Onde Aterrar
Título Original
Realizado por
Elenco
Sinopse
Joe Fulton (Bill Sage), realizador famoso já reformado, decide preencher a vaga de ajudante de jardineiro no cemitério local para ocupar o tempo e estar mais ao ar livre. Essa decisão inusitada, aliada às suas constantes reflexões sobre a morte e à redacção de um testamento, leva as pessoas que o amam a suspeitarem de que terá recebido o diagnóstico de uma doença terminal. A preocupação transforma-se em rumor e, rapidamente, passa a ser tomada como facto, levando amigos, familiares e conhecidos a prepararem-se para uma despedida antecipada.
Com argumento, produção e realização de Hal Hartley, este drama explora o luto antecipado e a inquietação humana perante a ideia da morte. Robert John Burke, Gia Crovatin, Jennifer Stepanyk e Jeremy Hendrik juntam-se ao elenco. PÚBLICO
Críticas Ípsilon
Em Onde Aterrar, Hal Hartley arruma a casa e começa outra vez
Um “filme de velho”, essa coisa maravilhosa e em desuso.
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Onde aterrar
Fernando Oliveira
Sei que gostei muito de alguns filmes de Hal Hartley no início dos anos noventa – “A Incrível Verdade”, “Uma Questão de Confiança” ou “Homens Simples” – mas é uma memória vaga, o homem “desapareceu” e com ele “desapareceu” o seu Cinema. Há, portanto, muito de um reencontro imprevisto neste “Onde Aterrar” que Hartley realizou no ano passado. E é um reencontro muito feliz, desperta em nós recordações das ambiências desses filmes de há trinta anos, reencontramos algumas caras conhecidas – Bill Sage, Robert John Burke, ou até Edie Falco (que antes de “Os Sopranos”, “começou” no Cinema de Hartley).
É um olhar tão satírico quanto ternurento sobre aquele meio mais ou menos intelectual nova-iorquino, com diálogos cheios de imaginação, tão cómicos quanto inteligentes, que se enleiam em situações que quase sempre deslizam para a comédia.
Joe Fulton (Sage) foi um realizador reconhecido de comédias românticas, agora, nos sessenta é mais conhecido por namorar uma actriz muito popular de uma série televisiva de sucesso. Ora, naquele dia Joe visita um cemitério perto da sua casa, quer trabalhar como jardineiro, por nenhuma razão importante, apenas quer experimentar um trabalho diferente, manual; depois resolve ir ter com a sua advogada começar a resolver o seu testamento, apenas porque julga ser a altura certa.
Somando as duas coisas, os familiares e os amigos julgam que o homem vai morrer, e essa ideia vai criar uma série de mal-entendidos e situações bastante divertidas, mesmo quando têm um ligeiro travo amargo.
É, portanto, uma comédia de enganos, extraordinariamente bem escrita, sobre isto mesmo: onde aterrar? Onde, depois de termos tido uma vida “cheia”, podemos assentar e levar as coisas com calma, sem pressas.
Está cá tudo: a memória do Cinema de Hartley, a memória da comédia americana, o gosto do realizador pelo Cinema de Godard, tudo espantosamente encenado, tudo muito leve, tudo muito bonito. É um pequeno e maravilhoso filme que nos deixa felizes. E isso é muito bom.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.com")
Onde Aterrar
Fernando Pimentel
Neste filme aterra-se num lugar sossegado. Numa espécie de corredor das almas em que a entrada em alguns quartos nos oferece momentos genuínos de contemplação e em que os outros, mais encaixados na narrativa, preparam esses momentos de soltura. Reduzem o que é material à sua pequena condição, para que o questionamento e o espiritual tomem conta do écran.
Há uma cena particular de que me lembro, porque diariamente se passa algo equivalente à minha porta. Nunca lhe atribuiria um significado para além do evidente. Vou à janela e é como se estivesse a ler um poema do realizador Hal Hartley. É também feliz que um filme menos movimentado não passe da hora e um quarto, sem por à prova a nossa capacidade de atenção. Passaram vários meses e ainda me lembro dele. Deve querer dizer alguma coisa.
O Testamento
J.F. Vieira Pinto
É uma preocupação, ou deveria ser, a ideia de fazer um testamento. Aparentemente simples, mas não! E nada como uma advogada para definir regras na sua redação que, aparentemente inócuas em vida, podem ser problemáticas no pós morte. “Não tens filhos?” - pergunta a advogada. A resposta direta do cliente parece não ser assim tão óbvia.
Não desvendemos o mistério para não dar pistas ao espectador. Adiantemos apenas e só, que a advogada já se teria aproveitado da indiferença pelas questões monetárias do seu cliente (e amigo) para “exagerar” nos honorários cobrados. O que leva este homem - realizador -, a querer um emprego para sujar as mãos e, consequentemente chegar ao fim do dia cansado “fisicamente “? Temos a cena em que vemos Joe Fulton (Bill Sage) a pegar numa pá, nos instantes iniciais. Ficamos com a sensação de que teria muito a aprender. Só não sabemos se as funções de coveiro também estariam incluídas nas suas funções.
O pânico apodera-se da família mais próxima. Terá o nosso personagem uma doença terminal? E assim dá-se início a esta comédia de equívocos. Percepciona-se que é um filme com amigos e para amigos este “Onde Aterrar”.
A coisa não está fácil para o cinema independente norte-americano. O resultado final é o que é. Há que usar os recursos disponíveis - leia-se “money” -, o melhor possível. A própria banda sonora é composta por Hartley (q.b.) e com a ajuda inestimável (e barata) de Beethoven e Mahler.
Esta “longa“ de 75 minutos que, por estes dias, poder-se-á considerar “média” tendo em comparação obras como “O Brutalista” e mesmo “O Riso e a Faca”, filmes nada recomendáveis para doentes prostáticos. Hartley não necessita de mais tempo para nos contar uma história inquietante que a todos acontecerá nas fases mais ou menos “terminais" das nossas (efémeras) vidas.
Delicioso o trocadilho na cena com os youtubers e amantes de séries, Mick e Keith, sobre bandas de rock. Stones? Os “Roses”? Não! Quem (Who?) uns tipos cujo venda do vinyl resultou num bom negócio. Resumindo e para facilitar, Hal Hartley cita The Rolling Stones (os velhinhos); o fabuloso álbum “Exile on Main St., mas também os mais “recentes” Stone Roses” e claro os The Who. Frank Zappa, esse tem um tratamento especial: é citado no início como referência da idade da sua morte aos 52 anos, como exemplo de idade para o início de um testamento. Ainda expectei uma faixa de “Apostroph” mas não. Zappa ainda não chegou às trilhas sonoras nestes tempos de revivalismos. Fiquemos pela citação a um poema de Cat Stevens e basta. (****)
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