Nathalie é um link de acesso
Carla L.
Nathalie é um filme sobre ligações. Várias. Não apenas a da óbvia leitura - a de uma mulher e de um homem para quem o casamento é apenas uma ligação social, rodeada de compromissos sociais e familiares, pouco estimulante do ponto de vista individual e muito menos estimulante do ponto de vista erótico. A vontade de restabelecer uma ligação mais próxima com o marido distante e adúltero leva a mulher (a fabulosa Fanny Ardant) a contratar os serviços da prostituta (a fabulosa Emmanuelle Béart). E esta continua a ser a leitura óbvia. Mas a ligação central do filme surge depois e surge precisamente entre estas duas personagens. <br/><br/>Marlène, a prostituta, envolve a sua hipotética Nathalie com Bernard, para manter o envolvimento com aquela mulher perturbante que lhe paga não sabendo muito bem para quê. E essa é a ligação do filme. A que se estabelece entre estas duas mulheres, de uma intensidade arrepiante, erotizada, que faz quase acontecer aquilo por que se espera todo o filme e nunca acontece. A indefinição das personagens femininas (sabe-se o nome da personagem de Fanny Ardant? Também não sabemos se Marlène é o verdadeiro nome da prostituta) revela uma tensão erótica permanente entre as duas. E essa tensão erótica é, de facto, a ligação do filme. A da prostituta que não quer libertar-se de quem lhe paga, aquela mulher às custas de quem quer viver e com quem estabelece uma ligação próxima e acolhedora do que se entende por família - vai a casa da mãe dela, partilha um serão familiar, onde se cozinha, se canta, se é feliz e tranquilo por momentos. Onde se partilha uma cama de juventude e esse passado. <br/><br/>E quase no final, quando descobre que é enganada e a prostituta assume a mentira que as tem mantido próximas, aproximam-se, ao de leve, deixando no ar a ideia do abraço, do beijo, do encontro, que nunca acontecem. E que aconteceram o filme todo, por interpostas pessoas, por interpostas mentiras. <br/><br/>O que atrai a mulher enganada àquele clube onde conhece Marlene? O que a atrai quando os seus olhos pousam pela primeira vez nos olhos de Marlène, o que a atrai quando espreita Marlène com os seus clientes? A ideia do que não tem? Do que não é? Quem possui quem? O olhar de Marlène possui aquela mulher de cada vez que a vê. E ela deixa-se possuir cada vez mais intensamente por aquela relação. <br/><br/>E é disso que trata este filme, da relação, intensa e claramente erotizada entre estas duas mulheres. Cujo "link" de acesso é, precisamente, Nathalie, a personagem que inventam e de quem se servem, a verdadeira prostituta, e a que não existe. Não ler isso e ficar pela leitura óbvia é muito pouco, é muito menos do que ele é.
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