Kontinental '25
Título Original
Realizado por
Elenco
Sinopse
Orsolya, oficial de justiça em Cluj, na Transilvânia (Roménia), teve como responsabilidade despejar um idoso que ocupava ilegalmente a cave de um prédio antes da sua demolição. Ao perceber que a sua acção levou o pobre senhor ao suicídio, depara-se com uma grande dificuldade em gerir o sentimento de culpa por ter contribuído para a tragédia.
Com um título inspirado no clássico "Europa 51" (1952), de Roberto Rossellini, e distinguido com o Urso de Prata para melhor argumento no Festival de Cinema de Berlim, Kontinental '25 tem realização do romeno Radu Jude, vencedor do Urso de Ouro em 2021 com "Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental" e do Prémio Especial do Júri em Locarno, em 2023, com "Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo".
Co-produção entre Roménia, Brasil, Suíça, Reino Unido e Luxemburgo, esta história conta com as actuações de Eszter Tompa, Gabriel Spahiu, Adonis Tanța, Oana Mardare, Șerban Pavlu, Annamária Biluska e Ilinca Manolache. PÚBLICO
Críticas Ípsilon
A Europa como remorso em Kontinental ‘25
O realizador Radu Jude importa o padrão do filme Europa 51, de Roberto Rossellini, para o seu Kontinental ‘25.
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Kontinental ´25
Fernando Oliveira
Como é que na Europa em 2025 convivemos uns com os outros? E com aqueles que estão à margem, que fogem aos padrões definidos pelo nosso sentir e o nosso olhar? Ou, sendo cruel, como disfarçar o “varrer o lixo para debaixo do tapete”?
O filme, até no nome, terá como referência, ou inspiração, um filme de Roberto Rossellini, “Europa 51” (com Ingrid Bergman, sobre uma mulher rica que depois do suicídio do filho fica obcecada em ajudar os mais pobres), há até um cartaz desse filme numa cena deste, e é assim um retrato bastante doloroso da sociedade europeia neste século, um retrato “pintado” em Cluj, cidade na Transilvânia, na Roménia, mas que não deixa de ser igual aos de todas as cidades da Europa do bem-estar e modo de vida em “rebanho”.
Primeiro seguimos um desgraçado qualquer a percorrer os parques e ruas da cidade, o homem vive numa cave de um prédio, e nesse dia recebe a visita de uma funcionária do tribunal acompanhada pela polícia – tem de abandonar o local. Mas o homem nos vinte minutos que lhe dão para juntar os pertences suicida-se, enforca-se com um arame.
Orsolya, assim se chama a mulher (excelente Ezster Tompa) entra em crise pessoal, vacila, quer ficar sozinha, deixa de ir de férias com o a família para a Grécia. Vai falando com outras pessoas, uma amiga (e esta é uma conversa surreal e de uma crueldade absurda), a mãe, um antigo aluna da faculdade de Direito que é agora distribuidor de comida, um padre; em todos estes encontros a mulher lamenta-se do acontecido mas ressalva sempre a sua inocência aos olhos da lei.
O filme é isto, estas conversas (muito bem escritas e “difíceis”), filmadas em planos longos mas cheios de emoções. Um olhar que é só uma constatação, prefere não julgar nem os personagens nem a sociedade. E aqueles planos fixos das casas, dos parques, dos monumentos da cidade; aquele parque jurássico? No final, e antes de uma conversa com o padre sobre a posse (por causa de uma passagem na Bíblia, a diferença entre a posse material e espiritual), o antigo aluno convida-a para uma saída à noite.
Uma enorme bebedeira e uma queca no parque. Pouco depois, Orsolya está pronta para se juntar à família na Grécia. O lixo foi varrido para debaixo do tapete. (em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")
4 estrelas
José Miguel Costa
O realizador Radu Jude, em 2021, “chegou e venceu” com o subversivo e desconcertante “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” (Urso de Ouro no Festival de Berlim); e em 2023 voltou a encantar-nos através de “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo” (Prémio Especial do Júri no Festival de Locarno).
Para comprovar-nos que “não há duas sem três”, ei-lo de volta aos grandes ecrãs com “Kontinental’ 25” (Urso de Prata para melhor argumento no Festival de Cinema de Berlim), num registo que o notabilizou (embora num tom mais contido e recorrendo a uma narrativa menos “caótica” e hiperbólica), a comédia dramática negra e satírica de génese político-social (ao invés do tradicional método observacional/expositivo que, por norma, caracteriza a – vibrante – cinematografia romena, “adepta” do realismo social).
Inicialmente somos confrontados com uma oficial de justiça (Eszter Tompa) a concretizar a acção de despejo de um sem-abrigo da cave de um prédio (destinado à construção de um hotel) numa cidade da Transilvânia sob forte pressão imobiliária. Enquanto tal procedimento decorre, ele suicida-se, o que irá gerar um sentimento de culpa na dita cuja.
Toda a restante acção tem por base o corrupio de contactos desta com outros elementos da sua rede relacional (o marido, a mãe nacionalista, a amiga “esquerda caviar”, um ex-aluno excêntrico e um padre ultra-ortodoxo) com o objectivo intrínseco de expiar a angústia (repete ininterruptamente as circunstâncias do evento, recebendo diferentes formas de consolo, e reafirmando a própria inocência – uma quase vítima - e empatia com o argumento “legalmente, eu não tive culpa"…).
A história aparentemente simples (exposta pela sucessão de uma infinidade de curtos planos fixos, muitos deles filmados com Iphone) constitui-se como uma hilariante alegoria à alienação colectiva da sociedade perante a(s) tragédia(s) de terceiros, disparando em diversas direcções, nomeadamente, a gentrificação das cidades, o nacionalismo, a xenofobia e a falência do Estado Social. @jmikecosta
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