Cinecartaz

Raúl Reis

Tom e Gerri

O filme de Mike Leigh era esperado na Croisette, nos idos de Maio de 2010, como a obra que “poderia salvar um festival aparentemente pobre” ou com um certo desdém por causa de o realizador ser um “habitué” do festival de Cannes. “Ele tem lugar cativo desde que ganhou a Palma em 96”, dizia um crítico que prefere não revelar a sua identidade. Verdadeiramente, Leigh é costumeiro do festival mas não faz parte daquele grupinho de realizadores que levam ao maior festival do mundo todos os seus filmes. “Um Ano Mais” é o quarto filme de Mike Leigh a participar no festival. Os críticos que viram a projecção efectuada no quarto dia de competição falaram de uma obra rica, feita com muita compaixão e perspicácia. Contudo, o tema não podia ser mais simples: “um ano na vida de uma família inglesa bastante normal”. Tom e Gerri são as personagens centrais de “Um Ano Mais”, e o velho realizador escolheu dois dos seus actores-fetiche: Jim Broadbent e Ruth Sheen. O casal tem tudo para ser feliz, mas à volta deles circulam pessoas insatisfeitas. O filho de Tom e Gerri, que não consegue encontrar a mulher da sua vida. Um irmão que vive em plena depressão. Uma colega que esconde a solidão com grandes bebedeiras. E outras personagens que dão muita cor e interesse ao filme. Cada estação do ano constitui um capítulo do filme, que quase não tem argumento propriamente dito. São as personagens que transportam o filme, mais do que a história. É o prazer de as descobrir que mantém o espectador agarrado até ao final. Mike Leigh transforma os pequenos acontecimentos em momentos cruciais, eventos que marcam as frágeis relações entre as personagens. Se a primeira parte do filme pode aborrecer, quem resistir aos primeiros diálogos mais longos – e resultado de improvisação – vai poder usufruir de situações deliciosas: confrontações, discussões e mal-entendidos. Esta última película de Mike Leigh propõe momentos de humor mas também de imensa ternura, assim como de delírio (as cenas em que as personagens estão sob o efeito do álcool). O espectador arrisca-se a chegar ao final com a sensação de ter saboreado um parto de comida chinesa, daqueles agridoces. E tal como na culinária, gostos não se discutem.

Publicada a 07-02-2011 por Raúl Reis