Cinecartaz

Luís Mendonça

O Auto do Fim

"Vai e Vem" foi feito por um homem consciente da sua própria morte. João César Monteiro ("As Bodas de Deus") pôs termo a uma das suas personagens mais marcantes: João de Deus. A morte dessa figura coincidiu, também, com a sua própria morte: antes do filme "Vai e Vem" ter estreado nos cinemas, já César Monteiro havia falecido e deixado o adeus eterno a João de Deus. Como que regressado da terra dos mortos, voltou para fazer uma breve visita ao nosso mundo. Mas desta vez, na pele de um tal de João Vuvu, um personagem mais humano e sensível. É ele que mais se aproxima do "eu" de César Monteiro: um solitário que vagueia por uma Lisboa animada; um ser único, que marca cada lugar com a sua presença proeminente. Na realidade, este retorno acaba por ser uma espécie de ajuste de contas com aqueles que sempre testemunharam o vai e vem da vida de João Vuvu. Ele reencontra-se com antigos conhecidos e deixa uma "mensagem". Mensagens essas dotadas, sempre, de um sarcasmo audaz, de uma ironia corrosiva, de um delírio extremo. "Vai e Vem" é um hino à vida e à liberdade, porque, enquanto a morte for uma incerteza, João César Monteiro, ou melhor, Vuvu continuará a fazer o seu trajecto rotineiro por Lisboa; a sentar-se no mesmo banco, a fumar o habitual cigarro, a olhar para a mesma paisagem... É viúvo e tem um filho criminoso (Jorge) que passa, grande parte da acção, em cativeiro. Quando regressa aos braços do pai, dá-se uma discussão curiosa entre ele (Jorge) e Vuvu: Jorge acusa Vuvu de não ter sentimentos, de ver as pessoas como meros objectos de arte. Foi a partir deste momentos que senti, certa ou erradamente, que Vuvu era João César Monteiro e que este havia morrido. As gargalhadas (eufóricas) que dei ao longo de (quase) todo o filme, transformaram-se rapidamente num amargo desgosto: morreu um génio. (A cena final é de uma dimensão quase espiritual: o olho de um visionário em primeiro foco. São preciosos minutos em que nós, espectadores, assistimos ao olhar de uma vida, acompanhado pelo som marcado de uma música clássica).

Publicada a 15-07-2003 por Luís Mendonça