Caros Camaradas!

Votos do leitores
média de votos
Histórico, Drama 116 min 2020 06/05/2021

Título Original

Dorogie Tovarishchi

Sinopse

<div>União Soviética, 1962. Membro do Partido Comunista, Lyudmila acredita cegamente que trabalha em prol de uma sociedade justa e igualitária. Mas tudo muda quando, durante uma greve na fábrica de construção de locomotivas em Novocherkassk, testemunha um grupo de trabalhadores a ser assassinado a tiro de metralhadora sob as ordens do governo. O objectivo era encobrir as revoltas populares que surgiam com frequência devido às duras condições de trabalho e ao aumento das quotas de produção mínimas para cada funcionário, que lhes reduzia as remunerações. A partir daquele momento, toda a visão do mundo de Lyudmila se altera irremediavelmente.</div> <div>Um drama baseado em factos reais que conta com realização, produção e argumento do veterano Andrei Konchalovsky ("O Rolo Compressor e o Violino", "Paraíso") . Em competição na 77.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, recebeu o Prémio do Júri. PÚBLICO</div>

Realizado por

Andrey Konchalovskiy

Elenco

Yuliya Vysotskaya, Vladislav Komarov, Andrey Gusev

Críticas Ípsilon

Os órfãos de Estaline

Luís Miguel Oliveira

Konchalovsky ainda é capaz de brilhantismo.

Ler mais

Críticas dos leitores

Fernando Oliveira

“Caros camaradas!” de Andrei Konchalovsky conta-nos os acontecimentos terríveis e trágicos que aconteceram na cidade de Novocherkassk em 1962 na URSS e que foram mantidos em segredo até aos anos 90. E conta-nos essa história com uma perturbante amoralidade, parecendo que não se quer envolver emocionalmente ou julgar a História. Filma o movimento que parte da normalidade do quotidiano, que é abruptamente perturbado, instalando na história e nos personagens a dúvida e a descrença na justeza dessa normalidade. <br /><br />Num preto-e-branco muito bonito, Konchalovsky conta-nos este acontecimento pelo “olhar” de Lyudmila, mulher de meia-idade, solteira e mãe, comunista ferrenha e saudosista de Estaline (“Sem Estaline está tudo perdido” diz-nos no filme), e membro do comité local do partido. E logo nas duas primeiras cenas introduz-nos na realidade da época: Lyudmila sai da cama do amante, também membro do Partido, e falam da eminente subida dos preços dos alimentos e do descontentamento que daí pode resultar; depois a mulher vai à mercearia onde se concentra uma multidão amedrontada com a possibilidade de faltar comida, Lyudmila é recebida nas traseiras e fica com o melhor que a loja tem. Percebemos a realidade do país na época: a pobreza para quase todos, o “melhor” para os membros do Partido. <br /><br />E depois o impensável acontece, os operários de uma fábrica local entram em greve como protesto sobre os anunciados aumentos. O assunto tem de ser resolvido, a greve não pode acontecer (“Uma greve de trabalhadores num país socialista”); as primeiras reuniões locais. Depois a máquina do regime é posta em movimento para controlar os acontecimentos; Lyudmila no inicio é particularmente dura com os grevistas, os enviados por Moscovo gostam de a ouvir dizer que os responsáveis têm de ser exemplarmente castigados. Mas os acontecimentos descontrolam-se, uma enorme massa humana de outras cidades vizinhas chega à cidade para apoiar os grevistas. É o caos. <br /><br />E então o filme resvala para a tragédia; é dada a ordem, e os soldados da KGB disparam sobre a multidão, e Lyudmila assiste a tudo isto como se batesse de frente contra uma parede. Konchalovsky encena o massacre de uma forma magnifica, há um longo plano fixo no interior de barbearia, através da janela. E depois, quase cruelmente, vai-nos mostrando a forma como os políticos e a policia vão “destruindo” a verdade do que aconteceu, e perseguindo as pessoas e mentindo, criar uma verdade oficial. E a filha de Lyudmila, também grevista, desaparece; o “mundo” de Lyudmila fragmenta-se com o medo e com as dúvidas que a assolam. A demanda para encontrar o corpo da filha (muitos dos corpos dos grevistas assassinados foram enterrados em campas já ocupadas para esconder a verdade sobre o número de mortos), somado àquilo que se lhe torna evidente, a monstruosidade do regime, faz desabar todas as suas certezas. <br />O filme resvala para o melodrama num final muito bonito, num telhado, a promessa: “O melhor está para vir” (?). <br />Um filme muito bom, magnifico naquilo que é Cinema, inteligente na forma como narra a história, e onde se nota uma liberdade criativa que advirá, provavelmente, da idade do realizador. Com 83 anos teremos direito a essa liberdade de criarmos da forma que quisermos. Um dos grandes filmes estreados em Portugal o ano passado. <br />(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Continuar a ler

