Cinecartaz

Helena Amaro

Isto não é um conto de fadas

Quanto cabe dentro de um filme?
A crise de quem se viu a viver num motel e vê casas inacabadas em frente, também elas despojos da crise, a arderem na pira da raiva; A arquitectura dos espaços, onde os moradores transitórios se eternizam e que passam sempre à porta uns dos outros e, assim, os utilizadores de uma noite cedem o lugar aos vizinhos que se vigiam, para o bem e para o mal;
A ausência de um espaço comum de refeições, de convívio ou de conforto, empurrando os convívios para a piscina, a lavandaria ou a caixa de escadas;
Um espaço de (não) ligação entre os motéis-habitação social que se olham reciprocamente, com ruas sem saída e atravessamentos pelos campos, com animais perdidos no espaço intermédio, que se torna um lugar de aventuras, com chuva e árvores e um quase safari; as televisões ligadas o tempo todo e os ganapos entediados com a comida a que falta o fogo da casa, valendo-lhes os gelados que marcam o verão;
Mas, acima de tudo, um grupo de mulheres com os seus filhos, tolhidas por todas as precariedades - a casa, o trabalho, a comida, o dinheiro, os afectos.
E a pergunta que fica a apertar a garganta: Mooney era uma criança em festa permanente com a mãe ou era uma criança em perigo? Fica, dias a fio, a corrida das duas ganapas a fugirem com toda a pressa do mundo, com a urgência de quem foge da realidade que não é um conto de fadas, em direcção ao castelo de uma princesa da Disney qualquer - aquele choro e aquela fuga não têm par e, como a ferrugem, corroem sempre, nunca dormem. Cinema é isto.

Publicada a 27-02-2018 por Helena Amaro