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Valor Sentimental

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Drama 133 min 2026 M/12 29/01/2026 GB, ALE, SUE, DIN, Turquia, NOR, FRA

Título Original

Depois da morte da mãe, as irmãs Nora e Agnes deparam-se com o regresso de Gustav, o pai de ambas, à cidade de Oslo, de onde partiu alguns anos antes, na sequência do divórcio. Realizador famoso, mas com a carreira suspensa há algum tempo, Gustav sempre manteve com as filhas uma relação distante e difícil.

Ao oferecer a Nora, actriz de teatro, o papel principal num filme cujo argumento se baseia na história da sua própria mãe, Gustav desperta memórias dolorosas e ressentimentos provocados pela sua ausência. Quando ela recusa a proposta, a escolha recai sobre Rachel Kemp, uma jovem estrela de Hollywood. Mas essa decisão não vai ajudar a cicatrizar as feridas ainda abertas.

Em competição no Festival de Cinema de Cannes, onde foi distinguido com o Grand Prix, este drama familiar recebeu nove nomeações para a edição de 2026 dos Óscares, entre eles o de melhor filme, melhor actriz para Renate Reinsve, melhor actor secundário para Stellan Skarsgård e melhor realizador para Joachim Trier — que, em 2022, já tinha sido nomeado por "A Pior Pessoa do Mundo", também protagonizado por Reinsve. PÚBLICO

Sessões

Críticas dos leitores

4 estrelas

José Miguel Costa

O realizador norueguês Joachim Trier, a julgar pelos galardões granjeados com o filme "Valor Sentimental" (Grande Prémio do Festival de Cannes, vencedor nas 4 principais categorias dos European Film Awards, 1 Globo de Ouro, 8 nomeações para os BAFTA e Óscares), transformou-se no mais aclamado representante do cinema de autor escandinavo da actualidade (adeus, Lars Von Trier!). Todavia, apesar da inquestionável qualidade da película em questão, não considero que esta seja a sua obra-prima, até porque as antecendentes "Oslo, 31 de Agosto" e "Thelma" revelaram-se manifestamente mais impactantes.

Trier brinda-nos com um intimista e melancólico drama familiar algo bergmaniano. Fazendo-se valer de um fino humor e uma "tristeza elegante" (acumulando uma contínua tensão sem jamais "explodir"), mergulha-nos no inesperado reencontro de uma família fragmentada (juntando um pai frio e egocêntrico, desaparecido após o divórcio, e as suas duas filhas adultas fortemente conectadas entre si) marcada por memórias pouco redentoras, pelo peso da imperdoável ausência, os silêncios comunicacionais e ressentimentos por sarar que entravam a hipótese de uma eventual reconciliação entre as partes.

Apenas uma ponte continua a uni-los tenuemente, o amor pela representação (ele um realizador, outrora conceituado; a filha mais velha, uma actriz competente, mas pouco confiante). Poderá a arte constituir-se como um elemento de reaproximação? O centro nevrálgico da obra é a casa que albergou 3 gerações da família, funcionando como uma quase personagem que impulsiona o desenrolar da narrativa (sustentada por diálogos tão incisivos quanto espirituosos) que vai descascando gradualmente as múltiplas camadas dos seus emocionalmente complexos protagonistas (desconstruindo um autêntico "quebra-cabeças" de sentimentos por entre silêncios e desconfortos, apenas revelados por pequenos gestos ou olhares captados subtilmente pelo cineasta).

Foca-se sobretudo no "interior" dos personagens, interpretados com toda a alma pela (repetente) Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning. @jmikecosta

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Cinema para quem ama cinema. 4*

Martim Carneiro

Sem poupar nas palavras: Um filme deslumbrante: história superlativamente criada, recriação precisa dos espaços no tempo e nos lugares. Realização e montagem plena de intensidade, com aproximações aos rostos que captam a interioridade sentida das personagens. As manas norueguesas (não loiras) são de uma beleza que até faz doer a vista!

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Valor sentimental

João Casquilho

Filme belíssimo.

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Casa é o lugar da memória

Leonor

Há muito tempo que não via um filme com tantas nuances e mudanças de perspectiva e de entendimento do que as relações familiares são ou deveriam ser. Tudo através do fio condutor de uma casa que, no final, até muda de cor e se torna mais cinzenta para não doer. As casas centenárias e mesmo as outras mais recentes têm esse dom. O da perpetuação da memória. Mas também o da renovação.

