Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Estrelas e buracos negros

Nem todas as estrelas conseguem brilhar como queriam ou, até, como mereciam, por força dos buracos negros que as rodeiam e lhes sugam a luz. A biografia de Tonya Harding é exactamente assim, a duma criança-prodígio, uma sobredotada para a patinagem artística que só não conseguiu atingir o olimpo dos desportistas porque convivia com as pessoas erradas: a mãe, o marido, os amigos do marido e, claro, ela própria.

A história correu mundo em 1994: durante uns treinos da equipa de patinagem dos EUA, a atleta Nancy Kerrigan foi atacada fisicamente por alguém, veio depois a descobrir-se, que pertencia ao grupo duma rival, Tonya Harding. Revelada a conspiração, esta última seria desqualificada e o seu sonho, perfeitamente alcançável, de se tornar a melhor do Mundo, cairia por terra.

“Eu, Tonya” é narrado em flashback, dando-nos a conhecer uma Tonya Harding ainda criança que adorava o pai mas acabou a viver sozinha com uma mãe violenta, fria e autoritária. Para fugir deste pesadelo, ainda adolescente atira-se para os braços do primeiro homem que lhe pareceu gostar dela, mas que acabou por se revelar a versão masculina da mãe: fisicamente violento e impositivo. Ela própria, dotada duma natureza impertinente e explosiva, não ajudava, achando que a sua intuição e as suas capacidades inatas seriam suficientes para vencer. Pelo meio desta tempestade perfeita, vê a sua ascendente carreira na patinagem artística torpedeada pelos júris, que embora lhe reconhecessem uma capacidade técnica ímpar, penalizavam-na pelo lado formal. Afinal, ela era uma “hillbillie”, uma atleta grosseira, com roupa de mau gosto, com total ausência do polimento urbano e de “classe” que se exigiria a uma atleta daquele desporto, ainda para mais sendo representante dos EUA no mundo. O contraste entre o mundo rude de Tonya e a beleza deste desporto sublinha, ainda mais, o fosso entre estes dois mundos…

Este biopic de Tonya Harding é assinado por Craig Gillispie que optou por dar ao filme um tom que tanto remete para a comédia negra, como para o drama pessoal, algures entre o “Fargo” dos Cohen e “Despojos de Inverno” de Debra Granik. Optando-se por intercalar a acção com entrevistas individuais a cada protagonista, o espectador vai formando a sua visão do que realmente terá acontecido e, principalmente, se Harding terá tido alguma relação directa com o ataque a Kerrigan. Se o desempenho da lindíssima Margot Robbie é merecedor de rasgados elogios (por vezes, o destempero da personagem é tal que evoca a louca Harlequina de “Esquadrão Suicida”), a verdade é que verdadeiramente excepcional está a inesquecível “C.J.” de “West Wing”, Allison Janney, aqui no papel da malévola La Vona. A frieza, a maldade, a distância, a insensibilidade da personagem estão de tal modo retratados na sua composição da mãe de Tonya que seria uma injustiça não lhe entregar imediatamente o Óscar e quantos prémios mais houver…

Há, ainda, uma outra leitura de “Eu, Tonya” que é impossível não fazer. Esta história passa-se em pleno “redneck country”, a América profunda que elegeu Donald Trump. Um sector geográfico e social do país conhecido pela sua falta de cultura, pelo seu “atraso” social, muito por via do constante desemprego que acaba por desaguar em problemas de álcool e violência. O “Eu, Tonya” do título, acaba por ser uma fórmula de dizer “Eu, América”. Uma visão daquilo em que o país se pode tornar se continuar entregue a gente mal formada e de carácter mais do que duvidoso.

Publicada a 25-02-2018 por Pedro Brás Marques