização mais que competente, estética que acompanha a narrativa coerente e interpretações que vão para além do sóbrio, isto é cinema no seu estado puro.
João Pedro Eugénio