Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Steve McQueen, depois de arrebatar a crítica especializada com duas pérolas cinematográficas indie ("Fome" e "Vergonha", em 2008 e 2011, respectivamente), torna-se conhecido do grande público, em 2013, com o multi-oscarizado "12 Anos Escravo".
De regresso aos grandes ecrãs com "Viúvas" (e desta vez sem o seu actor fetiche, Michael Fassbender), reforça a ideia de que a anterior cedência ao mainstream não foi um mero "acidente de percurso" (e demonstra, em simultâneo, que a opção de um cineasta por esta via não implica necessariamente perda de exigência e/ou qualidade).

Steve McQueen, que também parece não querer restringir-se a um determinado género cinematográfico, com este "Viúvas" (a adaptação - efectuada pelo próprio em conjunto com Gillian Flynn - de uma série policial britânica da década de 1980) brinda-nos com um (aparente) triller de acção feminino (mesclado de drama e - um requintado - humor) algo "autoral" (com múltiplas camadas escondidas nas entre-linhas).

A acção, que decorre numa Chicago com um "je ne sais quoi de Spike Lee", tem por base a história de quatro viúvas que, após a morte dos maridos (um grupo de ladrões), se vêem na contingência de praticar um grande assalto para liquidar as dividas deixadas por estes a um perigoso criminoso (candidato a mayor da cidade contra um corrupto republicano cuja família se encontra no poder há várias décadas).
Este argumento (dotado de magníficos diálogos rápidos, incisivos e ácidos), que nas mãos erradas poderia descambar num produto (ultra) piroso, sob a égide do mestre (que nele vai inserindo cirurgicamente subtemas que são autênticas "feridas em carne viva" no seio da polarizada sociedade americana - o racismo, a violência do Estado, o lobby politico, as desigualdades de género e classes) torna-se numa experiência electrizante para o espectador.
E consegue atingir tal objectivo graças à sua perícia em manobrar, sem pressas (num ritmo quase "anti-filme de acção", que deixa tempo para a reflexão e/ou contemplação dos sempre belos planos-sequência à lá McQueen), uma narrativa fragmentada (habilmente intercalada, apesar da vasta gama de ambíguas personagens - encarnadas por uma constelação de estrelas que dão o melhor de si - que tem para nos ir apresentando).
Pena que na recta final opte por "acelerar o passo", encerrando de um modo precipitado/abrupto e algo "fácil".

Publicada a 19-11-2018 por José Miguel Costa