O Pai

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Drama 97 min 2020 M/12 06/05/2021

Título Original

The Father

Sinopse

<p>Sozinho no seu apartamento em Londres, Anthony foi sempre um homem independente. Agora, com 81 anos, mostra uma grande resistência em aceitar a proposta de Anne, a filha, para que tenha alguém em casa para cuidar de si. Para o velho senhor, consentir uma coisa dessas é assumir uma incapacidade que considera não ter. Mas Anne, que em breve se mudará para Paris, precisa de saber que o pai não ficará entregue a si mesmo. Nesse processo, Anthony sente-se de tal modo pressionado que começa a duvidar de si, de Anne e da própria percepção da realidade. Com assinatura do realizador e dramaturgo Florian Zeller, um filme sobre envelhecimento, sanidade e perda de autonomia, que adapta a peça homónima da sua autoria.<br /> Na 78.ª edição dos Globos de Ouro, foi nomeado nas categorias melhor actor (Anthony Hopkins), actriz secundária (Olivia Colman), filme dramático e argumento (Florian Zeller e Christopher Hampton); nos BAFTA, teve seis nomeações, acabando por ganhar prémios de melhor actor (Hopkins) e argumento adaptado. Com seis nomeações para Óscares, recebeu o de melhor actor (novamente Hopkins) e argumento adaptado. PÚBLICO</p>

Realizado por

Florian Zeller

Elenco

Anthony Hopkins, Olivia Colman

Críticas Ípsilon

Anthony Hopkins, o homem no seu labirinto

Jorge Mourinha

Se já nos esquecemos de muitos filmes premiados com o Óscar, muitos de nós não esquecerão tão cedo o retrato da demência de O Pai, e não apenas pelo Óscar de Anthony Hopkins.

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Críticas dos leitores

José Maria Joaquim BELO

Com 83 anos Anthony Hopkins faz um dos mais belos atos que o cinema já viu... meu pai é cinema de qualidade!

O filme não é só ele e é muito bem pensado, Olivia Colman complementa um cenário para onde todos vamos na filha dilacerada.

Mas, para por o ato sublime em pé é preciso quem o pinte, o erga: com 42 anos Florian Zeller (link) é o engenheiro que constrói esta maravilha...

É um filme que joga connosco e põe a demência do PAI como realizada e produzida no ali e agora, nas cenas...

Várias personagens entram trazendo relevância à doença: o marido da filha e genro de Hopkins; a médica; a enfermeira e auxiliar no final.

Os locais onde é passado mudam imenso em 1h38 de sequências cinematográficas.

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David Miguel

A percepção que tive do filme foram os sentimentos opostos (ora de um lado, ora de outro) que a filha tem para com o seu pai. Fiquei com a ideia de que o filme é um filme "aberto", ou seja, estimula a imaginação do espectador. <br />Doeu quando o idoso chama em lágrimas e encolhido: "Quero a minha mãezinha! Quero a minha mãezinha!..."

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Maria

Um filme horrível e desesperante!

