Cinecartaz

Fernando Oliveira

Era uma vez em... Hollywood

Um filme violento e um filme fascinado pela violência. São assim todos os filmes de Tarantino. Tanto a violência fisica, a brutalidade das lutas e os corpos ensanguentados e desfeitos; como a violência que resulta do confronto entre a História e as estórias contadas pelo realizador (a partir de “Inglorious Basterds”), um confronto entre a ficção e a realidade.

O ano é 1969, a indústria cinematográfica está num ponto sem referências, as estruturas clássicas estão em ruínas, o “novo” Cinema está à porta, a televisão é o maior entretenimento para os americanos. Foi uma série televisiva que tornou famoso Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), fez alguns filmes conhecidos, agora é apenas contratado para ser o vilão nas séries onde representa, trabalhos de pouca duração, portanto. Cliff Booth (Brad Pitt) era o seu duplo, e agora é seu amigo e assistente, a suspeita de ter matado a mulher (e Tarantino quase nos mostra que sim) afastou-o do trabalho e dos estúdios – esta é a ficção criada por Tarantino.

Mas o realizador coloca-os a viver em Cielo Drive, Rick e Cliff são vizinhos de Roman Polanski e de Sharon Tate (Margot Robie). E foi em Cielo Drive que Sharon, e três amigos foram assassinados pelos acólitos de Charles Manson em Agosto de 1969. Isto é História.
Até ao surpreendente final (e, lembro, Tarantino gosta de filmar vinganças, as dos personagens, mas também uma espécie de vingança pessoal com a História – a neste movimento a ficção ganha sempre à História. Era uma vez… assim começa o nome do filme) parece que não acontece nada. As rotinas e as angústias de Rick, as rotinas e o desenrascanço de Cliff, Sharon Tate numa festa da Playboy, numa sala de cinema a ver um seu filme e a rir-se com a reacção dos espectadores (Sharon representada por Margot Robie a ver a verdadeira Sharon no filme - uma comédia menoríssima de Phil Karlson); muito pouco da América da época é abordado no filme, a guerra do Vietname ou as revoltas estudantis, ou a luta contra o racismo, por exemplo, mas sentimos um mal-estar a circular, uma paranóia instalada, que atravessam todo o filme. Porque Tarantino vai pouco a pouco cruzando ficção e as suas transfigurações da História – o percurso de Rick tem muitos pontos de contacto com a história de Clint Eastwood; Cliff dá boleia a uma das raparigas do bando de Manson Pussycat (Margaret Qualley), o que terá consequências no final do filme; Cliff a dar uma tareia a Bruce Lee (foi Sharon Tate que o “apresentou” à televisão americana), Steve McQueen.

E depois o final, é preciso crer na força das histórias contadas no seus filmes para encenar aquele final: os crimes praticados pelo bando de Manson são dos acontecimentos mais terríficos da América da segunda metade do século XX, e que teve consequências radicais ao longo dos anos: o fim das liberdades do movimento “hippie” e das reivindicações juvenis foi a primeira; a vitória de Reagan e o advento de um novo conservadorismo, depois. Tarantino não tem medo disso, a sua história é o que importa. Ou seja, nos filmes de Tarantino a História também pode ser ficção, é ficção. Tarantino retira todos os pontos de referência à História, nega-lhe uma hipótese de juízo moral. E isto é angustiante.

Como sempre em Tarantino os diálogos são brilhantes; DiCaprio é um actor imenso; a cenografia de Hollywood, cheia de neóns e cartazes de filmes, é magnifica e define a beleza da fotografia de de Robert Richardson. E é um filme para cinéfilos, cheio de pequenas referências (Sharon Tate a comprar o “Tess of the d'Urbervilles” de Thomas Hardy para o marido, por exemplo), ou grandes actores em pequenas aparições (Al Pacino é o produtor que convence Rick a filmar wersterns spaghetti, Dakota Fanning é uma das seguidoras de Manson, Kurt Russell). Todos os filmes de Tarantino são assim: exigentes na cinefilia e extraordinários na forma e na narrativa.
O melhor filme de 2019.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 19-08-2019 por Fernando Oliveira