Depois de ver “The Ghost Writer” passei a acreditar em tudo o que me dizem. Agora tenho a certeza de que os americanos, e se calhar os russos e os chineses, lêem todos os correios electrónicos que eu mando, incluindo aqueles que não têm importância nenhuma. Agora já percebi porque é que o meu colega que eu não gramo foi promovido e eu não: o gajo deve ter ligações aos serviços secretos finlandeses. Agora entendo por que é que a minha vizinha vai correr todas as manhãs mas acaba por apenas ficar a fazer exercícios em frente à porta do meu prédio; tenho a certeza que me vigia e quer saber quando eu saio de casa. Agora está claríssimo que o chinês do restaurante onde eu vou buscar o meu pato lacado trabalha para os serviços de informação: senão como é que ele sabe o meu nome? A minha mudança de percepção do mundo que me rodeia deve-se ao mais recente filme de Roman Polanski, o realizador de origem polaca que aguarda julgamento nos Estados Unidos por um caso de pedofilia. Este não é o espaço ideal para “fait divers”, mas a desconfiança que “The Ghost Writer” incute nos espectadores pode levar a pensar que as autoridades suíças agiram a soldo dos norte-americanos para despachar para a Califórnia o realizador “fugitivo”. E isto pouco antes da estreia mundial do filme, em que Polanski não é nada simpático com os homens de Washington. Os paralelismos possíveis com Tony Blair e a administração Bush são muitos e fáceis... Mas tudo isto é pessoal: cada um interpreta como quer e não convém entrar na paranóia que vive a personagem pirncipal de “The Ghost Writer”. Ewan McGregor interpreta um escritor por encomenda, ou seja, um homem que é contratado para escrever a biografia de um político importante. Esse homem é muito simplesmente o ex-primeiro-minsitro britânico Adam Lang, personagem interpretada por Pierce Brosnan. A redacção das memórias de um político podem parecer algo de anódino e mesmo sem interesse. Essa a primeira reacção do escritor que vai rapidamente descobrir elementos estranhos nas histórias que lhe contam. O mais preocupante dos casos com que se depara é que, antes de ele ser contratado, o seu antecessor tinha começado o trabalho mas não o acabou porque foi encontrado morto em circunstâncias misteriosas. A tensão é permanente em “The Ghost Writer”. Polanski sabe bem como levar o espectador consigo numa lenta viagem em que o fio da meada se vai desenrolando devagarinho. Poucos realizadores têm esta capacidade de controlo de cada momento, de cada etapa. E, por fim, as surpresas são excelentes, mas o espectador – como as pessoas que gostam de viajar pelo prazer de se deslocarem – chega ao fim e descobre que foi um prazer deixar-se levar pela mão de mestre de Polanski. O filme conta com um excelente Ewan McGregor no principal papel, que contrasta – não na qualidade da sua prestação, mas no estilo que imprime à personagem – com Pierce Brosnan. McGregor somos nós todos, gente ordinária. Brosnan é um símbolo da elite e mesmo da arrogância e do despotismo. Ambos o fazem bem sem cair em caricaturas. Mas, a crer nas palavras de McGregor no festival de Berlim, Polanski tem muita responsabilidade na interpretação: “Senti-me verdadeiramente desafiado como actor - foi um dos raros casos em que posso dizer em que ele é tão responsável pela minha interpretação como eu. Ele não só me dirigiu como actor, mas dirigiu verdadeiramente a interpretação da personagem. Num plateau, ele é totalmente responsável por tudo: gostava de ser ele o actor, o aderecista, o director de fotografia, o assistente... Tem a sua mão em tudo. Se não gosta de alguma coisa, o Roman di-la sem delicadezas nem pezinhos de lã. Isso pode às vezes ser desconfortável para os nossos egos, mas percebi que não é nada de pessoal. Ele quer que tudo seja perfeito. É como uma mãe - por muito chato que isso seja, tem quase sempre razão!”
Raúl Reis