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Paulo Guerra

O Último Poema de UM PAI (a propósito de "The Father") <br /> <br />* <br /> <br />Há um homem perdido dentro da sua mente. <br />Como se fosse um puzzle, com entradas e saídas temporais, portas que se fecham, rostos que não se repetem, nomes que não fazem sentido. <br />Num apartamento de classe média alta, jaz um ancião, de nome Anthony (curiosamente, o mesmo nome do enorme ACTOR que lhe dá corpo e alma, e que até tem a mesma exacta idade – nascidos ambos a 31 de Dezembro de 1937), sem conhecer as pessoas que consigo se cruzam, numa enredada teia de loucura e desatino própria de quem está doente e perdendo as coordenadas geográficas e mentais de toda uma vida. <br />Engenheiro de profissão, diz-se agora bailarino, a arte que teria preferido à dos cimentos e pedras cortantes. Porque, afinal, é no fim da vida, quando se perde a razão, que os nossos verdadeiros anseios e amores (e ódios) acabam por se revelar. A verdade não gosta da realidade. Muito mais da ilusão e da perda de tino. <br />Vive, afinal, com a filha Anne (que vemos na pele de Olívia Colman, uma tardia actriz que todos os anos nos maravilha, aqui a viver o mesmo nome da sua rainha do Oscar, película de Yorgos Lanthimos), num apartamento que pensa ser seu e que não quer, a todo o custo, abandonar. <br />Homens e mulheres estranhos sucedem-se no hall de entrada, as suas cuidadoras não resistem ao seu mau feitio e tudo cai por cima de uma filha que sofre com aquele desatino de um Pai que, a tudo e a todos, vai gritando ao mundo que sempre preferiu uma outra filha, entretanto falecida, àquela que dele cuida com enlevo e generosidade. <br />Custa ver o definhar de alguém, o cair das folhas de um Ser Humano, a baba e ranho acesos por uma degenerescência mental, o canto de cisne de um homem que ouve Callas todos os dias (e o excerto de Casta Diva é magnífico) e que já nem sequer distingue a voz da filha da da enfermeira do lar onde afinal o acabam por colocar. <br />E é magnífica a realização de Florian Zeller, que também assina o argumento, ao lado do Oscarizado Christopher Hampton, nascido no Faial, nos nossos Açores (o de Ligações Perigosas, Carrington e Expiação, e que se apresta para assinar o argumento fílmico do Sunset Boulevard que vai dar o 1º OSCAR à «minha» Glenn Close). <br />Tudo começou por uma peça. E a atmosfera do filme é teatral a todo o gás e a toda a trama. Vemos a casa, o espaço, o tempo, as pessoas sempre pelos olhos de Anthony num exercício empático que quase nos leva à loucura visual e auditiva. <br />Zeller descreve o seu filme “como uma espécie de suspense, convidando o público a construir a narrativa, como eu fiz no teatro. Eu queria que o público se sentisse próximo aos personagens.” Na adaptação de sua própria peça, ele aponta que “o cinema e o teatro nos lembram que somos parte de algo maior que nós mesmos. Apesar das qualidades labirínticas do original, há uma sensação de alegria na peça que eu queria manter no filme.” <br />Hopkins mereceu o OSCAR por este retrato, aquele que já lhe devia ter sido também entregue por DESPOJOS DO DIA, em 1993/1994 – perfeito, irrepreensível, de uma tocante vulnerabilidade, própria de quem não faz já de si próprio, saindo mesmo da sua pele (o que Frances MacDormand nunca faz em NOMADLAND e que, por isso, para mim, torna injusto este Oscar de 2021, muito mais justo nas mãos de Carey Mulligan). <br />“Faço isto há muito, sei alguns truques...”, ri-se o actor. Que adoptou o absurdo como lema. “O nascermos é a grande blague”. <br />* <br />É uma peça, um filme sobre a demência. <br />E, por ele, sou chamado para outra informação que recebi recentemente. <br />Um adolescente começa a ler um poema de Rudyard Kipling, rompendo o silêncio numa sala cheia de idosos: "se puder manter a calma/quando todos à tua volta já a perderam", quando um deles, doente de Alzheimer completa com um murmúrio: "você será um homem, meu filho!". <br />Para combater a perda de memória que afecta 800 mil pessoas no Reino Unido, instituições especializadas e hospitais começaram a recorrer à poesia, a mais absurda de todas as artes e a mais sublime de todas as verdades alternativas da vida. <br />A melodia e o ritmo de versos conhecidos conseguem bater na porta da memória, servem de detonador que activa a palavra e as lembranças. <br />Quando os pacientes "escutam uma palavra que conseguem lembrar de um poema, eles ganham o dia", contou Elaine Gibbs, directora do lar para idosos Hylands, que abriga 19 idosos em Stratford-upon-Avon, terra natal de William Shakespeare, região central da Inglaterra. <br />Com os cabelos grisalhos presos e vestido florido, Miriam Cowley ouve com atenção uma jovem que lê o poema "À Margarida", de William Wordsworth, um clássico nas escolas britânicas. <br />"Sabia o poema, mas tinha esquecido. Aprendi quando era menina", lembrou esta antiga professora, que sofre com a perda de memória recente. "Terei belos sonhos, sonhos tranquilizadores, de margaridas e árvores", comemorou. <br />E nós com ela. <br />Os poemas salvam-nos sempre. <br />Afinal, o Anthony não chegou a perder as suas folhas, a sua árvore permanece de pé mesmo que só veja ninfas em vez de frangos, ventos em vez de carros, luas em vez de luzes. <br />Foi uma noite forte. <br />Mas voltei com o Anthony comigo para casa. <br />E pensei, serenamente, no meu Joaquim e no meu Luís Manuel. <br />A alquimia do Cinema faz disto – o distante torna-se perto, a dor alheia é tida como nossa. <br />Até à redenção e ao genérico final… <br />E à próxima cantata de Einaudi (que também assina a partitura musical, a par de Nomadland)...

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Raul Gomes

Pela lição de humanidade, pela sua melhor actuação de sempre, que lhe valeu o Óscar mais merecido, pela sua representação tão magnífica e credível, bem coadjuvado pela Olivia Colman, numa actuação superior aquela que lhe deu o Oscar. <br />A riqueza do texto e o trabalho destes actores, vão para sempre ficar na nossa memória. Destaca-se o trabalho árduo de empatia necessária aos cuidadores destas pessoas, que tem o imenso cuidado e capacidade de se colocarem na pele do doente. <br />Hopkins é fenomenal, desequilibrando-se, sem perder aquele olhar poderoso, que nunca o deixa perder o rumo, e isso só um actor excepcional o se pode dar a luxo de o fazer. <br />No fundo é o futuro de muito de nós que nos é reflectido e que nos faz pensar seriamente.

