Quo Vadis, Aida?

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Guerra, Drama, Histórico 101 min 2020 03/06/2021

Título Original

Quo Vadis, Aida?

Sinopse

<div>Bósnia, Julho de 1995. Aida Selmanagić (Jasna Djuricic) trabalha como tradutora para a ONU em Srebrenica. Quando uma unidade do Exército da República Sérvia ocupa a região, até aí considerada uma área de segurança sob a proteção das Nações Unidas, ela vê a própria família entre os milhares de pessoas que procuram protecção nos campos de refugiados. Como está presente em reuniões das equipas de manutenção de paz, Aida tem acesso a informações desanimadoras. Desesperada, tenta fazer o que pode para ajudar a comunidade e ainda mais para salvar os seus. </div> <div>Em competição no Festival de Cinema de Veneza e nomeado para o Óscar de melhor filme internacional, um drama de guerra com assinatura de Jasmila Žbanić – responsável por “Filha da Guerra”, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, também sobre a Guerra dos Balcãs. A história, apesar de ficcional, tem como pano de fundo o massacre de Srebrenica quando, entre os dias 11 e 25 de Julho de 1995, mais de 8300 bósnios muçulmanos (principalmente homens e rapazes) foram assassinados. PÚBLICO</div>

Realizado por

Jasmila Zbanic

Elenco

Boris Ler, Jasna Djuricic, Izudin Bajrovic

Críticas Ípsilon

O dilema da intérprete

Jorge Mourinha

O filme da bósnia Jasmila Zbanic sobre o massacre de Srebrenica é um objecto sincero, mas sujeito à lógica do “filme de tema”.

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Críticas dos leitores

Pedro Brás Marques

A acção decorre em 1995 e tem como cenário o hediondo massacre de Srebrenica, onde pereceram assassinados 8373 bósnios, quase todos homens e muçulmanos, inserido na estratégia de limpeza étnica do exército sérvio, comandados pelo general Ratko Mladic. A história acompanha Aida, uma tradutora local ao serviço da ONU, no momento em que começam a chegar notícias de que os comandos sérvios se aproximam da cidade e a população, em fuga, procura refúgio junto da ONU, num aquartelamento próximo. E pedem mais: que a organização não só os proteja como também ataque os sérvios. A ONU promete que sim, mas a verdade é que, inoperante tal qual no passado, nada faz. Um mar de gente continua a afluir para ali, mas os Capacetes Azuis, sem experiência, constituídos por militares imberbes, também têm medo dos sérvios. Aida antecipa o desfecho e tenta salvar o marido e o filho, mas entre a burocracia e a indolência da ONU, acaba por os ver seguir com os milhares de outros, conduzidos pelos sérvios, para o destino final… <br /> <br />A dor de Aida perpassa todo o filme. Começa no desespero de os tentar salvar, passa pela sua perda e vai até anos depois, quando lhe pedem para examinar os restos de dezenas de cadáveres acabados de retirar duma vala comum… Claro que continua, mas há um sentimento de fim de ciclo, de que há que recomeçar a partir dali, como se confirma pela longa e perturbante, mas também injusta, saudável, positiva, inglória, cena final… O desempenho de Jasna Ðuricic é notável, duma força impressionante, mostrando todos os matizes do drama: o seu, o da sua família, da sua cidade, do seu país. O título do filme tem ressonâncias religiosas (apócrifas), citando a pergunta de Pedro a Jesus, a que Este respondeu, “Vou para Roma para ser crucificado”. A Aida do filme, caminha igualmente para a sua paixão, a sua crucificação: a dor imensa de perder a família <br /> <br />O filme é assinado pela realizadora bósnia Jasmila Zbanic, nascida precisamente em 1974, no ano em que nós, portugueses, cortámos com o passado e apostámos na construção dum futuro melhor, onde a Liberdade fosse a bandeira de orientação. Também ela narra uma história que tem um passado horrível, que há que recordar, mas que não pode ser impedimento para o futuro. Num estilo sereno, sem grandes dramatismos (nem sequer vemos o massacre correspondente das personagens retratadas, apenas o ouvimos…), mostra-nos o que aconteceu aos seus compatriotas e como se comportou quem tinha responsabilidades. Ou seja, num tempo em que “se não está filmado ou fotografado, não existe”, Zbanic trata os espectadores com respeito, confiando na sua inteligência para “verem” o que não é mostrado. E, como sabemos, o efeito da sugestão é mais poderoso do que o da exibição… <br /> <br />Um outro ponto de que é impossível fugir após a visualização de “Quo Vadis, Aida?” é a enorme semelhança entre os comportamentos que aqui vemos por parte dos carrascos sérvios e das vítimas bósnias, e os ecos doutros genocídios, nomeadamente o mais visualizado, o dos judeus às mãos dos nazis, mas também os que aconteceram no Ruanda e no Sudão, retratados em filmes como “Hotel Rwanda” e “The Good Lie”. O padrão comportamental é o mesmo, os actores parecem clones e as consequências idênticas – brutais e terríveis. E, no entanto, fica-se com a impressão que a comunidade internacional olha para cada uma destas situações como se duma novidade se tratasse… O filme expõe a incapacidade, a incompetência, a impreparação da ONU naquele cenário, que, claro, apenas faz eco da voz de quem está nas confortáveis salas de reuniões localizadas na 1st Av., em Nova Iorque... Porque aqueles milhares de bósnios morreram pelas balas dos sérvios, é certo, mas também pela incúria da ONU. Vale a pena olhar para o passado? Vale, enquanto lição para o futuro, jamais para ficar preso a ele. <br /> <br />Um belo e duro filme, que merecia uma atenção especial. E não falo só pela força da história, mas enquanto objecto cinematográfico, onde os vários elementos, desde a realização à interpretação, passando pelo argumento e pela reconstituição, são capazes de gerar emoção genuína e duradoura. Ou seja, cinema a sério!

