Cinecartaz

Rita (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)

Para ver com atenção

"The Prestige", baseado no livro homónimo de Christopher Priest, está construído como os golpes de magia de que fala. Também ele dividido em três partes: "The Pledge", "The Turn" e "The Prestige" – a preparação, o truque, e a revelação. Rupert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale) são dois ilusionistas em início de carreira, o primeiro um tradicionalista, o segundo um inovador. O trágico desfecho de um número marca o início de uma rivalidade na qual, durante anos, eles se debatem pelo melhor truque de magia. O desafio final chega quando Borden cria "O Homem Transportado" e Angiers fica obcecado por descobrir o seu método. Num argumento partilhado com o seu irmão Jonathan, Christopher Nolan, realizador dos inesquecíveis "Memento" (2000), "Insomnia" (2002), "Batman Begins" (2005) – e da sua sequela "The Dark Knight" (2008) –, conta uma história de ciúme profissional e de vingança, e da capacidade de dois homens fazerem coisas horríveis em nome de ambos. Algumas das concepções mais irreais deste filme fazem-nos pensar sobre questões verdadeiramente perturbantes.

Naquele que pode ser considerado o irmão erudito do anterior "The Illusionist", Nolan manipula-nos. Como num golpe de magia, ele diz-nos para onde olhar, com cada viragem tentamos decifrar o enigma que temos entre mãos, e a cada nova informação revemos as nossas percepções anteriores. "The Prestige" é um filme que puxa pelo espectador, e isso também devido às difíceis escolhas de estrutura de Nolan, como é o caso de "flashbacks" dentro de "flashbacks".

Um filme de época, "The Prestige" foca as inovações técnicas do final do século XIX, e aquela que é a "magia real": a ciência. Para o efeito, faz uso de uma personagem real, o físico sérvio Nikola Tesla (um impressionante David Bowie, cuja voz – Zeus! – nem um sotaque sérvio consegue esconder). O filme explora em particular a sua rivalidade com Thomas Edison e as suas investigações sobre geração e transmissão eléctrica em Colorado Springs. Como seu assistente, Mr. Alley, está o actor Andy Serkis, mais famoso por "não ser visto" no ecrã em papéis como Gollum ou King Kong.

Christian Bale e Hugh Jackman protagonizam um grande duelo de forças, o primeiro com a intensidade e versatilidade à qual nos tem vindo a habituar, o segundo com uma solidez cada vez mais interessante. A escolha menos acertada foi a de Scarlett Johansson, relegada para um papel quase só meramente decorativo. E "The Prestige" é, de facto, esteticamente deslumbrante: um fabuloso design de produção, um guarda-roupa delicioso (ainda estou a sonhar com aquele corpete-ligas de Johansson...) e a fotografia luxuriante de Wally Pfister (colaborador habitual de Nolan).

Alguns ficarão desiludidos quando este filme chegar ao fim. Perceber "The Prestige" é, no limite, a mesma sensação de perda que se tem quando se entende como funciona o truque, um misto de alívio e desencanto. Porque, na verdade, nós não queremos saber. Nós queremos ser enganados, bem enganados.

Este filme é para aqueles que sabem que o maior gozo do mistério é o processo de ir construindo a solução e não a solução em si mesma. Afinal de contas, magia é apenas desviar a nossa atenção de um ágil movimento da mão. E Nolan tem uma mão verdadeiramente ágil. "Are you watching closely?" Nota: 7,5/10.

Publicada a 15-01-2007 por Rita (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)