Cinecartaz

David Bernardino

Uma abordagem descontraída a Ethan Hunt

Fazer melhor que J.J. Abrams em "Missão Impossível III" era a missão, redondamente quase impossível, de Brad Bird neste quarto episódio da série. O realizador opta por uma abordagem diferente em Ghost Protocol, também ela bem sucedida. Também não será fácil analisar objectivamente este episódio neste blog de cinema Retroprojeccao.
Brad Bird é um realizador que se estreia no cinema em carne e osso. Digo em carne e osso pois este é o realizador que já nos trouxe "The Incredibles" e "Ratatui" da Pixar. No entanto há que recordar aquele que é o melhor filme de animação do realizador, de 1999, O Gigante de Ferro (que é de resto um dos melhores filmes de animação de todos os tempos). E que bela estreia teve Brad Bird!
Ghost Protocol foge da sobriedade e excelência do terceiro episódio, que é na minha modesta opinião um dos melhores filmes de acção da década passada, e opta por uma abordagem mais comercial, descontraída e, na maior parte do filme, até cómica. Não é exactamente aquilo que procurava mas não fiquei desapontado, antes pelo contrário. Ghost Protocol é uma aventura do início ao fim, que nunca se leva demasiado a sério (existem algumas cenas fortes, é certo, mas a maioria delas roça até o humor negro).
A fantasia existe por diversas vezes (a história da agência secreta ter sido desfeita é uma palhaçada que no fundo acaba por não ter consequências visíveis no filme a não ser o capotar de um carro), com Tom Cruise a realizar diversas stunts incríveis, embora quando comparadas com os filmes anteriores não sejam assim tão incríveis quanto isso. São incríveis o "suficiente". Principalmente quando comparado com o segundo episódio, realizado por John Woo, onde o impossível se tornou possível e onde Ethan Hunt (a personagem de Tom Cruise) se tornou um atleta perfeito. Essa faceta desapareceu por completo no terceiro capítulo, sendo Ethan Hunt um agente com falhas humanas como qualquer outro, e em Ghost Protocol apresenta um misto das duas. Vence 10 matulões russos ao mesmo tempo mas é capaz de tentar saltar para uma janela e bater com os queixos na parede, adquirindo uma nova vertente cómica que até aqui nos era desconhecida. Torna-se portanto difícil definir quem é afinal Ethan Hunt, esse agente secreto que muda de personalidade como quem muda de camisas. No entanto este Ghost Protocol deu a entender que a saga é para continuar e que esta será a nova roupagem da personagem para o futuro, mas também quem poderá saber?
As cenas de acção, embora nunca sejam realmente intensas, são boas de ver e estão muito bem executadas. Esse acaba por ser o pecado maior do filme. É para ver e deitar fora, rever e deitar fora. É excelente naquilo que pretende ser, mas com esta atitude nunca será um filme de acção de culto como o primeiro e o terceiro filme.
É importante referir o cast, dotado de invulgar qualidade. A equipa de Tom Cruise, que no fundo acaba por estar sempre bem, é composta por Jeremy Renner (nomeado para óscar de melhor actor em Hurt Locket), Simon Pegg (o novo actor de comédia de culto, veja-se Shaun Of The Dead ou Hot Fuzz) e Paula Patton (quem???). É verdade, apesar de cumprir o seu papel, Paula Patton tem um grande ponto de interrogação marcado na testa. Certamente não é grande actriz, e também certamente a sua personagem é a mais fraca do filme. Chegamos a desejar que tivesse sido a esposa de Hunt, interpretada por Michelle Monaghan, a tomar o seu lugar, dada a prestação exemplar no capítulo anterior.
Simon Pegg está muito bem. Por vezes é pena que a sua personagem exagere tanto na piada fácil, mas acaba por ser suportável e dá um toque engraçado ao filme. Jeremy Renner está também muito bem, um misto de bad guy com também alguma comédia à mistura. Apesar do cast ser forte para o tipo de filme que se propõe, não deixa de notar a falta de Ving Rhames(que ainda dá uma perninha no final), o parceiro fiel de Ethan nas suas missões anteriores, nem que fosse para dar um toque de realismo e sobriedade ao filme.
Ghost Protocol é uma excelente opção, uma das melhores, no cinema de acção de consumo rápido. No entanto é pena. O seu feel descontraído (o vilão nunca nos envolve nem nos causa realmente receio) acaba por nos fazer suspirar porque, embora gostemos desta nova abordagem, era outra coisa que se procurava. Nunca ficamos realmente envolvidos com aquilo que se está a passar, embora nos agrade e muito. Enfim, este novo capítulo acaba por aliviar a tensão gerada pelos anteriores, numa nota muito positiva e que em princípio virá para ficar. Missão Impossível não se ficou por aqui.

Publicada a 10-01-2012 por David Bernardino