Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

O filme "A Vida Invisivel" do cineasta brasileiro Karim Aïnouz, descrito com um melodrama tropical (com o seu quê de telenovelesco e apimentado por um delicioso humor negro, acrescentaria eu), transporta-nos até ao conservador Rio de Janeiro da década de 1950 (e fá-lo com "tal verdade" que se transforma num - quase - produto cinematográfico de cariz sociológico) para narrar-nos as histórias paralelas de duas jovens irmãs inseparáveis (descendentes de uma conservadora tradicional portuguesa) que, em virtude de uma determinada ocorrência, vêem-se impossibilitadas de comunicar entre si.
Ambas lamentam a falta uma da outra, pelo que jamais desistirão de voltar a reencontrar-se. Todavia, e apesar de viverem geograficamente próximas (sem o saberem), tal evento tarda em ocorrer e a tristeza corroe-as lentamente, sendo as cartas que escrevem (e que nunca chegam ao seu destinatário) o único meio que encontraram para (tentar) amenizar a dor/saudade perpétua.

Portanto, um dramalhão de fazer chorar as pedras do calçadão (e confesso que até eu - nada dado a sentimentalismos - verti umas lágrimas no final). No entanto, tal não o esmorece enquanto produto filmico, em virtude de um competente trabalho de montagem e uma subtil/sincera gestão das emoções por parte do cineasta (que sapientemente intercala momentos de "faca e alguidar" com outros de puro "naturalismo sensual" carioca - "ajudado" pela excelente fotografia granulada, impregnada de vermelhos, azuis e verdes saturados)

Em suma, é um filme que se "sente", independentemente de todos os seus defeitos. Ahh e tem o Gregório Duvivier num "papel sério" (hilariante!).

Publicada a 26-02-2020 por José Miguel Costa