Cinecartaz

Fernando Oliveira

Retrato de uma rapariga em chamas

Segunda metade do século XVII, França antes da Revolução, numa escola de pintura para raparigas a professora que também é a modelo, Marianne (Noémie Merlant), é confrontada com uma tela que representa uma rapariga com a parte debaixo do vestido em chamas. Foi ela que o pintou e nas suas recordações “viajamos” ao passado até a uma ilha na costa da Bretanha e à história delas, a história de duas mulheres que se amam.
Tinha sido contratada para pintar o retrato daquela jovem prometida em casamento a um nobre milanês; como estabeleciam as regras sociais da época era assim que o noivo ficava a “conhecer” a noiva; como a jovem recusa o seu destino, a pintora vai fazer-se passar por dama de companhia e pintar o retrato sem a outra saber. Héloïse (Adèle Haenel) está reclusa, a irmã mais velha suicidou-se para fugir ao casamento e a mãe tem medo que ela, que foi retirada dum convento para substituir a irmã, faça o mesmo. Primeiro são os passeios nas paisagens desertas da ilha, a “liberdade” de Héloïse, correr ou o desejo de se banhar nas águas revoltas do mar, e aquele extraordinário momento em que falham a troca e olhares até se fixarem uma na outra. O que é espantoso na maneira como Céline Sciamma conta a história é o efeito de contraste que o crescer da atracção entre as duas mulheres produz, em Marianne uma mulher mais descomprometida com as regras sociais vai crescendo um estremecimento que a deixa indefesa perante Heloïse; esta vai ganhando uma força que por fim a vai fazer aceitar o destino a que queria fugir. Quando Marianne destrói o primeiro quadro depois de o ter mostrado a Héloïse e é mandada embora pela mãe, é Héloïse que a prende ao aceitar posar para ela. A mãe dá-lhe os cinco dias em que vai estar ausente para completar a tarefa. É lindíssima a forma como o acto de criação do quadro, Héloïse a entregar-se ao olhar de Marianne, sublinha a intimidade amorosa e fisica entra as duas mulheres primeiro cúmplices depois amantes; e a angústia crescente mas aceite de saberem que quando o quadro estiver completo, tudo acaba.
Numa entrevista a realizadora disse que quis contar a atracção entre as duas mulhers como uma “arquitectura de desejos”, “uma história de amor que se construísse apenas pelo desejo”, mas o desejo não apenas fisico, também um desejo da liberdade (e da insegurança) trazida pelo amor. Num filme que junta o amor e arte há cenas de uma beleza indescritível: o desencontros dos olhares que mencionei encima; o momento em que Marianne tenta explicar a Héloïse a música tocada por uma orquestra tocando ao piano uma parte do “Verão” de Vivaldi; quando o vestido de Héloïse se incendeia; quando as duas, e Sophie (Luana Bàjrami), a criada, lêem a história de Orfeu e Euridice e surge a ideia de ele olhou para trás e perdeu a amada porque foi ela que lhe pediu para o fazer; ou aquele momento sublime em que Héloïse posa nua para Marianne, e no seu ventre está um espelho que reflecte a cara desta, o corpo de uma e as feições da outra num mesmo desenho, elas são uma, o seu amor é completo enquanto se lembrarem uma da outra, um gesto de amor que, ao mesmo tempo, perde e ganha esse amor. É um filme encharcado de simbolismo, mas onde Sciamma mergulha no melodrama, ou como o amor delas, o que não se esquece dessa entrega transfigura a impossibilidade social desse amor numa daquelas paixões sublimes, até à morte.
Se é verdade que há muito de denúncia das questões da igualdade de género e classe na forma como Sciamma conta a história - ela e Adèle Haenel são companheiras na vida, e pensamos num jogo de espelhos entre o olhar da realizadora para a actriz e o de Marianne para Héloïse; ou a importância de Sophie na narrativa, que rapidamente passa de criada a amiga, em situações tão trágicas quanto cómicas, como quando quer abortar de uma criança indesejada – este filme sem homens (mas sempre “presentes”: o noivo de Héloïse, o pai de Marianne), não perde nunca a esmagadora intensidade emocional daquele amor.
E termina de duas vezes de forma muito bela: quando abandona a ilha, Marianne recusa o gesto de Orfeu e “foge” a olhar mais uma vez Héloïse vestida de noiva; Marianne vê Héloïse mais duas vezes sem se encontrarem, primeiro retratada num quadro com uma criança ao seu lado, e durante um concerto onde se toca o “Verão” de Vivaldi ela está num camarote do outro lado da sala e chora, e as lágrimas transformam-se pelo poder do “fogo que arde sem se ver” num sorriso.
Lindíssimo este filme.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 23-08-2020 por Fernando Oliveira