Cinecartaz

Pedro Brás Marques

«Só»

«No espaço, ninguém te pode ouvir gritar», dizia a tagline de “Aliens”. Sandra Bullock não a diz em “Gravidade” mas sente-a e de que maneira. Após uma série de infortúnios enquanto tenta reparar o telescópio Hubble, fica sozinha no espaço, quase à deriva, sem tempo para se deleitar com a paisagem mais espectacular que a Terra pode oferecer: a visão dela própria.

A partir dali é o jogo da sobrevivência. Durante o primeiro terço do filme, ainda tem a companhia de um pragmático George Clooney mas, no tempo restante, a cientista feita astronauta está absolutamente sozinha, pois nem contacto rádio tem. Voga pelo espaço, salta de uma nave americana para outra russa e, depois, para uma chinesa, sempre em busca daquilo que é essencial: a sua sobrevivência. Porque lá em cima, em órbitra, como cá em baixo, no chão, as regras do jogo são as mesmas, duras e inapeláveis, sem espaço para o extra-sensorial ou a religião: ou consegues jogar com as leis da física e safas-te, ou morres. Puro e simples! A Terra que te deu vida, tira-a. E tanto o faz a uma criança de quatro anos que bate com a cabeça no passeio, como a uma astronauta flutuando a umas centenas de quilómetros da superfície, sem um Major Tom que lhe valha... Os simbolismos, aqui, são inúmeros e poderosos. Os astronautas ficam perdidos quando se corta o cabo de segurança que os prendem à nave-mãe, qual cordão umbilical… A primeira vez que Bullock consegue entrar numa nave, adormece em posição fetal… E quando se salva, a nave cai na água, qual caldo primordial, ela rasteja para a margem, qual antepassado anfíbio, onde, em desequilíbrio, reaprende a andar, como o faz um hominídeo…

Um filme aparentemente simples, mas de uma complexidade existencial profunda, surpreendendo, até, no próprio casting, pois confesso que não estava a ver Sandra Bullock num papel tão exigente. Clooney aparece enquanto é preciso e…não há mais ninguém. Uma surpresa bem agradável, este «Gravidade» do mexicano Alfonso Cuarón que já assinara alguns objectos bem interessantes, como outro filme com temática próxima a “Gravidade”, “Os Filhos do Homem” e o sensualíssimo “Y Tu Mama También”. Um último comentário para o facto de ter visto uma versão “normal” em 2D. A verdade é que há muito que perdi a paciência para estar a ver cinema com óculos – para além dos meus, é claro…

Publicada a 25-11-2013 por Pedro Brás Marques