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José Miguel Costa

"Quo Vadis, Aida?", filme da realizadora bósnia Jasmila Žbanic (fruto de uma coprodução que envolve 9 paises europeus), mergulha a fundo num dos capítulos mais negros e vergonhosos da História contemporânea europeia, a guerra dos Balcãs (ocorrida entre 1991 e 2001), e mais concretamente no genocidio étnico de Srebrenica, no qual o exército sérvio assassinou 8300 bósnios muçulmanos (contando para o efeito com o auxilio dos católicos vizinhos e ex-amigos destes). <br /> <br />Um drama de guerra que, apesar de possuir um contexto real (constituindo-se, por esse motivo, como uma - quase - obra documental que nos confronta com uma jornada progressiva de caos e falência moral das instituições internacionais), tem por base a história (que relata episódios vivenciados num período de 24 horas) de uma personagem central ficcionada (Aida). <br />Aida é uma tradutora local ao serviço da ONU, que tenta desesperadamente fazer-se valer do seu "estatuto" para colocar a salvo a sua familia. Todavia, esbarra sistematicamente na burocracia e na suposta neutralidade/cinismo de uma instituição que se limitou a observar, cobardemente, a preparação de um processo que visou exclusivamente conduzir milhares de civis inocentes, refugiados nas suas instalações, para o matadouro. <br />E assim assistimos angustiados ao percurso que medeia entre a fuga em massa da cidade (em consequência dos bombardeamentos) para a suposta segurança da base da ONU e o seu posterior reencaminhamento, com recurso a autocarros sérvios, para um alegado territorio neutro (tão seguro que muitos dos seus corpos ainda não foram encontrados até à presente data). <br /> <br />Estranhamente, e independentemente da força/seriedade inequivoca da narrativa (que abdica da manipulação emocional barata) e da interpretação aguerrida da protagonista, (Jasna Duricic), senti a falta de um "je ne sais quoi" indefinido que me impediu de amar incondicionalmente este filme (quiçá, por se revelar algo impessoal - e quase me sinto a blasfemar).