Pedro Brás Marques

O argumento de “Caros Camaradas”, o filme assinado por Andrey Konchalovsky e que foi o candidato da Rússia à categoria de Melhor Filme Internacional, nos Óscares deste ano, mas não chegou à ‘short list’ final, centra-se num episódio concreto: o massacre de Novocherkassk. Nesta cidade, situada na bacia do Don, em 1962, o exército e a KGB dispararam contra operários duma fábrica de locomotivas, mergulhados em greves e protestos contra as péssimas condições de trabalho e a crescente escassez de alimentos. 26 mortos e dezenas de feridos foi o resultado da acção ordenada por Moscovo que ainda obrigou a cidade a estar sitiada por um cerco militar, os habitantes a assinarem declarações em como “não sabemos de nada” e, como prémio, montou-lhes um bailarico. Parece um episódio ‘nonsense’, mas foi mesmo o que aconteceu… <br /><br />A história é contada do ponto de vista de quem está no poder, em concreto de Lyudmila, que fazia parte do governo local e uma fervorosa apoiante do partido, em cujas virtudes acredita. É, portanto, uma das privilegiadas, tem acesso prioritário a bens supérfluos, veste-se de forma moderna quando comparada com as demais e anda enrolada com um homem casado, um “camarada” do partido. Vive com o pai que suspira por Estaline e acha que “Kennedy devia era bombardear-nos” e uma filha, algo rebelde, que está contra o poder local e, logo, contra a mãe. Lyudmila está no meio de dois mundos, de duas concepções de vida e procura esquivar-se por entre um mundo de contradições. <br /><br />Konchalovsky filmou “Caros Camaradas” a preto e branco, o que aliado à reconstrução cénica e ao guarda-roupa, tem o efeito de dar a impressão de que estamos a ver imagens da época. O momento mais forte do filme é, claro, o do massacre. O realizador mostra vários pontos de vista, desde o do sniper que vai acender o rastilho, ao da população em fuga, sem esquecer o desespero de Lyudmila à procura da filha que ela sabia estar entre os manifestantes. Konchalovsky não montou um momento de acção, antes parou a câmara e deixou ver o que ia acontecendo… O momento em que se refugiam numa loja é dum impacto e dum dramatismo raros, mas, depois, o filme perde espessura, centrando-se exclusivamente na odisseia de Lyudmila em busca da filha. <br /><br />O realizador que nos anos 80 do século passado andou por Hollywood a filmar umas parvoíces mas que, pelo menos, nos mostrou a sensualidade de Nastassja Kinski no longínquo “Os Amantes de Maria”, não esconde nada relativamente aos acontecimentos passados em Novocherkassk, desde a manipulação das autoridades, passando pela hipocrisia generalizada e pela miséria do povo enganado e oprimido, sem esquecer o toque de perversidade que é a organização do tal baile quando a cidade acaba de perder muitos dos seus filhos, tal qual as autoridades lavam o sangue derramado na praça… Mas há memórias que convém não esquecer, para que não voltem a ocorrer.

Continuar a ler

José Miguel Costa

O filme "Caros Camaradas", realizado pelo veterano russo Andrei Konchalosky, é um drama histórico (seco), filmado a preto e branco (o que lhe imprime uma aura - ainda mais - austera), que recua até junho de 1962, e mais concretamente à cidade de Novocherkassk na URSS, para dar-nos conta, através de uma recriação ficcional, de um massacre real aí ocorrido, levado a cabo pelo KGB (e abafado pela máquina comunista durante 30 anos), que disparou indiscriminada e aleatoriamente contra uma multidão de operários que exerciam o seu (alegado) direito à greve, resultando na morte de 80 desses manifestantes (cujos corpos foram enterrados secretamente em lugares desconhecidos). <br />O enredo principal centra-se em Lyuda (e é sob o seu olhar/perspectiva que assistimos ao desenrolar da História), uma comunista leal ao regime, funcionária do comité da cidade, adepta da adopção de medidas de punição severas contra aqueles que se desviem das orientações emanadas pelo Sistema (ultra-autoritário), mas que se vê confrontada com o facto da sua jovem filha integrar a massa de manifestantes (sendo, inclusive, uma das desaparecidas após a repressão estatal violenta). <br /> <br />O grande mérito desta obra advém (a par de alguns planos de excepção, como por exemplo, aquele em que assistimos, por detrás da janela de um salão de cabeleireiro, ao desespero dos que tentam fugir da praça) do modo inteligente (não maniqueista) como é explorada a dualidade de sentimentos da protagonista, que teima em manter-se fiel ao partido (mesmo após a partida de Estaline, o seu grande idolo), não aceitando quaisquer criticas externas contra o mesmo, apesar de perceber no quão patético/burocrático/"anti-povo" este está a transformar-se (quiçá, por não ter mais nada em que acreditar), e, por outro lado, encontra-se em pânico (sentimento que reprime conscientemente em prole da hierarquia) por receio do destino da sua filha.

Continuar a ler

Envie-nos a sua crítica

Preencha todos os dados

Submissão feita com sucesso!