Cinecartaz

Patrícia Mingacho

Sono de Inverno: Um filme soberbo

Hoje, indo ao encontro das palavras de Robert Musil que dizia que matamos o tempo para iludir a angústia que será o tempo que um dia nos há-de matar, sentei-me numa sala de cinema e decidi que iria ter a paciência necessária para absorver 3 horas e meia de cinema. Por vezes, é necessário ter esta paciência para nos surpreendermos com o que ainda de muito bom se faz em cinema. Hoje, nesta cadência do meu viver, entreguei-me a “Sono de Inverno”, um filme do realizador turco Nuri Bilge Ceylan e que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.
Este filme é, sem dúvida, uma obra-prima do cinema contemporâneo. É surpreendente como o tempo passa e não sentimos que todo aquele tempo é desnecessário…há filmes que, tal como certos momentos do nosso viver, merecem tempo para absorvermos pormenores, situações que de outra forma soariam a vazio… Deambulamos por este filme e encontramos paisagens colossais: a brancura preenche o ecrã e ficamos naquele espaço, numa letargia que só a neve sabe inculcar… Deambulamos por este filme e vamos ao encontro de nós mesmos carregados de anseios, medos, preconceitos e soberba. Olhamos para aquela tela e no confronto entre as personagens, no diálogo entre dois irmãos, no diálogo entre o casal protagonista, existe um pouco de nós… Se o tempo do filme nos assusta, é precisamente desse tempo longo que o filme vive, já que é esse o tempo necessário para nos aproximarmos daquelas personagens porque aquele é o tempo real, porque o tempo real do confronto é longo…a vida, tal como os nossos diálogos que vão ao encontro do tudo e do nada faz-se de tempo, quantas horas tecidas em torno de conversas passámos à volta de uma mesa? Este filme é, sem dúvida, sobre estas questões, sobre as ideias tecidas entre duas pessoas que se amam, sobre o afastamento que existe entre dois seres, sobre a incapacidade que temos de ser iguais ao outro por mais vida que tenhamos ao seu lado. A vida, enquanto confronto vivo, enquanto inquietude constante, enquanto incapacidade para que o outro nos veja da forma que quereríamos que nos visse está naquela tela… Este é cinema do mais real que podemos ver e foi por isso que, ao sair daquela sala, não saí sozinha pois aqueles confrontos, aquela solidão é também minha, é também nossa…

Publicada a 01-02-2015 por Patrícia Mingacho