Cinecartaz

David Bernardino

Documentário vs Romance

Em “127 Horas” a tarefa do galardoado Danny Boyle é difícil. Ele terá que realizar um filme com um enredo que já todos conhecem, tendo por isso a obrigação de o fazer de forma interessante. Só aqui se questiona se ter feito este filme é ou não uma decisão correcta por parte do realizador porque existe um dilema: Ou Danny Boyle o faz tentando recriar toda a tensão da situação de ficar com o braço preso debaixo duma pedra durante dias de forma fria, crua e realista, limitando-se a relatar as acções de Aron Ralston (James Franco, o ponto forte do filme), obtendo provavelmente um resultado de qualidade mas arriscando-se a acabar por realizar um documentário da National Geographic; ou então romantiza e dinamiza a narração , dando outros pontos de interesse ao filme como sejam contínuos flashbacks familiares, originalidade na realização, e ultimamente uma disfarçada lição moral. Danny Boyle opta pela segunda opção. Censurar esta opção de aproximação é difícil. Talvez Danny Boyle simplesmente não o devesse ter feito. Regressamos então ao romance iniciado por Slumdog Millionaire, a ironia é que graças a isso Boyle volta a estar nos óscares, quando não esteve com pesos pesados sóbrios como Trainspotting, 28 Dias Depois ou Sunshine. É pena que Boyle não confie e foque totalmente o filme no fantástico actor, James Franco, que tem em mãos. Receoso de criar um filme aborrecido, Boyle vai-se refugiar em técnicas de realização de forma a conferir movimento a um filme que se exigia parado. Rewinds e fast-forwards, écrans divididos e demasiados flashbacks com personagens que não são minimamente desenvolvidas, muitos deles desnecessários, fazem com que a sensação de claustrofobia que era exigida para se sentir um filme assim vá pelo cano abaixo. E é pena. No entanto 127 Horas não é um filme mau, ou razoável. Tem até momentos de grande genialidade! As cores são incríveis, aproveitando bem o Canyon onde a história se passa. As próprias técnicas de realização já referidas, apesar da sua opção ser discutivelmente desnecessária, são sempre bem aplicadas. A banda sonora é outro ponto forte do filme. Demasiado invasiva às vezes mas sempre bem escolhida. A cena final está fantástica. O ponto forte do filme é mesmo James Franco. Estupendo actor. Quando Danny Boyle lhe dá o espaço necessário é simplesmente fenomenal(veja-se a cena de delírio com a câmara de filmar) em todas as 3 fases do filme, antes durante e pós pedra. O óscar de melhor actor ficaria muito bem entregue apesar da vitória de Colin Firth ser quase inevitável. Resta falar da célebre cena na qual supostamente pessoas desmaiam e vomitam no meio do cinema. Apesar de ser algo perturbante não é caso para tanto, suponho que depende da pessoa. No entanto é absolutamente essencial que a cena seja mostrada da maneira que é. Não existe qualquer sensacionalismo, ela é aquilo que é e, quer queiramos quer não, é a cena essencial do filme. Fica a questão: se já todos sabiamos o que ia acontecer será que vale a pena ver o filme? Se calhar Danny Boyle afinal até fez a opção certa com esta aproximação. “127 Horas” é um filme que não é consensual. No entanto é inegável que é mais que razoável. É interessante de ver, bem realizado e bem actuado, apesar de todas as limitações já referidas. Não é um mau filme filme nem o melhor filme do ano. Mas apesar disso não deixa de ser um filme bom. Texto originalmente publicado em www.retroprojeccao.blogspot.com

Publicada a 27-02-2011 por David Bernardino