Cinecartaz

Gin

Vai e Vem

Vi o “Vai e Vem” quando ele estreou, por isso falo do filme que ficou em mim e não do que vi na tela. Tela privilegiada, por receber tais imagens, planos inesquecíveis e uma luz que toca ao de leve nos corpos filmados, no rosto poético de César Monteiro, nas casas lisboetamente iluminadas com uma luz, como direi... final, como um pronúncio de morte. Depois passamos em frente ao parlamento, passamos no Príncipe Real, atravessamos Lisboa, e estamos na mesma luz que Vuvu atravessava. Ele não ia a nenhum lado, estava só a viajar. Estava só a despedir-se e a espalhar a sua derradeira chama libertária por aí. Estava a ser livre como quem só sabe ser insubmisso. Dizem que se pode ouvir o silêncio depois do estrondo de um tiro. Decerto é impossível calar o silêncio que vão sentir aqueles que como eu ficaram marcados por este filme, como direi.... estrondoso, como o silêncio que segue um tiro. Pois, e há os diálogos verdadeiramente singulares. E há um pouco de surrealismo a querer vir ao de cima, num fígado atirado aos pombos e numa mulher barbuda. Há um menino pedinte que faz anos amanhã: “pode ser que faças, pode ser que não, por mim fazias”, diz Vuvu pondo-lhe a mão na cabeça, suavemente. Há uma ninfa num ramo da grande árvore metafórica (não sei é que metáfora encerra, e se alguém descobrir que me avise). O olho que fica aberto, numa imagem parada do fim do filme... dizem que dura três minutos, mas o filme de que falo é o que ficou em mim, e nesse, o olho de João permaneceu aberto até agora, como todo o sentimento que atravessa o “Vai e Vem”, que me ficou por dentro como poucas vezes, ou nenhuma, me aconteceu com um filme.

Publicada a 04-08-2003 por Gin