Cinecartaz

Fernando Oliveira

Selvagens

Aquilo que é contado em “Selvagens” de Oliver Stone é acima de tudo uma história de amor narrada por Ophelia sobre a sua relação com Ben e Chon, um “ménage à trois” física e emocionalmente assumido e descomplexado e de uma intensa paixão; conta também a ilícita actividade a que se dedicam: são produtores e traficantes da melhor “erva” do mundo. São personagens felizes e com sucesso. Os problemas chegam quando um cartel mexicano começa a expandir-se para o Norte e quer controlar os seus negócios. E a tragédia é espoletada quando isto põe em perigo o amor entre os três. Assim, como todos os grandes filmes de acção do moderno cinema americano é também um grande filme romântico.
É portanto a partir de acontecimentos anormais (e não estou a fazer qualquer juízo negativo com esta definição) que Oliver Stone volta a fazer o que sempre fez melhor em muitos dos seus filmes: um diagnóstico cruel e violento da sociedade americana dominada pelos valores do poder. Um olhar amoral sobre as pessoas e aquilo que as rodeia. Adaptando uma novela de Don Winslow, Oliver Stone filma os tempos que correm, onde em nome do dinheiro e do poder que decorre de o ter, toda a selvajaria é aceitável. É uma reflexão sobre o dilema de três personagens (ou quatro: o amor de mãe…) que amam num tempo que quase dispensou o amor.
É, dezoito anos depois, a “versão” século XXI de um outro filme de Stone, “Natural born killers”: nesse filme o jovem casal de assassinos eram uma espécie projecção da violência que todas as imagens contam; num tempo em que a realidade era feita pelas imagens transmitidas pela televisão o seu percurso era definido pela incivilidade dessas imagens. No mundo de “Selvagens”, as imagens continuam a ser totalitárias, mas a facilidade com a que elas acedemos, o excesso quantitativo e a velocidade com que nos chegam transformou a sociedade numa infinidade de pequenos grupos com códigos próprios. Uma sociedade ao mesmo tempo universal e tribal. E onde a selvajaria (e não apenas a física) sobre os outros é a melhor forma de mantermos a segurança e a supremacia da nossa tribo.
E depois há a mestria de Stone: a magnífica composição de cada plano, a montagem conjugada com a tempo de cada cena, a forma intensa como define pelo acto de filmar o sentimento que une os três personagens principais…
E é nos actores que os representam que o filme resvala um pouco: Blake Lively (belíssima), Taylor Kitsch e Aaron Johnson embora se esforcem não têm ainda o talento necessário para representar a urgência daquele amor naquele momento. A Salma Hayek, John Travolta e a Benicio del Toro foram entregues cromos, personagens esquemáticos que não lhes permitiram mostrar o talento que há vezes mostram.
E será talvez um delírio da minha parte, até porque não revejo o filme há muito tempo, mas aquele segundo final fez-me lembrar “A hora suprema” do Borzage: o poder redentor do amor como a possibilidade maior de ser feliz. Sei que são dois realizadores que não têm absolutamente nada a ver um com o outro, mas que me veio à memória o final daquele filme, veio.
Muito bom.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 30-01-2021 por Fernando Oliveira