Cinecartaz

António Sá

Intuições sobre o género do futebolista (spoiler)

"Intuições sobre o género do futebolista [a propósito do filme “Diamantino”]"

»»»»» Na fantasia entre o kitsch e o naïf que instituem a manipulação da imagem, a definição das personagens e a intrincada trama do filme Diamantino, nome do futebolista que o protagoniza, há um núcleo que creio decorrer de uma intuição de autor, núcleo modulado que compreende: a assexualidade do protagonista; e, no decurso narrativo, a mutação de género que lhe acontece. Abordo a seguir, quanto a este pouco identificável artefacto de título Diamantino (Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, 2018), os dois aspectos assinalados:
»»»»» 1. Assexualidade é “estilo de vida” que decorre do retrato-em-acção do futebolista. Além de ter visões, quando em campo, de enormes cãezinhos de peluche que o submergem, índice simbólico do estádio mental em que ancorou, estádio de infantil autoconforto, o no entanto superdotado futebolista relaciona-se tão-só com uma teia sucinta de familiares próximos: o pai, figura para ele de referência, que entretanto morre de colapso cardíaco, quando o filho falha um penálti decisivo; e duas irmãs gémeas, decerto inspiradas em personagens-caricatura do cineasta Pedro Almodóvar, as quais terão papel de relevo na descosida intriga, ou intrigas cruzadas, do filme. Estas três figuras próximas a Diamantino passeiam com ele no iate, e com ele coabitam a mansão que os seus proventos largamente admitem. Mais tarde no entrecho, será vítima insciente das manas gémeas, que se dedicam a apropriar-se dos milhões do mano milionário, desviando-os para um off-shore. Além de tal maldade, estas megeras frívolas e gananciosas, pequenas bruxas cujos discursos são básicos e basicamente constituídos por enormidades e palavrões, insultando o irmão despudoradamente, incluindo o epíteto de “paneleiro” — exercem sobre ele uma intempestiva violência doméstica, que não se exime à agressão física. No entanto, Diamantino é de tão boa natureza que as desculpa e considera, na aparência sem ressentimentos. A estes membros da família, vem juntar-se um equívoco “refugiado”, que não o é: trata-se de uma agente policial infiltrada, que Diamantino acolhe candidamente enquanto “filho adoptivo”. São assim estes familiares que o preenchem, não se lhe conhecendo qualquer relação de natureza sentimental ou sexual. Tal falha, situando-o em zona de assexualidade, vem a ser expressamente confirmada num diálogo cândido com o dito “filho adoptivo”, quando revela que nunca fez sexo na vida, e acrescenta: “mas deve ser uma coisa muito fixe”.
»»»»»»»»»» 2. A mutação física que involuntariamente lhe vai ocorrendo, e lhe suscita vergonha quando tem de despir a camisola para a filmagem de um spot publicitário, é o crescimento de seios, mamilos protuberantes, no lugar onde antes estavam os definidos peitorais de atleta. A razão disto é hormonal, segundo informação de uma geneticista italiana. Quem seja esta, é um dos desacatos da intriga em estado de delírio, em que o filme se funda. Em síntese: as manas megeras, inquinadas em bruxarias de vanguarda, contratam esta geneticista italiana, de artes equivocamente hipertecnológico-mágicas, para clonar em muitos outros o futebolista de génio, dando assim lugar a uma equipa imbatível, e para esta experiência o submete a um choque hormonal. Na ideia delas, este seria um meio de multiplicar os ganhos, explorando as qualidades atléticas do mano. Ideia delirante, a delas e a dos autores do filme, mas que propicia essa imagem tendencialmente hermafrodita de um homem, já de si de uma aerodinâmica física e de uma assexualidade “suspeitas”.
»»»»» O filme constrói assim uma intuição: a de um submerso hermafroditismo de expressão sexual neutra, mas que reúna a excelência de um e outro géneros sexuais, resultando numa capacidade performativa superior. Subjaz a esta intuição o persistente mito do hermafrodita. E acrescente-se que não pode nenhum vivente humano viver, ou seja, organizar modos de vida, sem os mitos, distinguindo que mito não é religião, sendo os mitos necessidade mental estruturante da nossa condição humana.
António Sá
[09.04,2019 / 18.04.2018]

Publicada a 25-04-2019 por António Sá