A Desaparecida
Título Original
The Searchers
Realizado por
Elenco
Sinopse
Críticas Ípsilon
O Oeste raras vezes foi tão selvagem
Não é o nosso Ford preferido, mas é um dos filmes mais singulares da sua carreira e uma das “charneiras” que abriu caminho à fase “revisionista” do western.
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A Desaparecida
Fernando Oliveira
Entre uma porta que se abre e uma porta que se fecha; entre uma cena inaugural que de forma espantosa – um nome que é murmurado – logo nos diz que é uma história de um amor proibido que vai assombrar todo o filme, e a cena final quando a porta se fecha e deixa Ethan de fora – ele está condenado a cavalgar “para sempre” em busca de um apaziguamento da alma que se calhar nunca atingirá; acontece um dos mais extraordinários filmes que o Cinema nos mostrou.
Será um western sobre todos os westerns, mas é ao mesmo tempo um western diferente de todos os outros, com uma história comparada à de Ulisses (julgo que o primeiro a escrevê-lo foi Godard, a propósito da cena em Ethan toma a sobrinha nos braços), que marca a passagem de uma visão clássica e romantizada – o western como definidor de uma ideia mitológica da construção da nação americana – para um olhar que usando todos as simbologias do género as transfigura, através de um olhar desencantado e muito triste, num “lugar” selvagem definido pela presença da morte, um “lugar” de pura tragédia, onde o drama substituiu o espírito de aventura e heróico que o definia.
Quando Ethan regressa a casa longos anos após a Guerra da Secessão é um homem que parece indiferente aos sentimentos, percebemos logo o drama íntimo que é o amor proibido que ele e a cunhada sentem. Outra tragédia acontece, a sua família é chacinada pelos Comanches e a suas duas sobrinhas raptadas; Ethan, acompanhado por um jovem mestiço que aprenderá a respeitar acima do seu racismo, inicia aqui uma outra odisseia durante sete anos procurando por entre paisagens e climas inóspitos (que a extraordinária fotografia de Winton C. Hoch tão bem define) a tribo índia para poder resgatar a(s) sobrinha(s) (busca magnificamente sublinhada pela música de Max Steiner).
E aqui Ford transforma um dos mais icónicos actores de westerns, John Wayne, num dos mais tortuosos e ambíguos personagens que o seu Cinema nos deu. Porque na sua obsessão, no seu ódio pelos Comanches, nasce em Ethan um desejo que roça o repulsivo: que a sobrinha esteja morta, antes isso que a integração na tribo.
É uma personagem psicótica, quase odiosa, que Ford mostra, com a sua extraordinária mestria formal, não como símbolo de uma época mitológica, mas como uma personagem definida por uma época tão marcada pelo Mal como ela. Por isso a importância de ter sido Wayne (e este terá sido a sua melhor representação) a interpretá-la. É um momento de mudança que acontece no Cinema clássico americano…
Voltando ao amor proibido contado no inicio do filme: quando Ethan resgata Debbie, e decide não a matar, e a levanta nos braços, quando a olha vê nela, e na sua vida futura, uma recordação do amor que ele e mãe dela sentiam; neste movimento vive a impossibilidade de Ethan ficar. Tudo continua “vivo” enquanto não é esquecido e há memórias demasiado dolorosas para serem alimentadas.
No filme, uma porta abre-se e no fim uma porta fecha-se. Para o Cinema não se terá fechado nenhuma porta, mas definitivamente uma abriu-se. Nunca mais se fechou.
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