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José Miguel Costa

O Pai", primeiro filme realizado pelo encenador e dramaturgo francês Florian Zeller, é um drama impregnado de uma incontestável linguagem teatral, cuja ação se cinge ao interior de um apartamento londrino, que nos confronta com a angustiante confusão mental de um octogenário de classe média alta em acelerado processo demencial, que recusa o apoio de terceiros por considerar-se autónomo e saudável. <br /> <br />Apesar da temática, bem como a inerente abordagem da dialética degradação do estado de saúde/perturbação emocional na família nuclear, já ter sido infinitamente esparramada nas telas de cinema, esta obra possui a originalidade/genialidade de (tentar) contar-nos a história sob a perspectiva do protagonista (Sir Anthony Hopkins, que dispensa quaisquer comentários sobre a sua performance), o que implica jamais conseguirmos encaixar as diversas peças do puzzle. <br />No entanto, quiçá mea culpa, o filme não me tocou por aí além (e, em principio, por motivos pessoais, até teria todos os ingredientes reunidos para consegui-lo), inclusive, em determinados momentos, chegou quase a aborrecer-me (blasfémia!!).

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Pedro Brás Marques

O caminho para o fim existencial pode ter muitas cores e contornos, sendo raros os que conservam uma atitude jovial e energética. Na verdade, os fantasmas que assombram a maior parte dos seres humanos, emergem das masmorras da decadência física, mental ou de ambas. O cinema já retratou várias dessas histórias, com destaque para o fabuloso “Amour”, de Peter Handke, mas também “Iris”, de Richard Glatzer com Judi Dench, “Still Alice” de Richard Eyre onde Juliette Moore tem um dos seus melhores papéis e “Nebraska”, de Alexander Payne, para nos ficarmos por exemplos deste século. Então, o que é que “The Father/O Pai” traz de novo e que ainda não foi visto? <br /> <br />Baseado numa peça de teatro escrita pelo francês Florian Zeller, que aqui acumula com a realização, é a história de Anthony, um antigo engenheiro, já com oitenta anos e a quem a filha, Anne, tenta arranjar alguém que cuide dele, até porque quer seguir a sua vida. Mas o mau feitio do pai impede que as cuidadoras por lá fiquem muito tempo… Após a zanga, Anthony volta à sala e depara-se com um homem, sentado e a ler o jornal, que diz ser seu genro e que aguarda a volta de Anne, duma ida ao supermercado. Mas quando esta chega, o vetusto engenheiro fica estupefacto porque esta Anne nada tem a ver com a que ele tinha inicialmente falado. No dia seguinte, chega mais uma candidata, jovem, que recorda a Anthony uma sua outra filha, que nunca mais o veio visitar… Entretanto, no apartamento vão surgindo subtis alterações, com objectos a desaparecerem, enquanto a “Anne inicial” regressa com o namorado, que também é diferente do primeiro… <br /> <br />Tudo parece ilógico, como se dum filme fantástico se tratasse, com portais temporais e espaciais e personagens diferentes a entrarem e a saírem… Mas acabamos por perceber que o que vemos são os efeitos da doença degenerativa que afecta a cognoscência e a lucidez de Anthony. E o golpe de mestre de Florian Zeller foi colocar-nos ao lado do protagonista, ver o que ele vê, e não o habitual relato mais ou menos objectivo da situação. A perturbação, a baralhação, o desnorte de Anthony é partilhado com o espectador quase até ao fim do filme, causando um óbvio desconforto porque há a percepção de que, se por acaso chegarmos a uma condição idêntica, também não seremos capazes de distinguir entre a realidade e o filme que o nosso cérebro vai projectando… Curiosamente, uma estratégia narrativa semelhante é usada pelo concorrente de “The Father” aos Óscares, “Sounds of Metal”, de Darius Marder, com o impacto da surdez do protagonista. <br /> <br />Os citados exemplos de filmes sobre esta temática são quase todos de personagens femininas. Aqui não, e isso é fundamental para ampliar o peso narrativo do filme. Porque a figura paternal é uma referência, até de tradição socio-histórica, já muito antes do tutelar “pater famílias” romano. Ele é a força física que sustenta a família e tem, ao seu lado, a força emocional, representada pela mãe. Mas, aqui, o pai está sozinho, o viço já se foi e a própria filha quer ir viver para Paris… O apartamento, rodeado de arte, de livros e de música clássica, vai-se esvaziando. O engenheiro que, um dia, terá concebido sólidos prédios e estáveis pontes, vê-se reduzido à sua fragilidade existencial. <br /> <br />No papel de Anthony está o seu homónimo de apelido Hopkins, um dos maiores actores britânicos de sempre e que continua perfeito. A voz, a pose, as flutuações de humor, o olhar perdido, ora de desnorte ora de incredulidade, tudo se conjuga para uma composição magistral. Ao seu lado, a também oscarizada Olivia Colman, num registo comprometido, duma filha que tem obrigação de cuidar do pai, apesar dele a desdenhar e verbalizar que prefere a irmã, morta, e que entende que tem direito a viver o seu próprio tempo. Na realização, tratando-se dum filme de interiores, Zeller foge muito bem a uma eventual claustrofobia visual, recorrendo constantemente a grandes planos, no que teve a “sorte” de contar com aqueles dois grandes actores. <br /> <br />Um tema delicado e complicado mas a que foi dada uma abordagem inteligente e, diria até, didática, no sentido de nos dar a perceber uma realidade que, muitos de nós, não querem ver e ainda menos perceber.

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