Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Com o filme “Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro” o realizador franco-tunisino Abdellatif Kechiche não conseguiu atingir o nível de magnificência das suas obras-primas “O Segredo de um Cuscuz” e “A Vida de Adèle”. Para o efeito, por certo, terão contribuído as suas cenas longuíssimas (e algo repetitivas) sem grandes preocupações de enredo e conflito dramático (a narrativa surge como algo de somenos importância no seio do frenesim de corpos, saturados de testosterona e progesterona, em “movimento perpétuo”). Mas tal significará estarmos perante uma obra menor? Nada disso, pois o seu característico cinema orgânico/”carnal” e inundado de luz continua intacto (numa quase ode ao exotismo dos franceses de ascendência tunisina).

Ao longo de três horas filma com uma câmara de mão (incansável e “apaixonada” pelos seus personagens – que nos são expostos através de constantes grandes planos, para que não percamos qualquer “esboço” da sua sensualidade), os (des)amores e flirts (num realismo sem filtros) do “verão azul” de 1994 em Kechike (cidade piscatória do sul de França).
Em constante festa (e só "descansamos" quando decide filmar, durante 10 minutos - quiçá, para "dar-nos folga para respirar"-, a quietude de uma ovelha a parir) vamos seguindo as interacções do grupo de amigos e familiares do cândido Amin (um jovem, de ascendência árabe, aspirante a argumentista e fotógrafo, que retorna à sua terra natal para gozo de férias) entre praia, discotecas, restaurantes … e muitas mulheres (de todas as proveniências e feitios).
Um quase “home movie” (sem edição) de pessoas alheias que não nos cansamos de cuscar. Porquê? Eis a questão …

Publicada a 04-02-2019 por José Miguel Costa