Cinecartaz

Fernando Oliveira

Miss Sloane

Um perturbante e belíssimo filme que coloca uma questão fundamental: quanto das acções dos políticos que nos governam não são mais do que uma caminhada na corda bamba, onde o mais importante é a manutenção do status quo, um equilíbrio entre jogadas mais ou menos ilegais e a criação de uma narrativa que mantenha a confiança dos eleitores. Jogos de aparências, geridos por consultores e peritos sobre política e comportamentos ou, neste filme, por lobistas.
Elizabeth Sloane é uma das mais poderosas lobistas de Washington, que entra em confronto com a sua empresa quando recusa fazer lóbi pelos armeiros, e junta-se a outra organização para influenciar o maior número de congressistas a aprovar uma lei que limita a venda livre de armas. Ela é uma mulher que domina estes jogos de uma forma tão inteligente quanto amoral e fria. No inicio do filme vemo-la dizer que saber antecipar as jogadas dos adversários e saber como responder é o fundamental da sua actividade, e no fim percebemos que toda a história do filme é narrativa de uma jogada controlada por ela.
Jessica Chastain é extraordinária a mostrar a força desta mulher e, ao mesmo tempo, a sua vulnerabilidade. A força que vem da forma como não impõe limites ao que faz para chegar a um fim, até porque neste caso esse fim parece ser também definido pelas suas convicções. Mas é uma vida manchada por sombras, a sua solidão, a incapacidade de dar e receber dos outros, sombras que a impedem de dormir. É uma interpretação imensa que se apoia na intensidade dos diálogos de Jonathan Perera, num argumento que sabe muito bem usar a dubiedade que define todas as palavras. Está acompanhada por um excelente grupo de actores (Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Allison Pil ou John Lithgow), num filme realizado por John Madden, realizador que até agora nos tinha dado um punhado de filmes muito pouco interessantes, mas que aqui tem a competência necessária para nos dar um filme bastante inteligente.

Publicada a 01-06-2020 por Fernando Oliveira