Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Quando os opostos se completam...

O livro bem pode ser verde mas o que revela é a escuridão que o ser humano por vezes reserva para com o seu semelhante, materializada no racismo, na discriminação e na segregação raciais. Haverá esperança? Este filme diz-nos que sim, que duas pessoas com naturezas e culturas diferentes podem, efectivamente, aprender uma com a outra, baste que haja mútuo respeito e diálogo.

Tony Lip é um daqueles sujeitos que passa a vida em pequenos biscates e a desenrascar-se como pode. Bronco, inculto, xenófobo para tudo o que não soe a italiano, revela-se destemido, esperto e com bom coração, usando a sua capacidade inata de ler os demais para ir fazendo a vida entre apostas e trabalhos menos lícitos. O night-club onde trabalhava encerra e fica desempregado. É quando recebe uma proposta…inusitada: servir de condutor e de segurança a um músico negro, na sua tour pela América profunda e racista. Trata-se de “Doc” Don Shirley, um pianista invulgar, de repertório clássico, snob, erudito e distante. A história desenrola-se, portanto, entre estes dois pólos, distantes e divergentes, mas que a proximidade física forçada e a troca de experiências irão aproximar.

É incrível como há pouco mais de meio século a segregação racial estava perfeitamente enraizada em alguns estados dos EUA. Aliás, havia até um guia para que os negros pudessem circular por essas zonas evitando problemas, o tal “Green Book” do título, que o tradutor português resolveu sub-titular de “Guia para a Vida”, tal qual o livro do Dalai Lama… Mas o que realmente importa é a viagem de mútua descoberta, assistir ao estabelecer de pontes entre o bruto italiano e o delicado negro, com a apreciação recíproca a crescer com o tempo. Ver Tony a apreciar a música de “Beethoven e de Joe Pan” interpretada pelo “Doc” bem como a sua visão sobre a vida, e este a libertar-se das amarras em que vivia, experimentando os prazeres básicos e mundanos que o primeiro lhe proporcionava, desde novos tipos de música até à própria alimentação. Há uma cena onde isso fica particularmente expresso: é quando “Doc” ajuda Tony a escrever as cartas à mulher, expressando por palavras o que ele nem sequer conseguia perceber nos seus próprios sentimentos. No fundo, ambos corrigem os excessos da sua natureza pela acção e comentários do outro, numa mensagem que se pode extrapolar para toda e qualquer sociedade. No final, tudo acaba bem para estes “amigos improváveis”, demasiado bem, até, o que será o único ponto negativo dum filme que trata um problema sério de forma inteligente e algo descontraída.

É claro que para encarnar duas personagens com tão vincada personalidade teria de se encontrar actores de excelência, o que Viggo Mortensen e Mahershala Ali são irrefutavelmente. O primeiro faz esquecer a sua ascendência nórdica ao vestir a pele dum típico italiano, falador e gabarolas, enquanto o segundo assume na perfeição os maneirismos associados à erudição dum pianista clássico. Surpreendente é, igualmente, a realização de Peter Farrelly, que no passado tinha assinado com o irmão Bobby coisas abjectas como “Doidos por Mary”, “Os Três Estarolas” e “Doidos à Solta”. Aqui, nada de escatologia, antes sobriedade, humor e bastante sensibilidade no tratamento dum tema que exige sempre redobrados cuidados. Uma bela surpresa.

Publicada a 03-02-2019 por Pedro Brás Marques