Cinecartaz

Fernando Oliveira

Her

A história de “Her”; que é apenas a quarta longa-metragem de ficção de Spike Jonze, realizador muito mais dedicado aos vídeo musicais e experiências muitas vezes bizarras em documentários; passa-se num futuro próximo, um mundo limpo que parece fisicamente paralisado, um mundo paralisado nas emoções. O trabalho de Theodore (um desempenho extraordinário de Joaquin Phoenix) diz-nos logo isso: ele escreve para os clientes cartas onde expõe os sentimentos que pelos vistos estes já não são capazes de exprimir por palavras. É um mundo onde comunicar é fácil, mas onde todos estão sozinhos, porque a tecnologia quase que substituiu a necessidade de contacto entre os seres humanos. Theodore vive a dor da recente separação da mulher que amou desde sempre, arrasta-se pela vida usando simulacros de felicidade como todos os outros personagens que vimos no filme, cada um mais patético do que o outro. Quando adquire um novo sistema operativo, o carácter humano “dela” faz com que se apaixonem um pelo outro…
Não será só um filme sobre esse mundo paradoxal; mas essencialmente um filme sobre como esse isolamento leva à efemeridade do amor ou mesmo de todas as emoções. Apenas sentem virtualmente. É um filme sobre ilusões, mas também não deixa de ser uma história de amor. “Her” é assim um filme que conta uma história de um amor diferente mas, ao mesmo tempo que discorre da solidão como a razão desse amor, nunca o julga, trata-o como igual – os dois aprendem a conhecer-se, e amar-se, pelo que diz o outro, pelas emoções que exprimem naquilo que dizem, e sem o toque entre os corpos, não é assim para toda a gente? – Até na sua evolução parece-se um amor como todos os outros. Um filme sobre a intimidade, sobre a complexidade do amor, que o argumento de Spike Jonze tem o mérito de contar como um que poderia ser entre dois humanos, mas que é entre um homem e um programa informático – e aqui Jonze ao usar a voz de Scarlett Johansson, torna impossível não pensar no seu corpo cada vez que ouvimos a voz de Samantha: é notável o momento em que arranja um corpo para a sua voz, que nos faz sentir o mesmo que Theodore sente, não é ela… – um sentimento tão essencial que é a sua falta que torna miseravelmente infelizes todas as personagens deste futuro com que o presente se parece cada vez mais.
É um daqueles filmes que vimos com um pesar de alma, com uma angústia aflitiva, com uma história que apesar de triste não deixa de ser muito bonita. Um pouco como as cartas que Theodore dita para o computador: são muito bonitas, mas profundamente tristes, porque não são verdadeiras. O argumento e a direcção de Spike Jonze são muitos bons; a fotografia de Hoyte van Hoytema sublinha prodigiosamente aquele mundo asséptico; Amy Adams, Rooney Mara são excelentes secundárias; num filme belíssimo sobre o amor, sobre a solidão, e sobre a solidão que acompanha todos os amantes.
em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 29-01-2021 por Fernando Oliveira