Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

O realizador russo Kirill Serebrennikov (um crítico de Putin, a cumprir pena em regime de prisão domiciliária), através do seu filme "Verão", transporta-nos até à Leningrado dos anos 1980 para introduzir-nos no seio do insípido meio musical underground pré-perestroika que, embora controlado pela censura do Estado totalitarista, começava a ser infectado pelo burburinho do glam rock e do punk rock proveniente (clandestinamente) do porco mundo capitalista. ´

A "viagem" irá focar-se em duas bandas que viriam a marcar a década, os Zoopark, liderados por Mike Naumenko (casado com a sedutora Natalya Naumenko), e os recém-criados Kino (do enigmático Viktor Tsoi). O primeiro destes (que contornava/"cedia" com eficácia o Sistema, conseguindo, desse modo, actuar nos decrépitos clubes sob supervisão do regime) apadrinhou o pedante novato, por reconhecer-lhe talento e originalidade, desenvolvendo-se entre ambos uma cumplicidade artistica forte e, em simultâneo, algo distante.

Perante tal descrição, não se pense que estamos perante um tradicional biopic ou um drama de época musicado com uma mensagem política subjacente (embora, também seja tudo isso - de um modo elegantemente subtil), na medida em que (aparentemente) a narrativa denota um maior interesse em explorar a dinâmica relacional do platónico triângulo amoroso (todas as restantes ilações ficarão sob a nossa responsabilidade, já que ele "só" expõe o absurdo, não o crítica veementemente).

A (enorme) força da obra nasce tanto desta "indefinição"/"mistura" quanto (e sobretudo) dos múltiplos momentos em que o realizador decide inundar a realidade com soberbas explosões de fantasia (numa espécie de realismo mágico), transfigurando as situações do quotidiano em estilizados videoclips esfuziantes (nos quais os personagens dão largas às suas pulsões rebeldes, adaptando imortais hits musicais do ocidente), sempre devidamente "legendados"/criticados (de um modo divertido) com a mensagem "isto não aconteceu".
Estes surreais episódios nonsense (praticamente os únicos em que a cor "borra" a magnífica fotografia a preto e branco) conseguem transformar uma obra eminentemente nostálgica num verdadeiro "verão" (de tal modo que aposto que este irá transformar-se num filme de culto para uma enorme minoria de cinéfilos).

Publicada a 03-06-2019 por José Miguel Costa