Olhos que não vêm, coração que não sente
Pedro Brás Marques
«Os olhos são o espelho da alma» dizem. «When I look into your eyes I swear I can see your soul», cantavam os James. «Olhos que não vêm, coração que não sente», sentencia o povo. A verdade é que não faltam máximas sobre os olhos, porque, realmente, não mentem. <br /> <br />Em «Olhos Grandes», Tim Burton foi recuperar uma história em que os olhos são fundamentais. Porque se eles transmitem a verdade, o casal Walter e Margaret não tinha passado pelo calvário de sofrimento e mentira que passou. Porque se ele, um burlão, teve a fama e a exposição pública pelos quadros que dizia serem seus mas que, afinal, eram obra da sua mulher, ela pagou caro por essa submissão ao marido e à monstruosa mentira por ele montada. Não é que aquelas pinturas fossem realmente arte, aproximando-se perigosamente do “kitsch”, mas lá se aguentam acima da mediocridade geral e os olhos das crianças são do mais manipulador que pode haver. Mas, de tão grandes que eram, ninguém conseguiu perceber que não eram os olhos de Walter, mas de Margaret… <br /> <br />Este é um filme algo atípico na carreira dum dos últimos criadores de Hollywood, Tim Burton. O tema da dupla vida já tinha sido aflorado em alguns filmes, nomeadamente na sua obra-prima “Eduardo Mãos de Tesoura” e, claro, nos “Batman”, sem esquecer “Sweeny Todd”. A revelação da verdade pode ser trágica, é verdade, mas em “Olhos Grandes” é a salvação, a única saída possível perante a ganância e a obsessão de Walter. Até por isto, este é um filme algo singular na obra de Burton, sem esquecer que falta aqui muito da sua imagem de marca decorrente duma imaginação singular e do apreço por temáticas negras e fantásticas. Se Amy Wood mostra-se excelente no papel da sofrida, arrependida, frágil e delicada Margaret, já Christoph Waltz está insuportável no papel de Walter. Cabotino, excessivo, sem graça alguma, atingindo o ridículo na sua prestação final no Tribunal. <br /> <br />Salva-se, ainda, o genérico, mais um brilhante exercício de coreografia mecânica, a sequência do supermercado (Burton em estado “puro”!) e o bairro onde Margaret reside no início do filme que nos faz suspirar por “Eduardo Mãos de Tesoura”. Tirando isso, pouca mais merecerá referência. O que não torna mau “Olhos Grandes”, mas nada acrescenta, nem à carreira de Burton e muito menos ao espectador.
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