Cinecartaz

Fernando Oliveira

Viagem a Tóquio

Yazujiro Ozu é um daqueles raros criadores; raros, não apenas no Cinema mas em qualquer outra forma de expressão artística; cuja importância é absolutamente indiscutível, mesmo dentro daquela normalidade que define que todas as opiniões são aceitáveis nunca conheci ninguém que não pensasse em Ozu como um dos nomes fundamentais da história da 7ª arte.
É , no entanto, um cinema difícil que alia uma narrativa que pouco parece contar com uma secura formal única que o torna complicado para quem não o conheça. Mas para quem se deixar entranhar pelo seu Cinema, abre-se um mundo de magia onde o que parece ser tão pouco se torna imenso.
Em “Viagem a Tóquio”, de 1953 – e como em todos os seus filmes que conheço – Ozu filma as fissuras provocadas numa família pelas diferenças entre as gerações, mais entre aquilo que define cada um dos indivíduos, e aquilo que os outros de outra geração esperam dele. Aqui conta a incompreensão de um casal de idosos; que viaja da província para Tóquio para visitar o filho, e nora e netos; pela vivência destes numa sociedade que se tornou diferente. Naquela viagem, e naquele regresso, o que Ozu também filma é um país derrotado numa guerra, uma geração que cresceu antes dela e educada nos valores tradicionais japoneses; e uma nova geração que se “fez” depois, que já vive fora dessa tradição, mas ao mesmo tempo “sentindo-se” também derrotada nessa derrota, portanto ainda à procura de referências ou em “reconstrução” como a cidade que Ozu por vezes nos mostra. É assim um filme sobre a indiferença, e um filme sobre a diferença.
Mas muito mais do que uma aparente simplicidade narrativa – Ozu parece que filma apenas os acontecimentos mais banais que pontuam o relacionamento entre os seus personagens; é o olhar muito particular do realizador que torna os seus filmes difíceis: desde a altura a que muitas vezes filma, ao rigor obsessivo na composição dos planos (de uma fixidez quase dolorosa), até ao pôr os actores a representar “para” os espectadores. É este balancear entre o obrigar-nos a “ver” o filme e ao mesmo tempo a sentirmos a história que torna o Cinema de Ozu tão distinto e tão sedutor.
Só para sublinhar: um dos mais belos filmes alguma vez feitos.

Publicada a 01-06-2020 por Fernando Oliveira