O Acontecimento

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Drama 100 min 2021 M/16 06/01/2022

Título Original

L'événement

Sinopse

No ano 2000, Annie Ernaux escreveu um livro sobre o aborto que fez no início da década de 1960, quando este ainda era ilegal em França e quem o praticava corria o risco de ir presa. Na altura, era uma jovem estudante promissora e com oportunidades no horizonte, cuja gravidez veio pôr em causa todo o presente e o futuro. Agora, a história de Ernaux chega ao cinema pela mão de Audrey Diwan, argumentista tornada realizadora, com Anamaria Vartolomei no papel principal. PÚBLICO

Realizado por

Audrey Diwan

Elenco

Louise Chevillotte, Kacey Mottet Klein, Anamaria Vartolomei

Críticas Ípsilon

A escolha de Anne

Jorge Mourinha

O Leão de Ouro de Veneza 2021 é um filme discretamente intenso sobre a condição feminina, história pessoal mais do que libelo activista, com uma superlativa interpretação de Anamaria Vartolomei.

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Críticas dos leitores

Qual acontecimento?

Pedro Brás Marques

Ana é estudante e a data dos exames de acesso à Universidade aproxima-se. Aluna brilhante, tudo se conjuga para que a barreira seja ultrapassada, até ao momento em que descobre que esta grávida. Focada no seu propósito universitário, tenta abortar. Procura ajuda, mas ninguém lhe dá a mão. Está sozinha, mas não desiste...
Há pouco mais dum ano estreava “Never Rarely Sometimes Always”, o filme de Eliza Hittman que aborda exactamente a mesma temática e com enfoque semelhante: a dor, a angústia e principalmente a solidão duma mulher que carrega um filho que não quer dar à luz. Se, neste, passado na actualidade, o procedimento era perfeitamente legal e realizado em circunstâncias próprias e adequadas, sobrando a angústia da personagem, em “L’Evenement/O Acontecimento”, nada disso se passa. Estamos em França, nos anos 60 e a prática de aborto é crime, quer para quem o pratica, quer para a própria gestante. Daí a enorme dificuldade de Anne em conseguir resolver o seu problema. Os médicos não querem ouvir falar nisso, as poucas amigas a quem confessa o drama igualmente se afastam e à família nada disse. Entretanto, como é natural, o seu estado de espírito altera-se, as notas baixam e a confiança afunda-se.
Audrey Diwan conta-nos a história de Anne de forma brutalmente crua. A realizadora não esconde quase nada, desde os procedimentos artesanais até ao sangue e ao sofrimento físico, tudo é mostrado ao espectador em grandes planos, para que se perceba a violência da tempestade que obnubila a protagonista e que só a deixa centrada numa coisa: conseguir o aborto. Por vezes, Diwan parece querer mostrar que Anne vai mais depressa do que o próprio tempo, filmando-a de costas, sobre os ombros, como se a câmara não a conseguisse acompanhar, restando-lhe ser espectadora passiva da protagonista… Mas, a maior parte do tempo, a face e os belos olhos da franco-romena Anamaria Vartolomei enchem o ecrã, qual portal para a alma, como refere o chavão, numa magnífica e memorável interpretação.
E convém, também, sublinhar a inteligência do argumento, que não se limita a “documentar” quer o que era o tabu em França naquela época como o efeito de alguém que quer rejeitar um nascituro e não o pode fazer, mesmo sendo uma gravidez ainda precoce como a dela. É que o argumento levanta uma questão ética, ao problematizar a verdadeira intenção de Anne. O tal “acontecimento” a que o título se refere, afinal, é o quê? É a gravidez/aborto que a impede de ir às provas de acesso, ou é o próprio exame de entrada que está em perigo por causa da gestação? A duplicidade do título, que “engana” o espectador, eleva o filme a um patamar bem maior do que aquele em que estaria se se resumisse à mera questão moral da interrupção da gravidez - como bem se alcança na sequência final.
Desta forma, Diwan leva-nos mais longe: por um lado, temos a questão da extensão da liberdade sobre o destino a dar a uma gravidez; por outro, convida-nos a um mergulho na motivação que preside à decisão. No fundo, convida o espectador a pensar: abortar é um acto de liberdade ou de egoísmo?

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4 estrelas

José Miguel Costa

Estamos na França pré-Maio de 68 (mais propriamente em 1963), na qual o grito de ipiranga libertário ainda não se fez ouvir, pelo que o aborto continua a ser um acto ilegal que implica pena de prisão para as galdérias que ousem mandar no seu corpo e praticar tal acto pecaminoso.
No entanto, não será tal condicionante que demoverá a jovem Anne (subtil e intensamente encarnada pela magistral Anamaria Vartomel - fiquemos de olho nela!), estudante pré-universitária brilhante e controversa, pertencente à classe operária, que fará tudo o que estiver ao seu alcance, mesmo colocando a vida em risco, para livrar-se de algo que alienará por completo o seu futuro (e que no imediato implicará a cessação irreversível da sua condição de estudante).

"O Acontecimento" (galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza) não é propriamente um filme militante sobre o aborto (embora também o seja, mesmo que indirectamente), uma vez que a realizadora Audrey Diwan foca-se não tanto no evento em si, mas sobre as implicações que uma gravidez indesejada poderá ter nas vivências e perspectivas de uma jovem (neste caso "bem resolvida e dona do seu nariz"), que provavelmente ficará "hipotecada" ad eternum, devido à aniquilante moral vigente na sociedade.

De igual modo, não opta por um registo sensacionalista, o que não impede que, com mestria, vá intensificando gradualmente os níveis de ansiedade nos espectadores, à medida que a saga solitária da forte/convicta Anne se vai desenrolando num percurso carregado de obstáculos. E tal intensidade é obtida graças ao seu eximio modo de filmar, que "usa e abusa" dos grandes planos (para impedir que percamos qualquer movimento, por minimo que seja, do expressivo rosto da protagonista) e da câmara ao ombro.

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