Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

A estreia em circuito comercial de cinematografia do Cazaquistão é um facto louvável de assinalar e, por certo, o seu realizador, Sergey Dvortsevoy, consegui tal feito muito graças ao prémio de melhor actriz atribuido no festival de Cannes a Samal Yeslyamova (que encarna a sofrida Ayka, personagem que dá nome ao seu filme).

"Ayka" é um drama social de realismo brutal e intenso, em registo semi-documental, filmado com uma câmara de mão, em constante movimento sofrego, que jamais deixa de estar obsessivamente colada à sua protagonista (com constantes grandes planos do seu rosto, para que não percamos qualquer réstia da sua crua expressividade).


Dotada de uma narrativa austera (que nos expõe perante o percurso orgânico/visceral - uma autêntica via sacra - de uma debilitada jovem imigrante ilegal cazaque, nos cinco dias subsequentes a ter abandonado o seu bebé recém nascido na maternidade, pelos labirintos esconsos de uma selvática Moscovo fustigada por um inverno implacável), esta obra acaba por revelar-se sobretudo como um estudo de personagem (da amoral Ayka), relegando para segundo plano uma perspectiva eminentemente humanista ou de denúncia social.
Apesar de optar por uma abordagem desta natureza, é inegavel a sua mensagem politica, mesmo que indirecta, por via da(s) realidade(s) subumana(s) que ilustra. Todavia, talvez pudesse ter sido mais incisivo, na medida em que o foco quase exclusivo na "road-trip da desgraçada" a partir de determinado momento, consequência da repetição, torna-se algo monótono (o que é pena, face a tal diamante em bruto, que devidamente delapidado poderia obter uma luminosidade mais intensa).

Publicada a 11-04-2019 por José Miguel Costa