Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Furiosa!...

Estamos de volta ao ambiente árido e poeirento que caracteriza o universo da série, onde viaturas motorizadas, sujas e enferrujadas, asseguram o poder. Nesta distopia apocalíptica, o líder absoluto Immortan Joe assegura a sua descendência através de fêmeas escravizadas, alimenta-se intravenosamente do sangue dos dispensáveis e mantém-se no poder administrando judiciosamente as reservas de água, sempre proclamando a sua imortalidade. É desta vivência asfixiante que Furiosa tenta fugir, levando consigo as noivas do harém. Max começa como prisioneiro mas acaba por se juntar à revolta feminina na luta pela libertação…

O filme é, essencialmente, uma viagem na montanha russa já que pode ser resumido como uma perseguição automóvel de duas horas… Podia ser monótona, mas George Miller teve o condão de optar por nem sequer nos deixar respirar ou pestanejar. Tudo se passa a um ritmo alucinante, louco, com lutas coreografadas para que o espectador fique boquiaberto de admiração – se é pela ousadia da cena ou pela maluqueira da mesma, cada um decidirá. Como gostam de dizer os americanos: “just relax and enjoy the ride!”…

Não se pense, por um minuto, que estamos ao nível dos “blockbusters” tarefeiros de Michael Bay ou Joss Whedon. Nada disso, até por que Miller não joga no campo dos irritantes CGIs, os omnipresentes gráficos digitais. Tudo aqui é analógico e, o que não é, parece. As personagens principais têm profundidade, percebe-se o que são e o que querem. E até as secundárias são trabalhadas para acrescentar algo e não apenas para preencher espaços: alguém se vai esquecer do guitarrista de hard-rock, em cima do camião, oferecendo a banda sonora para a legião de “soldados” motorizados, procurando o mesmo efeito obtido pela wagneriana “Cavalgada das Valqírias” no "Apocalipse Now"?

Charlize Theron está fabulosa, mesmo sem um braço. Na sua composição de Furiosa há ecos de grandiloquência operática e ela mete no bolso todos que com ela contracenam. Tem-se notado um crescente protagonismo de personagens femininas na ficção cinematográfica e televisiva mas com esta Furiosa atinge-se o topo, deixando Tom Hardy, um excelente actor, andar por ali quase perdido. Mas o mérito, claro, vai todo para George Miller que, depois dos três episódios de “Mad Max”, tinha andado a investir em comédias infantis, mas que, aqui, volta à sua plena forma. Para quem não se recorda, ele fazia parte dum grupo de realizadores cheios de energia e criatividade, fascinados pelo cinema fantástico e onde se incluíam, também, Steven Spielberg, Joe Dante e John Landis (James Cameron viria logo a seguir…). Não por acaso, foram os quatro a ressuscitar a fabulosa série “Twilight Zone” para o cinema, em 1983. E não esqueçamos, igualmente, que o "Immortan Joe" mais parece um parente do “Predador”, do filme assinado pelo grande realizador de filmes de acção, John McTiernan.

E já que falámos em “ressurgimento”, fica comprovado que o cinema atravessa uma crise de imaginação – a “fuga” criativa para a TV continua a fazer mossa… - e é isso que explica este revivalismo dalgumas temáticas do passado, como a do “cinema fantástico”, tão em voga nos anos 70/80. Basta ver que se anunciam para este ano novos “Star Wars”, “Poltergeist”, “Exterminador Implacável” e “Mad Max” já cá está... Não há mal nisso, mas era bom que não se limitassem a uma mera actualização e optassem pela reconversão da história. Como bem o fez, aqui, George Miller.

Publicada a 08-06-2015 por Pedro Brás Marques