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José Miguel Costa

"Quo Vadis, Aida?", filme da realizadora bósnia Jasmila Žbanic (fruto de uma coprodução que envolve 9 paises europeus), mergulha a fundo num dos capítulos mais negros e vergonhosos da História contemporânea europeia, a guerra dos Balcãs (ocorrida entre 1991 e 2001), e mais concretamente no genocidio étnico de Srebrenica, no qual o exército sérvio assassinou 8300 bósnios muçulmanos (contando para o efeito com o auxilio dos católicos vizinhos e ex-amigos destes). <br /> <br />Um drama de guerra que, apesar de possuir um contexto real (constituindo-se, por esse motivo, como uma - quase - obra documental que nos confronta com uma jornada progressiva de caos e falência moral das instituições internacionais), tem por base a história (que relata episódios vivenciados num período de 24 horas) de uma personagem central ficcionada (Aida). <br />Aida é uma tradutora local ao serviço da ONU, que tenta desesperadamente fazer-se valer do seu "estatuto" para colocar a salvo a sua familia. Todavia, esbarra sistematicamente na burocracia e na suposta neutralidade/cinismo de uma instituição que se limitou a observar, cobardemente, a preparação de um processo que visou exclusivamente conduzir milhares de civis inocentes, refugiados nas suas instalações, para o matadouro. <br />E assim assistimos angustiados ao percurso que medeia entre a fuga em massa da cidade (em consequência dos bombardeamentos) para a suposta segurança da base da ONU e o seu posterior reencaminhamento, com recurso a autocarros sérvios, para um alegado territorio neutro (tão seguro que muitos dos seus corpos ainda não foram encontrados até à presente data). <br /> <br />Estranhamente, e independentemente da força/seriedade inequivoca da narrativa (que abdica da manipulação emocional barata) e da interpretação aguerrida da protagonista, (Jasna Duricic), senti a falta de um "je ne sais quoi" indefinido que me impediu de amar incondicionalmente este filme (quiçá, por se revelar algo impessoal - e quase me sinto a blasfemar).

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José Miguel Costa

"Quo Vadis, Aida?", filme da realizadora bósnia Jasmila Žbanic (fruto de uma coprodução que envolve 9 paises europeus), mergulha a fundo num dos capítulos mais negros e vergonhosos da História contemporânea europeia, a guerra dos Balcãs (ocorrida entre 1991 e 2001), e mais concretamente no genocidio étnico de Srebrenica, no qual o exército sérvio assassinou 8300 bósnios muçulmanos (contando para o efeito com o auxilio dos católicos vizinhos e ex-amigos destes). <br /> <br />Um drama de guerra que, apesar de possuir um contexto real (constituindo-se, por esse motivo, como uma - quase - obra documental que nos confronta com uma jornada progressiva de caos e falência moral das instituições internacionais), tem por base a história (que relata episódios vivenciados num período de 24 horas) de uma personagem central ficcionada (Aida). <br />Aida é uma tradutora local ao serviço da ONU, que tenta desesperadamente fazer-se valer do seu "estatuto" para colocar a salvo a sua familia. Todavia, esbarra sistematicamente na burocracia e na suposta neutralidade/cinismo de uma instituição que se limitou a observar, cobardemente, a preparação de um processo que visou exclusivamente conduzir milhares de civis inocentes, refugiados nas suas instalações, para o matadouro. <br />E assim assistimos angustiados ao percurso que medeia entre a fuga em massa da cidade (em consequência dos bombardeamentos) para a suposta segurança da base da ONU e o seu posterior reencaminhamento, com recurso a autocarros sérvios, para um alegado territorio neutro (tão seguro que muitos dos seus corpos ainda não foram encontrados até à presente data). <br /> <br />Estranhamente, e independentemente da força/seriedade inequivoca da narrativa (que abdica da manipulação emocional barata) e da interpretação aguerrida da protagonista, (Jasna Duricic), senti a falta de um "je ne sais quoi" indefinido que me impediu de amar incondicionalmente este filme (quiçá, por se revelar algo impessoal - e quase me sinto a blasfemar).

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