Cinecartaz

Raúl Reis

Que raios quer dizer

Antes de mais impõe-se uma pergunta: que raios quer dizer “Quantum of Solace”? O título do novo James Bond é um dos mais misteriosos de sempre porque ninguém, nem mesmo os anglófonos, sabem o significado. Vamos começar por resolver o enigma. Quantum é uma palavra grega que se aplica para designar uma quantidade mínima, unitária, elementar. E “solace” é consolação, reconforto. Assim temos “um pouco de consolação”, ou “uma amostra de reconforto”. Estranho, não é? Mas Quantum é também o nome da organização liderada pelo mau da fita, Dominic Greene (Mathieu Amalric). “Quantum of Solace” começa onde acabou “Casino Royale”. Trata-se de uma novidade na série Bond, já que mais nenhum dos 22 filmes foi retomar a intriga no anterior. E tudo começa como está escrito nos mandamentos da lei de Bond: uma perseguição automóvel. James Bond (Daniel Craig) tem como único objectivo vingar a morte de Vesper Lynd, a única mulher que James amou verdadeiramente. O MI-6 não vê com bons olhos esta acção de James e considera-o fugitivo, retirando-lhe o estatuto de agente. O objecto da vingança de Bond é Greene, que é perseguido também pela bela Camille (Olga Kurylenko). James e Camille vão unir esforços na busca de uma amostra de reconforto.
“Quantum of Solace” é, sem dúvida uma boa colheita quando comparado com os outros filmes da série. Craig não pára um segundo e também não deixa tempo ao espectador para respirar entre a montanha, o deserto, o fogo, a água e o ar. Bond desafia toda a gente e todos os elementos. Mas “Quantum of Solace” é mais do que um filme de acção. Bond continua a mostrar o seu lado sombrio (tinha começado em “Casino Royale”) e revela-se como um homem imprevisível, em quem ninguém confia, nem mesmo os seus chefes. O agente mais eficaz do mundo, revela-se impotente para gerir a constatação de que no mundo já não se sabe quem são os maus e os bons. A clara dicotomia da série Bond esbate-se nos dois últimos filmes e quem paga a factura é o próprio agente, que deprime. Daniel Craig (que é muito pouco Bond para o meu gosto) desenvolve bem a personagem que começou a construir em “Casino Royale”. O actor conseguiu dar mais profundidade ao agente 007, e com a ajuda dos argumentistas, evitar as piadas fúteis que o caracterizavam. Mathieu Amalric é um excelente mau-da-fita porque deixa a impressão que está à beira da loucura, mas mostra carisma e sentido de humor. A película não vive só de Craig e Amalric. Judi Dench, no papel de M, fornece um toque de seriedade bem misturada com um sorriso, enquanto que a nova “Bond girl”, Olga Kurylenko mostra que é muito mais que uma ex-top model. A actriz tem a oportunidade de mostrar mais que o seu corpo e consegue, com Craig, construir o ambiente de depressão que envolve as duas personagens. E nem a beleza de Camille consegue salvar o nosso Bond do desencanto e do mal de vivre. Que longe estamos dos tempos em que a única preocupação do agente 007 era saber se o seu martini era bem batido...

Publicada a 15-12-2008 por Raúl Reis