Uma casa pode ser a continuação de uma desgraça Ou a mudança alquímica do sofrimento para um novo estado através do luminoso momento de percepção de que esse sofrimento serviu para se crescer. Para se compreender melhor a fatalidade da alma humana. Vão ver…

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A Casa das bonecas

Paulo Guerra

"A Casa das Bonecas" chama-se Nora. Como a heroína de Ibsen, dramaturgo norueguês que tem enchido a minha vida de beleza. Uma das suas peças modernas mais conhecida e encenada, "A Casa das Bonecas" define na perfeição o génio com que Henrik Ibsen foi pioneiro da prosa dramática e realista.

Nora personifica a luta humana contra a humilhante pressão das convenções da sociedade. Jane Fonda já o foi no cinema. Hoje à noite na minha existência foi Renate Reinsve, actriz norueguesa de quem se fala, na obra de Joachim Trier, nascido dinamarquês, nacionalizado norueguês, que já nos tinha dado o superlativo "A Pior pessoa do mundo”.

Aqui a casa - aquela casa - é uma personagem. Passam as estações, o frio passa a deserto, as idades atropelam-se e as histórias das gentes que a povoam dilaceram-nos. Há bons momentos. De veludo e alecrim. Há chuva ácida. De muita solidão e desamor. Há ali um pai abandonante, artista como poucos, capaz de inventar pétalas de ouro no Cinema, incapaz de abraçar as filhas que gerou e a mulher Sissel (esta que optou por desistir). 

Sissel, psicoterapeuta, consultava pacientes na casa, naquela casa. E Nora tudo ouvia, como se aqueles desabafos de vida lhe servissem de alibi para a tristeza. E ali conhecemos a infância de Agnes e Nora, filhas improváveis de um casal desavindo, unidas pela desdita e pelo abandono emocional. Arte havia aos montes, ternura nem por isso. E aquela casa torna-se pesada ou leve, depende dos dias e das monções. Como se houvesse uma varanda vermelha que afugenta a felicidade, por mais que ela seja procurada.

Há uma avó residente anti-nazi, uma tia libertária e hippie, uma actriz que tem ataques de ansiedade à entrada da boca de cena, um menino louro de morrer a quem o avô oferece filmes impróprios para a sua idade, povoados pela Isabelle Huppert ou a Mónica Bellucci. Porque a Arte tudo perdoa, tudo permite. Há neste filme muitos rostos. E neles reside a magia do Cinema.

Num argumento absolutamente brilhante, verdade e ficção misturam-se como água e azeite, num jogo de espelhos incapaz de nos sossegar. Serei eu capaz de me interpretar a mim própria? Nora recusa fazer de si própria no último filme do pai realizador, Gustav Borg. E refugia-se nas suas teias e nas suas tábuas de sempre, teatro salvífico que a cura do desespero suicida, herdado da mãe. Não entende aquele Pai. Não perdoa àquele Pai. Por o amar desmesuradamente. 

Gustav escolhe Rachel, ícone da actualidade, para personificar Nora. E é a própria Rachel (fantástica Elle Fanning) que reconhece que tem de sair de cena para dar lugar ao espaço emocional e ao bailado de balanço de vida entre pai e filha, capaz de enternecer o mundo, naquele sorriso final onde as pazes se fazem, onde a tristeza ganha foros de alegria.

Opereta perfeita, com banda sonora excelente, “Sentimental Value” vale todo o nosso tempo. O tempo das opalas e das cobaias, das cigarras e das formigas, das preces a Deus e das revoltas de estados de alma. Gigantes os actores (Stellan Skarsgard merece aqui o Óscar de uma vida), poética a encenação, montagem e direcção artística, portentosa a luz e a fotografia, a lembrar Bergman dos melhores anos.

A vida é um romance, sabemo-lo desde Resnais. Hoje sei que é uma peça encenada, com brilho e muita mágoa, salpicado por confettis e vinho azedo, depois de ver Trier. Valeu a pena? Tudo me fez ali reencontrar com a grande Beleza. Toda a melancolia do mundo cabe naqueles olhares nórdicos, naquela sinfonia de amor, contradição, disfunção e garra que só as famílias têm (e o mecanismo dos afectos, o tal que tem de comandar o futuro, aqui funciona na perfeição, naquele abraço de irmãs, naquele pedaço de sorriso final entre Gustav e Nora, naquelas casas de bonecas que nunca se chegam a desmontar).

Tudo o que passa na infância não fica na infância, lembram-se? Esta é a história e o filme que eu gostaria de ter escrito e realizado se a minha vida não fossem sentenças e poemas. Uma única perplexidade - a que me povoou, entristecido, por ver que na sala ao lado se projectava um filme intitulado “Melania” com mais espectadores do que o meu (sim, é alusivo à boneca que casou com a «Coisa»). Não consigo comentar. Faltam-me as palavras. E as casas de bonecas.

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