Cinecartaz

Fernando Oliveira

Coração aberto

Gosto da maneira como Yann Gonzalez pega em códigos e referências de géneros cinematográficos de antanho - as coreografias sanguinolentas do policial giallo; as ambiências fantasmagóricas, quase oníricas, de alguns filmes da Hammer ou os produzidos por Corman – e os encharca com um fetichismo berrante, um desequilíbrio entre o sonho e o pesadelo. Torna “Coração aberto” num filme tão excêntrico e delirante, quanto apegado a um romantismo destrutivo e atordoante.
Paris, último ano da década de setenta. Anne Parèze é uma produtora de filmes pornográficos gay, filmes onde o pequeno orçamento é compensado pelo gosto de os fazer. Anne é uma mulher de coração destroçado, Loïs, a sua amada e amante há dez anos, separou-se dela. Loïs também trabalha com ela, faz a montagem dos filmes, e não aguenta a escuridão, afogada no álcool, que habita em Anne. Anne é uma sublime Vanessa Paradis (num filme tão estilizado, são tão importantes e intensos os detalhes dos seus movimentos, os seus olhares), e Loïs é Kate Moran. Ao mesmo tempo um homem mascarado começa a matar de forma particularmente sádica os actores dos filmes produzidos por Anne. Uma vingança de um louco por causa de uma tragédia do passado, uma vingança sobre ninguém mas sobre uma ideia. Anne embarca numa procura, para descobrir o assassino e as suas razões, o que conduz o filme à tragédia, mas um filme que a salva numa orgia gay e num surrealismo libertador.
É um filme que submete a narrativa ao estilo, um delírio formal algumas vezes exagerado e absolutamente extravagante, voyerista, que se por vezes o sufoca o torna num filme com um fascínio que se apega.
No ano cinematográfico mais miserável de que me lembro, um dos poucos bons filmes que vi estreados cá.

Publicada a 16-07-2019 por Fernando Oliveira