Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Humanos

É incomum um filme conseguir reunir características de vários géneros sem cair no ridículo. Mas o coreano Bong Joon-ho conseguiu-o na perfeição em “Parasitas”, uma hábil mistura de drama social, comédia negra, sátira contemporânea, um pouco de “slasher” e elevadas doses de burlesco, que lhe trouxeram um prémio de enorme prestígio, a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
A história até é relativamente simples: o filho duma família pobre que vive de expedientes e pequenas burlas, consegue entrar pela na casa de uma família rica, enquanto tutor da filha. Não tem qualificações, mas isso não o impede de lá trabalhar e, de rápida e sucessivamente, conseguir, junto dessa abastada família, emprego para a irmã como psicóloga infantil, para o pai como motorista e para mãe enquanto cozinheira e governante! Tudo com o afastamento forçado dos anteriores empregados, através de maldosas artimanhas. Com o descobrir dum misterioso residente, tudo se precipita até ao duplamente surpreendente desenlace final… Aliás, a certo ponto, recordei-me doutro filme negro absolutamente demente, “Uma Loucura de Casamento”. Felizmente, não se chegou a tanto e, posteriormente, chegou um dos finais mais doces de que me recordo…
O argumento é extraordinário e a realização e a fotografia simplesmente soberbas. Não é fácil, como disse, conciliar tantos géneros de forma feliz vários géneros distintos, mas nada ali é forçado. As acções são consequentes e as personagens credíveis, o que prende o espectador de forma irresistível. Depois, tudo se passa em espaços fechados mas quer na minúscula cave onde a família vive, quer na fabulosa e fotogénica mansão onde consegue entrar, não há a mínima sensação de claustrofobia para o espectador. Grandes planos contrabalançados com criteriosas escolhas de perspectivas interiores, fazem de “Parasitas” uma delícia visual. Os próprios actores ajudam, em espacial as que interpretam a filha e a mulher rica, duas personagens extremamente ricas nas suas formas de ser e complexas nas tomadas de decisão.
O cinema asiático há muito que deixou de ser a dualidade entre os filmes de autor japonês e os de pancadaria “Made in Hong Kong”. Lentamente, emergiram novas tendências, como o terror e o filme de gangster para, mais recentemente, não ter medo de apresentar dramas de apreensão global, apesar do eterno receio de não se perceber a sensibilidade oriental. Prova disso foi outro filme delicioso, o japonês “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões”, não por acaso o antecessor de “Parasitas” para Palma de Ouro em Cannes. Ali comprovava-se que o amor verdadeiro nem sempre está com as pessoas ditas de bem, tal como o mal não é exclusivo de quem viola a lei. Aqui, os parasitas do título também não são os seres improdutivos, inúteis e prejudiciais que à primeira vista poderiam parecer, depois de ir viver para casa do “hospedeiro” rico. Há alguma inadaptação deles à realidade, como se percebe por uma das inúmeras metáforas existentes ao longo do filme: a da pedra alegadamente valiosa que lhes foi oferecida e sobre a qual não souberam construir nada. É que os “parasitas” também são humanos, com vontades e paixões, erros e acertos. É claro, desde o início, que esse caminho não levará à glória, mas isso não é impeditivo de os vermos para lá da capa de “parasitas”. Não é perdoar-lhes, nem sequer aceitá-los. É apenas perceber a sua estranha forma de humanidade.

Publicada a 12-11-2019 por Pedro Brás Marques