Cinecartaz

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Diamantes da Tanga

Como filme de acção "Blood Diamond" fracassa pela total previsibilidade do enredo e das figuras principais – os bons: o mercenário cínico, a repórter idealista e o nobre africano; os maus: um senhor da guerra, com pala no olho e tudo, que aparecia sem explicação em todos os sítios onde dava jeito à história, e, uma vez mais, os capitalistas brancos. Particularmente pateta é a sucessão de diálogos interrompidos por tiroteios (estes últimos, de longe, o melhor do filme): o pior deles, o telefonema final, ao qual só faltou uma estactite de gelo no nariz de Leonardo Di Caprio para repetir a despedida de "Titanic". Mas se a falta de jeito enfastia, já o moralismo irrita. Aparentemente, nem nos filmes de acção se escapa aos sermões dos milionários de Holywood acerca da culpa dos ocidentais por todos os males do mundo. É verdade, mesmo pelas amputações na Serra Leoa são culpados os Belgas, que praticaram igual atrocidade no Alto Congo no século XIX… claro que a distância entre o Alto Congo e a Serra Leoa é semelhante àquela entre Lisboa e Bagdad, mas quem é que fez as contas? Irónico é o facto destas denúncias da exploração ocidental, serem elas próprias aproveitamentos oportunistas da desgraça africana para a produção de lucrativos filmes-pipoca, pois só a ganância ou o racismo explicam que, para um tema onde existem vários e excelentes livros com protagonistas locais, se faça um filme onde um lindo casal de Hollywood desfila entre os horrores do Continente Negro – alguém disse "Constant Gardener"? E alguém comparou o tempo gasto na marmelada entre Di Caprio (a imitar um Errol Flynn com catarro) e Jennifer Connelly e aquele aplicado nos factos que tanto se faz gala de denunciar? Haja vergonha.

Publicada a 14-03-2007 por jpt